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Crônica

Ainda Australopithecus

Lembro-me de uma professora de Biologia dizendo que o futuro da humanidade é pardo. Lembro-me também da velocidade do meu raciocínio — logo após a fala dela — que colocou um ganês sorridente de mãos dadas com uma branquela da Noruega, ambos em uma espécie de sala infinita, onde eu pude traçar toda a descendência dos dois, enorme, até um moleque pardo e barrigudinho. Para ser mais preciso: criei uma árvore genealógica composta por pessoas nuas em uma sala infinita depois da afirmação da professora. Não sei se é uma previsão científica ou se ela só constatou isso dentro de um ônibus, num desses achismos nossos de cada dia, mas vi certa lógica naquilo tudo.

Lembro-me da minha última professora de Português dizendo que o primeiro cara que associou a beleza da rosa à beleza de uma mulher foi um gênio; o segundo foi um copiador safado. Lembro-me também da vergonha que senti por ser um copiador safado e tentei imaginar quantas vezes tinha dito/escrito aquilo e em que posição eu estava depois do primeiro Homo sapiens a fazer tal comparação. Descobri um tempo depois que Salvador Dalí foi quem disse essa coisa da beleza e da flor e da mulher, mas tinha algo a ver com bochechas rosadas. E, olhem só, o primeiro cara que associou um negro a um macaco em minha frente se tornou um pedantezinho de merda que falava sobre surrealismo e Paris de um jeito que até o Dalí pediria arrego. O racista não gostava de Português e a professora de Biologia, a da predição parda, não gostava muito dele.

Lembro-me da primeira vez que vi a reprodução de um Australopithecus afarensis: um hominídeo de pelos acobreados, bípede e com cara de bobo. A legenda da imagem dizia que ele não tinha mais do que um metro e vinte centímetros de altura e que o cérebro era ridículo se comparado ao nosso. Lembro-me de tentar imitar aquela expressão idiota, de ficar feliz por ter um cérebro melhor que o dele e de não saber como sabiam a cor dos pelos — assim como eu não sabia como sabiam a cor da pele dos dinossauros. O livro onde achei o Australopithecus dizia que ele não era muito esperto. Desse jeito mesmo: ele não era muito esperto.

Lembro-me de assistir várias vezes a um vídeo dos Jogos Olímpicos de 1968, na Cidade do México, e de dois caras levantando punhos cerrados e calçando luvas negras no pódio. Lembro-me também do vídeo de Jesse Owens nos Jogos Olímpicos de 1936 vencendo os 100 metros rasos na Berlim de Hitler — se o Führer saiu do estádio para não cumprimentar o atleta negro ou não saiu, bem, quem tem link no verbete ‘Holocausto’ da Wikipédia não é Owens.

Hoje eu assisti a dois vídeos do deputado federal Coronel Tadeu, do PSL de São Paulo, arrebentando uma charge da exposição na Câmara em homenagem ao Dia Nacional da Consciência Negra. A charge, cujo título é “O genocídio da população negra”, mostrava um jovem negro caído ao chão enquanto um policial saía de cena com um revólver fumegante. Lembro-me que pela manhã levei a mão à boca várias vezes — mentira, que absurdo, que desumano, que horror — e com certeza alcancei com perfeição a face idiota do Australopithecus que tentei copiar há alguns anos. Lembro-me também de perguntar para mim mesmo se o deputado realmente é um racista de merda ou se fez aquilo apenas pelo confete que nos últimos tempos esse tipo de atitude tem gerado. Não sei qual resposta é a pior. Ele, o deputado, é um bom exemplo de como ainda Australopithecus somos.

Lembro-me da minha primeira professora de Artes e do dia em que ela perguntou sobre qual era a nossa cor favorita e disse que faríamos um desenho usando o lápis respectivo. Não tinha lápis azul para todo mundo — eu ainda gostava só de azul — e acabei chateado. Lembro-me que o primeiro cara que associou um negro a um macaco em minha frente gostava de marrom e desenhou um monte de bosta. Literalmente. Lembro-me também que a professora, percebendo meu desânimo e falta de lápis, estendeu o preto para mim e disse: fica com esse, é o mais especial, porque se você começar a colorir uma cor sobre a outra, todas as cores uma sobre as outras, a cor que você vai conseguir será essa, a negra. Sorri naquele dia e sorrio agora ao lembrar disso, porque é mais bonito pensar que todos juntos, ganeses e noruegueses, brasileiros e peruanos, todos juntos e misturados não somos pardos, mas negros.

Tags : consciência negracrônicaracismorespeitovida em sociedade

The author Marcos Marciano

Marcos Marciano é um ser humano amador. Formou-se em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais, lê livros por esporte e escreve por falta de vergonha na cara. Ainda não sabe por que a Débora resolveu se casar com ele.