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Crônica

Batendo na porta do céu

Volkan Furuncu -- Anadolu Agency -- Getty Images

Os jornais de todo o mundo noticiaram no final do ano passado que a Fearless Girl, a estátua da garotinha encarando o Charging Bull no Distrito Financeiro de Nova Iorque, estava mudando de casa depois de muitas prorrogações de sua estadia.

Criada pela escultora Kristen Visbal e bancada pela State Street Global Advisors, uma gigante da gestão financeira, a peça de bronze foi instalada no dia 07 de março de 2017, véspera do dia Internacional da Mulher, e teve sucesso instantâneo. A obra quis chamar a atenção para a ainda pequena participação feminina à frente dos negócios e diretorias das empresas. Ela ficaria pouco tempo por lá, no entanto uma petição online com mais de 40.000 assinaturas — a minha entre elas — foi criada à época para que a queridinha continuasse ali indefinidamente, enfrentando as três toneladas do enorme touro de Wall Street. Funcionou por um tempo, mas agora, para melhorar as visitas e o trânsito local, quem quiser tirar uma selfie com a menina deve se dirigir para o prédio do New York Stock Exchange, sede da bolsa de valores nova-iorquina.

Creio que aquela foi a única petição online que já assinei. Coloquei minha assinatura ali, em primeiro lugar, pelo motivo óbvio. Uma menina de 1,30 metro, nariz empinado e mãos na cintura estava enfrentando um monstro com testículos que dizem dar boa sorte. Ela era mesmo um símbolo de quem se levanta contra o medo e o poder imposto em nosso mundo machista. A própria Visbal falou que sua criação “renovou a fé no impacto que a arte pode causar nas pessoas”. Em segundo lugar, assinei a petição pois não gosto da estátua do bovino.

Aquele touro me faz lembrar da morte de um amigo.

Blogs e correios

Conheci o Charging Bull em um filme, desses com homens de terno e carregando maletas, caminhando apressados pelas ruas de Nova Iorque enquanto comem um cachorro-quente ou chamam um táxi amarelo. Comédia romântica chinfrim. Vi o bicho de novo em cadernos de viagem e letreiros, em álbuns de conhecidos que foram visitar a Big Apple e mostravam fotos da família inteira esfregando o escroto daquela besta para ter dinheiro. Mas quem me falou da história, do artista que criou e brotou com o touro da noite para o dia em 1989 foi um amigo querido, muito querido, que encontrei graças ao boom de diários virtuais que rolou no Brasil em meados dos anos 2000. Ele chegou a usar fotos do touro como avatar nos messengers e chats. Foram quase dez anos desde a primeira troca de mensagens até o dia em que ele morreu.

Ter dezesseis primaveras e não se julgar poeta seria desperdício de juventude, mas a megalomania estaria incompleta caso eu deixasse de mostrar o que escrevia para o mundo, então criei um blog. Meu amigo não só encontrou o lugarzinho da internet onde eu me esforçava para ser mais um pretenso Shakespeare marginal como fez questão de retornar, elogiar e me convidar para ler o que ele também escrevia. Logo estávamos passando tardes inteiras de finais de semana conversando pelos saudosos ICQ e MSN. De mangás a Beethoven (ele tocava piano), de Milan Kundera a futebol (eu jogava bola na rua).

Não tenho reservas ao dizer, e não sei se você percebeu, mas ele funcionou como norte. Longe da relação mestre-pupilo, não tinha nada a ver com isso, e sim com a consolidação do que eu queria para minha vida: escrever. Se existem belezas em um mundo extremamente conectado — o volume absurdo de informação, as possibilidades de trabalho, muita diversão —, a cereja do bolo, na minha opinião, é o encurtamento de distâncias. Melhor dizendo: a internet é o catalisador ideal para que pessoas com os mesmos interesses e inquietações possam estar muito perto, mesmo que uma delas viva em Niterói e a outra more em Belo Horizonte.

Lembro-me que certa vez, indo na contramão do que eu disse ali em cima, ele pediu meu endereço e falou que queria mandar uma carta. “Acho mais intimista, a letra de alguém é algo que gosto muito de prestar atenção, quero criar o hábito, espero que você me responda”. Não demorou muito e o envelope grande de papel reciclável chegou pelos correios. Duas folhas preenchidas com uma caligrafia maravilhosa, de uma elegância displicente que eu daria o olho direito para ter. Ele escreveu sobre o que a gente já conversava pela internet — livros recentes, filmes, divagações —, porém a alegria morna da primeira leitura permanece a cada vez que revisito a carta. Não é a mesma coisa de abrir um histórico de mensagens no smartphone.

Porta do céu

Reli a carta para escrever este texto e reli no dia em que meu amigo morreu. Eu já estava no final da faculdade quando veio a notícia. Ele, pouco assíduo ao Facebook, apareceu em minha timeline com uma postagem enlutada. Demorei para entender que era outra pessoa usando seu perfil para avisar aos amigos de sua morte. Um mal súbito durante o banho. Abri gavetas e revirei papeis enquanto a miríade de pensamentos tomava conta. O mais doloroso de todos era um misto de cobrança e decepção, pois apesar dos pedidos dele, a minha carta de resposta nunca passou do primeiro parágrafo. Encontrei-a junto ao envelope grande de papel reciclado.

Talvez o que me incomode toda vez que vejo algo relacionado ao Charging Bull não seja bem a lembrança da morte, mas sim a minha protelação em responder a carta de meu amigo. Minha birra com cadernos de caligrafia no primário estavam lá no início da resposta, entretanto ele nunca ficou sabendo do quanto eu queria ter uma letra igual a dele. Aliás, não é nem a protelação que me incomoda: é perceber que eu sou o arremedo da estátua da menina, nem um pouco destemido e metido num embate doravante eterno com o monstro incontrolável e imprevisível do arrependimento.

Finalizar isso daqui dizendo que devemos aproveitar ao máximo as pessoas, a vida e o universo seria bobagem. Você vai continuar a não ligar para a tia ou aquele amigo distante. Não importa o que fizermos, o acaso dá um jeito de nos pregar peças. Quem dera eu pudesse arrumar um modo de responder à carta. Colocaria comentários irônicos com pinceladas de tristeza sobre as pessoas que todo ano ainda desejam um feliz aniversário automático para meu amigo nas redes sociais, mas não dá para fazer isso. É como em Knockin’ on Heaven’s Door, aquela música que ficou travada no status do MSN dele por tanto tempo anos atrás. Posso espernear, rasgar papel, bater e bater na porta. Vou bater, bater e bater. Mas ninguém nunca vai responder.

Tags : amizadebatendo na porta do céublogscharging bullfearless girlinternetknockin on heaven's doorliteraturamorte

The author Marcos Marciano

Marcos Marciano é um ser humano amador. Formou-se em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais, lê livros por esporte e escreve por falta de vergonha na cara. Ainda não sabe por que a Débora resolveu se casar com ele.

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