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Crônica

Amor chinfrim

Microcrônica de amor para pessoas que se remoem pela metade daquela laranja que terminou não sendo fração de fruta nenhuma. De porra nenhuma. Mas calma, que raiva besta. Ela se encantou pelos abadás e te deixou queimando CD com todas as baladinhas de rock corta-pulso. Ok, mas calma. Conheci um cara que jogou crucifixo em córrego, porque colocar a culpa no Nazareno era mais fácil do que suportar a fria realidade do amor chinfrim. Teve aquele outro que se vingou da bendita mandando flores e carinhos e desejos de vida longa para a ex-sogra.

Calma.

Sempre há histórias horríveis. E melhores. A sua, a minha e a dela — a dela, oras, porque demônios não existem, ela também tem coração — são só histórias. Esse papo de metade disso e daquilo é ainda mais história. Cê sabe. Alma gêmea é nome pra motel em beira de rodovia, pra novela das seis onde os atores têm uma obrigação angustiante de se expressar no português mais culto possível, sem comer uma sílaba sequer. Um saco, cê sabe. Metade da melancia, do caju ou do limão vão te botar numa viagem sem volta para álbuns de casamento bregas, vai por mim. Em listas de chá de panela. Pior: dois anos visitando as pessoas que foram ao chá de panela com o álbum brega de casamento debaixo do braço, achando que o fundo do poço não tem fundo.

Mas ei, tu vai perguntar, isso não era uma microcrônica de amor? Pois eu digo que é. Cê sabe. Amor fica tangível depois de gravar CDs e culpar Jesus pela infidelidade da pré-adultez. Cada faixa gravada, cada conta do rosário boiando no córrego sujo nos trouxeram até aqui. E caso sua história ainda não esteja boa, calma. Às vezes o livro tem mais páginas. Ou é uma série com mais temporadas do que deveria. Cê sabe, daquelas que deviam terminar na quinta, mas os produtores adoram a possibilidade de uma sexta temporada chinfrim, com reviravolta de amor chinfrim, com nudez chinfrim e tals.

Ainda bem que o roteirista, se tu ainda não sacou, é você. Boa sorte.

Tags : amorcrônicareflexãorelacionamentos
Marcos Marciano

The author Marcos Marciano

Marcos Marciano é um ser humano amador. Formou-se em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais, lê livros por esporte e escreve por falta de vergonha na cara. Ainda não sabe por que a Débora resolveu se casar com ele.