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Conto

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O menino com olhos de botão

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Era uma vez um menino que tinha botões no lugar dos olhos. Nascido em uma cidade pequena no sul da Alemanha, Charles cresceu ao lado do irmão mais velho, um garoto autista de dezessete anos, e sua mãe, que há pouco perdera o marido para os caminhos da guerra.

Charles estava acostumado com a percepção de que vivia em um mundo vazio e sem cor. Carente dos afetos da mãe, que aparentava ter olhos apenas para o filho mais velho, o menino levava a vida mediocremente. O acordar e ir para a escola eram obrigações diárias, que se tornavam piores ao ouvir a mãe dizer:

— Cuide do seu irmão, Charles. 

Tudo bem. Ele entendia que o irmão precisava de ajuda, afinal era um alvo fácil de valentões e pessoas de mau-caráter. Mas quem o protegeria? Então ele se via sozinho de novo. Um mundo em preto e branco, onde tudo e todos eram rabiscos e esboços mal-acabados. 

Pessoas viviam lhe dizendo que, após a morte do pai, seus olhos foram substituídos por botões de roupa. “Quanta idiotice!” pensava o menino, “onde já se viu, botões no lugar dos olhos!” 

A verdade era que Charles se sentia aprisionado, preso pela obrigação de viver às sombras do irmão como um protetor e apenas como isso.

Quem era ele? Quem ele queria ser? Não sabia. Uma mente pouco clara e confusa, ele não sabia se encontrar e não queria. Não tinha forças para tal atitude, tinha medo. O que diria sua mãe caso dissesse que não queria viver para o irmão? Para isso ele tinha resposta, pois já havia dito.

Numa tarde de domingo, quando voltou para casa, sua mãe veio lhe perguntar onde estava. Seus olhos foram para o irmão na porta, o rosto machucado e cortado, as roupas sujas de lama, sem expressão, apenas observando. 

— Estava na banca, comprando gibis. 

Os gritos da mãe foram cortantes. Ele deveria estar ao lado do irmão, mesmo que uma nova edição de seu gibi favorito tivesse sido lançada há pouco. “Privilégios” dissera a mãe. “Não podemos nos dar ao luxo de privilégios caso isso signifique dar as costas, mesmo que por um segundo, a seu irmão.” 

— E se eu não quiser? — murmurou Charles, o olhar choroso da mãe se tornou confuso. — E se eu não quiser passar minha vida cuidando dele? Seria melhor se ele morresse…

A dor veio depois de alguns segundos. Sua mãe lhe dera um tapa. De ódio, de desgosto. Como pudera dizer isso a ela? Nunca esqueceu a surpresa e indignação no rosto dela ao ouvir tais palavras.

Então ele seguia. Aceitou seu destino, sem questionar, sem ao menos tentar se identificar, sem descobrir quem realmente era.

Um dia ele conheceu uma menina. A garota tinha olhos frios e um coração sem sentimentos. Mas sua beleza o encantou, os longos cabelos negros e as curvas infinitas. Charles passou a acompanhá-la, afinal ela nunca reclamava da companhia repentina do garoto. Sua vida tomou um pouco mais de cor, então.

Porém, um dia, quando finalmente se declarou para a menina, ela respondeu:

— Quando finalmente se livrar dos botões, venha me ver novamente. Até lá, acho melhor nos afastarmos.

Aqueles malditos botões! Por que todos lhe diziam isso? O que eram esses botões afinal?

Semanas depois, Charles levou seu irmão para brincar no lago. A superfície da água estava congelada devido ao ápice do inverno na região. Correndo sobre o lago, os dois gargalhavam. Charles percebeu então que seu irmão se abria apenas para ele e para a mãe, um porto seguro fora de seu próprio mundo. Então ele sorriu, se sentiu feliz ao ver o irmão se divertindo.

No entanto, a felicidade se tornou desespero quando reparou para onde o irmão corria. A região mais fina da camada de gelo já começava a rachar sob os pés do mais velho e Charles gritou. Os berros de desespero do menino foram ignorados e gelo se partiu.

O irmão de Charles caiu sobre a água congelante e a face do mais novo empalideceu, sua garganta travou engolindo em seco. O tremor percorria seu corpo cada vez mais, o sonido de seus batimentos acelerados era como o canto de um tambor frenético e nenhum de seus pensamentos estavam claros o suficiente, o desespero palmilhava em seu interior.

— Charles! — A súplica balbuciada entre as tentativas falhas do irmão de sair da água eram proferidas desesperadamente. — Charles, me ajude!

Ele hesitou. As lembranças da tarde em que a mãe lhe bateu retornaram à memória e Charles começou a se afastar.

— Charles, me ajude! 

Os passos cada vez mais longe da cratera onde o irmão caíra. 

— Charles! — lágrimas lhe escorriam pela face pálida e gelada. — Charles!

Então ele parou.

Ele se lembrou de todos os momentos em que o irmão lhe trouxera felicidade, pensou em como a mãe se sentiria, pensou no próprio irmão que o idolatrava como um herói, mesmo ele sendo mais novo. Desejava a morte do irmão? Inúmeras vezes, mas nunca como um desejo profundo, apenas como pensamentos ruins em um momento de raiva ou frustração.

Ele recuou, virou para o irmão que já começava a desistir de lutar para sair. Então correu.

Charles estendeu a mão ao mais velho, que agarrou seus dedos e impulsionou o corpo facilitando para que Charles o puxasse. 

O menino abraçou o irmão, que desmaiou sobre os braços do mais novo. 

Passos ecoaram pela superfície congelada e aquela menina apareceu diante de Charles.

— Por que não o deixou? — perguntou a menina, inexpressiva. — Pensei que era isso que tanto desejava.

— Não é — respondeu Charles. — Ele precisa de mim.

— Então não acha mais que seu destino ao lado dele seja algo ruim?

— Não, ele precisa de mim.

— Vai desistir de descobrir quem você é, só porque ele precisa de você?

— Posso me encontrar e descobrir quem eu quero ser ao lado dele, afinal ele faz parte de mim.

A menina sorriu.

— Os botões sumiram — disse ela. Então se virou e caminhou de volta de onde quer que tinha vindo.

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À espera do ônibus

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Certa vez, quando estava à espera do ônibus que me levaria do trabalho para casa, vi o garoto que se apaixonou por uma flor no asfalto. Ele devia ter no máximo uns seis anos de idade, ou eu quero acreditar que ele tivesse, já que não possuo grande habilidade para definir a idade das crianças hoje em dia. Ele estava caminhando de mãos dadas com a mãe pela calçada do outro lado da avenida Augusto de Lima. Eu esperava o ônibus e eles caminhavam de mãos dadas. Aí, de repente, o moleque se desvencilhou da mãe e correu para o meio da rua, entre os carros, bem na frente de um ônibus.

Acho que o mais desesperador em uma situação como essa é o grito das pessoas. O berro é um catalisador de desastres. O da mãe foi o pior. Acho que se ninguém gritasse, talvez, os motoristas não pisassem no freio com tanta veemência. Mas o menino não foi atropelado pelo ônibus gigante.

Tudo muito mais calmo no final de tarde do centro de Belo Horizonte depois que a mãe recolheu as sacolas da calçada e ofereceu novamente a mão esquerda para o menino, alternando xingamentos e graças aos céus. O aventureiro não deu muito bola, estava absorto com algo na palma da mão que tinha livre, a flor amarelinha que ele arrancara, sei lá, duma rachadura do asfalto.

E eu esperei por mais quarenta minutos pelo meu ônibus.

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Um Pedro

Sem título

Pedro é alto, pardo e magro. Gosta de pensar que Kant, sim, Immanuel Kant, também era. Um professor lhe disse, há muito tempo, que os vizinhos do filósofo prussiano costumavam marcar o tempo em função dos momentos em que Kant passava sob suas janelas a caminho de casa ou para a universidade de Königsberg, tamanho era o seu rigor. Que exemplo, que homem deve ter sido, pensou o jovem Pedro à época.

Ele não caminha como Kant para o trabalho, mas sabe que o alívio no rosto daqueles estudantes significa o óbvio: se Pedro está no ponto de ônibus, ainda não são 7 da manhã. Os ônibus atrasam, Pedro não. Norma, sua esposa, acha que o marido é muito rígido, encarna a dureza do próprio nome. Diz que Pedro devia relaxar e se divertir. Norma talvez não perceba a beleza e a alegria em seus métodos. Kant com certeza sabia quantos passos eram necessários para ir de sua casa à universidade, assim como Pedro sabe que, se colocar a pastilha de menta na boca às 6h56min, bastam 125 movimentos de sua língua para que ela se desfaça às 7 em ponto. Muitas vezes no momento em que o ônibus chega, vejam só. É muito divertido, Norma, ele pensa antes subir no veículo.

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Gafanhotos

iii

Há um ano Alain Delon se transformou no genro que nunca tive, e agora minha filha não existe mais. Só pude ver que trocaram os desenhos de gafanhotos na porta do bistrô depois que Anne-Marie entrou. Foi ao banheiro. Vai voltar. Eu quero sumir. As vidraças e portas do Sauterelle sempre estiveram cheias dos mais variados gafanhotos. Verdes, imensos, negros, medonhos. Alguns não eram gafanhotos de acordo com Anne-Marie. É o tipo de coisa que ela sabe, a Anne-Marie. “Grilo, outro grilo, e aquele é um besouro”. No lugar dos desenhos na porta de vidro colocaram um cartaz do último filme do Delon. Anne-Marie foi ao banheiro. Vai voltar. Eu quero sumir.

As cadeiras de vime são novas, outra ideia mirabolante de Pierre. Não estavam aqui das últimas vezes. Muito educado, o Pierre. Ele não pergunta mais como Anne-Marie está ou se ainda vamos ao hospital. Já se acostumou com nossas visitas ao Sauterelle e hoje nos convidou a experimentar um queijo de cabra ao molho de tomate. Neguei, tentei ser afável. Gosto do rapaz, ele gosta da Anne-Marie. Eu quero sumir. Não caibo nessa cadeira, ou talvez ela não combine com a calçada. Anne-Marie deve fazer a crítica, ou está fazendo nesse exato momento. Estico o pescoço para olhar lá dentro e não vejo ninguém no balcão. Pierre escreve poesias a giz por toda a pedra do balcão. Faz desenhos de gafanhotos também. Se eu esticar o pescoço para o outro lado, lá para cima da rua, consigo ver a chaminé de tijolos vermelhos do nosso prédio. Descemos dois quarteirões e meio até aqui, eu e Anne-Marie. Se descermos mais quatro chegamos ao hospital. Hoje é terça-feira, dia de ver a mãe de Anne-Marie, assim como nas quintas, no entanto ela prefere passar às terças por causa da poesia de Pierre. “Sempre há uma poesia nova às terças-feiras”, diz Anne-Marie, mas acho que o bordalês apenas reescreve as mesmas palavras todas as semanas com cores de giz diferentes. Havia um erro crasso na semana passada no último verso. Eu quero sumir, eu quero chutar as cadeiras e sumir.

Anne-Marie voltou. Há mais clientes no bistrô. Ela está com um casaco muito grande e um chapéu Lyon azul-piscina. Creio que são de sua mãe. Temos os mesmos queixos e olhos, os três, mas Anne-Marie sempre quer mais. Esticava minhas bochechas outro dia, apertava meus lábios e se olhava no espelho. “Somos muito parecidos, vovô, mas vou ficar bonita como minha mãe”. Eu quero sumir. Pierre traz duas taças iguais e coloca sobre nossa mesa. Anne-Marie troca as taças e o rapaz ri. Diz que a menina já tinha feito o pedido. “Sauvignon para o vovô e água tônica para mim”. Tento um gracejo também, mas vejo o mensageiro descendo a rua com a bicicleta. Pierre voltou para dentro do Sauterelle para buscar as bebidas. O menino na bicicleta desce a ladeira com um sorriso no rosto, guia com a displicência de quem tem uma bolsa vazia e volta para casa ou para o inferno. Pela manhã parou sisudo no vestíbulo de nosso prédio, cheio de pacotes e envelopes, para me entregar a carta do hospital. Eu quero sumir. Pierre voltou e nem percebi, está servindo o vinho em minha taça. Anne-Marie olha para o grupo de mocinhas aos cochichos que apontam os dedos para o nome de Alain Delon no cartaz. O mensageiro sumiu na curva depois de um carro parado.

Todos os programas de rádio começaram a falar de Alain Delon depois de formar o par romântico com Romy Schneider em Christine. Dizer que eram todos os programas pode ser um pouco de exagero. Mas minha filha, naquela idade, cogitou se casar outra vez se porventura o galã de olhos claros e uniforme militar batesse em nossa porta. Anne-Marie conseguiu uma foto autografada e deu para a mãe. Brincavam sobre qual das duas Delon escolheria. Eu quero sumir. O mensageiro bateu em nossa porta pela manhã, no entanto seus olhos eram escuros, muito escuros, e escuro como breu também era o capote que usava. Parecia um dos gafanhotos do Sauterelle, aquele mais odioso.

Anne-Marie olha para mim e balança a cabeça em reprovação quando minha mão direita procura o maço de cigarros. A carta do hospital está no mesmo bolso. Sua mãe tinha o mesmo ar de reprimenda. Eu quero sumir. Quero que Anne-Marie vá ter com Pierre para que eu possa ir atrás do gafanhoto na bicicleta e espancá-lo, dizer que é mentira, que hoje é terça-feira e temos que vê-la. As mocinhas do Alain Delon também estão fumando e minha neta enche sua taça com mais água tônica. “Não podemos nos atrasar, vovô”. Anne-Marie é minha filha por um instante e eu quero sumir. Como é possível tanta pressa para viver enquanto ainda posso ver a outra dando beijos em uma foto autografada? Pierre coloca uma música no rádio e assusta as tietes com um gesto exagerado de boas-vindas. Muito educado, o Pierre. Gosto do rapaz, mas ela poderia mudar o nome do estabelecimento.

As sombras dos postes já começam a esticar e Anne-Marie está impaciente. Pierre recolhe nossas taças e pergunta se não quero mesmo provar o queijo de cabra. O rapaz tem um sorriso amável, o rosto liso e um penteado impecável. É perfumado também. Ele pergunta outra vez sobre o queijo, diz que é maravilhoso e me puxa pelo braço. É muito educado, o Pierre. Agora vejo que seus olhos são claros e ficam mais claros porque está sorrindo enquanto passamos pela porta com o cartaz do filme. Eu quero sumir. Não sei onde está Anne-Marie. O erro absurdo no último verso continua lá no balcão e Pierre não para de falar sobre o molho de tomate que aprendeu com um tal chef em Bordeaux. Os desenhos e figuras de gafanhotos e grilos estão espalhados em uma mesa lateral, perto do pote de vidro com o giz. Quero sumir. Quando começo a rasgar os gafanhotos, Pierre corre até mim e grita alguma coisa que não entendo bem. Não sei onde está minha filha. Digo que vou pagar, que posso pagar, que o dinheiro está no bolso da carta, contudo Pierre não parece entender uma palavra do que digo. Ele tem os olhos de Alain Delon.

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Quarentena na janela

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Antes de qualquer coisa, eu não sou um depravado, um stalker qualquer, um maníaco sexual. Nada disso. Se consegui convencer meu reflexo no espelho do banheiro, creio que não será tarefa difícil fazer o mesmo com vocês. Mas, sim, tenho passado a quarentena em minha janela — nunca passei tanto tempo em uma —, pois vi a vizinha do prédio ao lado chorando com uma caixa de sabão em pó nas mãos.

De cara lhe atribuí um nome: Jéssica. Combinava com as alças da blusa que ela usava, as cores das estampas, as clavículas. Combinou também com a pergunta que me veio, Por que choras, Jéssica?, e eu fiz e refiz a pergunta várias e várias vezes naquele dia, o primeiro ou segundo da quarentena.

Estava revoltado, contando o número de carros dos imbecis que ainda insistem em furar a quarentena, revoltado com minha mãe que ameaçou cortar a internet se eu batesse panela outra vez na sacada de seu quarto, pois “naquele ali o título de eleitor” era dela. Então fui para o meu, para o meu quarto, para a minha janela, revoltado, sim, só que tudo deixou de ser importante — o vírus, a quarentena, Bolsonaro, minha mãe — quando perguntei Por que choras, Jéssica?

Já se vão vinte e um dias de confinamento. Se Jéssica bate panela, bate não da janela de sua área de serviço, mas deve bater em outra, deve sim. Eu tenho batido como desculpa para ficar aqui. Não que eu precise da desculpa, já que tenho lido aqui, assistido às aulas da faculdade daqui, comido aqui, ignorado minha mãe daqui. Bato panela contra o presidente e com a esperança de que Jéssica resolva bater também, para criarmos um vínculo, ou que decida lavar roupas de novo ou que ela tenha um filho pequeno e que esse filho dê as caras naquela janela e ela vá buscá-lo e me veja com a panela e sorria, pois Jéssica também deve bater panelas, deve sim. Mas só tive a infelicidade de ver o marido com ela, cara grande e tatuado, desses que você vê que já foi rato de academia e que agora relaxou. Desses com aquelas tatuagens tribais que cobrem todo o enorme braço. Tive a infelicidade de ver o marido, o enorme braço da tatuagem e a mão apalpando a bunda de uma Jéssica impassível.

Filho da puta.

Vejam, eu não sou um depravado. É uma preocupação real que nasceu, pois uma apertada de bunda daquelas deveria pressupor intimidade feliz — Por que choras, Jéssica? —, um convite à sacanagem, a uma rapidinha no banheiro dos fundos. No entanto ela parecia um boneco de cera. Em um momento estava concentrada no tanque, em não molhar a camisola de seda, daí veio o apertão, e em outro momento a cara de pré-choro toma conta.

Filho da puta.

Por que choras, Jéssica? Porque casou com um otário, porque ele não te entende, porque ele não te deixa bater panelas contra o “mito”, porque ele usa óculos escuros dentro de casa — por que eleitores de Bolsonaro do sexo masculino usam óculos escuros dentro de casa? —, porque ele te apalpa sem carinho, porque ele teve um caso com a colega de trabalho, porque ele sai de casa e fura a quarentena, porque ele sai de casa com o carro, fura a quarentena e faz lives no Instagram usando óculos escuro dentro do carro — por que eleitores do Bolsonaro tiram fotos e fazem vídeos usando óculos escuros dentro dos carros? —, porque ele bate no filho de vocês para incutir masculinidade. Me diz, Por que choras, Jéssica?

Vocês podem achar que eu exagero, que eu não deveria estar bisbilhotando a vida alheia, que aquilo ali foi reação incomum, quem sabe brigaram mais cedo ou o pai de algum conhecido morreu com suspeita de estar infectado com o coronavírus. Vocês podem dizer que eu estou paranoico, que daqui a pouco vou dizer que o filho da puta é um agressor, que nenhuma das respostas para a pergunta que move minha quarentena estão corretas. E eu digo a vocês que quem está há dias prestando atenção nos olhos dela sou eu, na quantidade de sabão em pó que ela coloca na máquina, no jeito que ela separa as calcinhas — só as calcinhas, vejam bem — para lavar à mão no tanque, sou eu quem presta atenção nisso tudo. Sou eu quem conseguiu encontrar o perfil do marido no Instagram e, sim, ele faz tudo o que eu disse ali em cima, ou quase tudo. Só óculos escuros, idiotices e nenhuma Jéssica. Nenhuma Jéssica no feed, nenhum perfil de Jéssica. Até isso ele deve proibir. Por que choras, Jéssica?

Larga ele. Vem bater panela comigo.

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Tomou Benzetacil

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Foi uma aventura. Garganta maldita. A febre criou uma aura de dorzinha durante todo o trajeto de casa até o hospital. No pronto-socorro tinha gente pra cacete, ou eu tava só delirando. Senti-me no inferno de Dante, porque aquelas televisõezinhas que informam as senhas num determinado ambiente só serviam para levar para um outro lugar com mais televisõezinhas e senhas. Todas as pessoas com quem conversei lá me desejavam melhoras no final de suas falas, mas não soavam verdadeiras, diziam aquilo como quem pede chicletes em banca de jornal. Ou cigarro picado. Eu podia estar delirando. E Débora já tinha cantado a pedra: cê vai ter que tomar benzetacil. Só queria ir pra casa e ficar de boas. Daí, finalmente, a médica de plantão — que usou a luz do celular para averiguar minha garganta vermelhona — me atendeu e perguntou o que eu preferia, tomar comprimidos ou injeção. Débora estremeceu quando olhei nos olhos da mocinha de jaleco e falei com calma: injeção. Sou desses. Ainda questionei se tomaria num dos braços. A médica, jovenzinha e maquiada, vacilou na palavra “glúteos”. Deve ter pensado rápido na infantil “bumbum” e descartou a ideia, assim como descartou a curta e seca “bunda”. Preferiu a sobriedade de “glúteos”. Respeitei. Mais cadeiras e televisõezinhas, só que dessa vez um enfermeiro disse que me chamariam pelo nome. Débora estava impaciente. Ela fica assim, meio que sentindo agulhas espiando pelas frestas e sombras. Em quinze minutos falamos de pessoas que morrem pela insalubridade do pronto-socorro, de como é possível Pablo Vittar esconder tão bem o pênis em maiôs e sobre a dor que eu sentiria na injeção. Opa. Como assim dor? Débora me disse que doeria na alma. Pois eu falei pra mim mesmo que não teria alma. Daí uma enfermeira chegou carregando tudo o que precisava para aplicar a coisa em mim. Prestei atenção em suas mãos, porque os dedos de quem brinca com agulhas e corpos de terceiros devem ter habilidade e leveza de bailarinas do Bolshoi. Ela tinha uma pinta no polegar direito e foi tudo o que consegui descobrir sobre suas mãos. Quando assustei já estava num lugarzinho de dois metros quadrados. Havia uma maca e uma mesinha. As cortinas verdes com o nome do hospital repetido num padrão diagonal eram tudo o que me separava do resto. “Você já tomou benzetacil, Marcos?”, ela perguntou. Vi o líquido branco e espesso dentro da seringa. Lembrei daquela música do MC Serginho, sobre o cara que vai tomar a mesmíssima injeção, porque seu leite estava estragado. “Puta que pariu, foi tomar BEZETACIL”. Não mencionei a lembrança musical. Falei que nunca tinha tomado. “Tô perguntando, porque dói”. Eita. Mais uma com essa. “Dói como? Queima?”, perguntei. “Só dói”, ela respondeu. Daí falou que eu podia deitar de bruços ou ficar numa posição ridícula, apoiado na maca com os cotovelos. Escolhi a primeira opção depois da demonstração que ela fez da segunda. Puxei a calça de moletom e emendei um “tá bom assim?”. Ela disse que estava. Era hora. MC Serginho no talo na minha cabeça e a mocinha só nas preliminares em meu glúteo. Pinçou um bocado de carne ali e mandou ver. Picada. Líquido entrando. “Queima um pouco, mas tá de boa”, eu falei. Ficou meio dormente também, tipo quando você bate um músculo numa quina. E foi isso. “Nossa, cê tá de parabéns”, ela falou. Há algo de revigorante e de massagem no ego quando escutamos um parabéns de uma completa estranha estando com as nádegas de fora. Mas ela não estava surpreendida com a beleza do meu traseiro, e sim com o fato de eu não ter me retorcido feito uma enguia e pedido misericórdia “como tantos homens por aqui”, ela ressaltou. Ou só quis disfarçar. Eu tenho de fato uma bela bunda. Juro.

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Odiozinho

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Sei que eu não devia rir, no entanto ri quando meu terapeuta sugeriu o grupo, este grupo, vocês sabem, mas não sei se vocês também têm um terapeuta, grandes figuras eles, os terapeutas, enfim, eu ri quando ele se levantou da poltrona, eu nunca tinha visto ele se levantar da poltrona durante as nossas sessões, bem, só quando nos despedíamos ao final, mas aquela levantada, a que ele deu quando me entregou o panfleto dobrado do grupo, né?, este grupo, foi uma levantada diferente, bem no meio da sessão, assim, meio de surpresa, né?, talvez ele tenha ensaiado, quem sabe?, grandes figuras os terapeutas, e ele se levantou, esticou o braço direito e o pulso fugiu um pouco da manga do casaco, daí pude ver os riscos azulados, as veias, né?, aquela pele leitosa, a pele como a pele daquelazinha lá da faculdade, pois é, aquelazinha lá do Facebook, isso, isso, aquela que me fez, vocês sabem, eu tenho mesmo que repetir?, ok, aquela, desculpem pelo aquelazinha, aquela que na frente dos funcionários, enfim, aquela que no primeiro dia já quis, vocês sabem, falou que não sabia o que ia fazer o dia todo sozinha sem poder acessar o Facebook, e ele riram, riram na minha frente, eu, chefe de departamento numa faculdade, o chefe, porra, desculpem, desculpem, Respeito e Respiração, eu sei, mas eles riram e eu ri do terapeuta, não pela indicação do grupo, mas pela, sei lá, ironia do pulso como o daquela jornalista, o mesmo pulso que eu, desculpem, quis quebrar, me oferecendo o panfleto com “CONTROLE SUA RAIVA”, “LIGUE AGORA”, enfim, obrigado pela escuta, desculpem, eu sei, sem agradecimentos, eu sei, porra, é isso, eu sei, desculpem, os dois erres, eu sei, R.R., Respeito e Respiração, eu sei, desculpem, porra, obrigado.

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Mamãe, eu não quero um namorado

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O que me lembro daquele dia é do meu cheiro ainda em sua barba, no meio do abraço, no primeiro abraço da manhã. Em seus olhos vi saudade da noite anterior, vi que ele não me enxergava, buscava flashes meus, entre lençóis, de quatro, aberta, suada, molhada. Lembro-me também da noites quentes, dos pés grandes, das panturrilhas torneadas. Ele gostava de me provocar com elas — e com as bermudas, as brincadeiras sem cuecas quando saíamos de casa —, mas me provocava mesmo era com as panturrilhas. Eu pedia, “me deixa morder”, e ele, sádico, me cuspia um “não” entre os dentes do sorriso. Eu morria, tremia e adorava. Aos domingos eu nem o via sumir pela manhã, no entanto ele sempre voltava com as laranjas, ah, as laranjas, que de tantas noites e tardes lambuzada e lambida, acabei por aceitar o perfume impregnado. E lembro-me dos jornais aos domingos, com as manchas marrons depois de secos, depois das garrafas de vinho que voavam em câmera lenta antes das desculpas e dos beijos em meus olhos úmidos de sangue, das mãos entre minhas coxas e das laranjas na fruteira ao lado da cama.

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Búzios de plástico

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Quando vi Fábio das Figueiras, o “Português do Pelourinho”, sair sem passar a chave, deixando maleta e búzios para trás, percebi que era o Piauí outra vez e não voltaria a encontrá-lo. Sua despedida foram o som dos chinelos batendo na ladeira e os cachos balançando no ritmo louco da fuga.

Fábio veio ao Brasil, palavras dele, “pronto para voltar para as Quinas”, mas eu não acreditava. Ou metade de suas histórias era mentira ou meu colega era o maior português vivo. Falavam em Teresina, cidade onde o conheci, que quando chegou ao Rio de Janeiro não ficou nem uma semana, pois trocou tapas com um bicheiro perigoso no bar e precisou pegar o primeiro ônibus que o levasse embora. Não conseguiu ir muito longe, pois o dinheiro era mais curto que a urgência. Ficou alguns meses em Belo Horizonte e de lá foi trabalhar numa padaria em Uberlândia, depois em um estúdio de tatuagens careiro em Corumbá. Orgulhava-se de uma onça engalfinhada com uma índia seminua na panturrilha esquerda — único pagamento que diz ter recebido no Pantanal — e de uma cicatriz horrorosa na mão direita que ganhou num seringal depois de rodar o norte do país.

Fábio das Figueiras ficou conhecido em todos os lugares que passou como um valente e beberrão, desses que fazem juras de amor com a mesma facilidade que vira a mesa e arma um soco contra você. Pude constatar sua fama quando trabalhamos numa empresa de carretos no Piauí. Foi difícil crer que aquele magrelo era tudo o que diziam, até que ele resolveu sua dívida com o caminhoneiro, nosso chefe, numa competição para ver quem comia mais ovos de codorna no botequim. Fábio venceu e bebeu e gritou como um teresinense nato, o que para mim era a sua característica mais absurda: a capacidade de parecer um local, de se misturar e ser querido, mesmo quando bebia e cantava aquela música estranha e triste, para depois dormir com a maleta algemada ao pulso.

Era nisso que pensava quando apaguei o cigarro na parede e levantei-me da calçada. Lá do outro lado, na entrada da pensão onde morávamos no Pelourinho, uma pequena aglomeração teve início. Bati a poeira da bermuda com as mãos enquanto atravessava a larga rua de pedras, sem saber dizer por que estava tão calmo com a situação. Se o roteiro fosse mesmo parecido com o que vivi no Piauí, precisava chegar ao quarto com a maleta antes de escutar a sirene das viaturas. Porque lá em Teresina eu não pensei duas vezes ao pegar nossas coisas e fugir com ele para a Bahia. “Devo-te a vida e um pouco mais, gajo”, disse pra mim quando entreguei a maleta e bati a porta do Uno caindo aos pedaços.

O corredor que dava para o fundo da pensão já estava lotado. Todas as mulheres que vendiam acarajé em Salvador apareceram para sentir o último cheiro daquele capoeirista de mentira, roubar os vasos de comigo-ninguém-pode do filho de Ogum com a princesa Isabel. Vi algumas lágrimas e barrigas inchadas. Era o Piauí de novo, mas eu não correria atrás daquele português outra vez. Desvencilhei-me de duas das futuras mães dos Figueirinhas e consegui chegar ao quarto. Estava diferente, só uma cama baixa, a caixinha onde Fábio guardava os búzios e a maleta com a algema presa na alça de couro preto. Nada dos pôsteres e dos livros, então aquele maldito já tinha tudo preparado para sumir de vez. Senti uma pontada de tristeza, talvez ingratidão, nada parecido com aquele senso aventureiro de quando cortamos estradas esburacadas pelo nordeste brasileiro, as luzes e sirenes como se a polícia do mundo inteiro viesse em nosso encalço. Mas a calma com a nova fuga, sobretudo a calma, permaneceu. O burburinho e o choro aumentou e assim eu tive certeza que a polícia estava forçando entrada entre as mulheres lá fora. Não havia sirenes e vi que os búzios que Fábio jogava eram de plástico. Era hora de saber que havia na maleta.

Nunca perguntei ao português do que ele fugiu lá no Piauí e nem achava que sua fuga havia começado na zona boêmia do Rio de Janeiro. Mas no momento em que decidi entrar no carro, acabei virando parte de seu crime. “Bota as mãos na cabeça e deita no chão, filho da puta”, disse um dos policiais. “Anda logo, porra! Deita no chão!”.

Eu só tinha visto fotos de Polaroid em filmes e achei o máximo ter uma nas mãos. A menininha, com os mesmos cachos aloirados que desceram o Pelourinho num carreirão, encimava a seguinte mensagem escrita à caneta azul:

“Volta. Papai morreu. Vem conhecer seu cravinho que só faz perguntar por você.”

Eu já estava no chão e com a bota de um policial suarento na nuca. Se queriam o dinheiro, teriam que correr para o porto, para a rodoviária ou para o diabo. A calma permanecia, agora de mãos dadas com o senso de dúvida sanada. Afinal de contas não fazia sentido tanta loucura e fuga se não fosse por uma mulher impossível de se ter.

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Tânatos é um peixe de aquário

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É só um quarto. Nem escuro e nem claro. Há uma poltrona velha, um pequeno criado-mudo, parafernalhas que dizem ser meus pulmões e meus rins. E tubos, muitos tubos. Há uma cama também. E eu na cama. Ah, claro. Agora há o aquário com o peixe dourado. Maldito peixe de aquário. Maldita ironia.

Quando cheguei aqui as paredes eram verdes e as visitas eram bem mais frequentes. Acho que as paredes ainda são verdes, mas eu, talvez, tenha me tornado mais tedioso com o passar do tempo. Lembro-me do relógio que trouxeram certa vez. Não sei para quê. Saber as horas é meio insuportável deitado nessa cama. Eles achavam que eu não sabia as horas, mas eu sabia. Alguém deve ter percebido que eu sabia, pois não há mais o relógio na parede. Ele ficava bem em frente. Eles achavam que eu nem estava mais ali, mas eu estava. Por isso sabia as horas. Agora, em cima do criado-mudo, abaixo de onde ficava o relógio, há o maldito aquário do peixe dourado. Maldito peixe. Se soubessem a grande ironia que aquele peixe representa, voltariam com o relógio.

***

Sei que é terça-feira por causa de Roberta. Ela sai mais cedo do trabalho nas terças e aproveita para vir aqui dar comida para o peixe. “Cuidou bem do meu amor, senhor peixe? Cuidou?”. Maldito peixe. Aliás, Roberta não é como os que trouxeram o relógio. Ela é linda. Nós queríamos pegar um táxi depois daquela festa. Nós dois não bebíamos. Nós éramos namorados felizes. Se não tivéssemos entrado no carro e preferido ficar olhando para o aquário da casa do João, eu teria perguntado à Roberta se ela também não entendia por que chamavam aquele peixe de dourado. Maldito peixe. Ela não teria que vir até aqui dar comida para esse ele ou olhar com piedade para mim. Se não tivéssemos entrado no carro eu conseguiria fazer perguntas.

É uma grande ironia. Nunca entendi os motivos de chamarem aquele peixe alaranjado de dourado. Minha tia comprou um desses e deu para mim quando eu era menino. Veio em um saquinho plástico cheio d’água. “Ele é laranja, tia. Dourado é o colar da mamãe”. E todos achavam graça da comparação. Eles não tinham resposta para a minha pequena grande dúvida. O engraçado é que a dúvida não se foi quando o peixe morreu. Morreu rápido, por sinal. Eu não cuidava bem dele. Era difícil entender como algo laranja podia ser chamado de dourado. “Melhor que morra”, eu pensava. Que deixasse de existir. Quem sabe, assim, a dúvida também sumiria. Mas a dúvida não se foi quando o peixe morreu. Maldito peixe. E Roberta não deixa de vir às terças dar comida para ele. Antes só comesse nas terças, mas descobri que os outros também o chamam de senhor peixe.

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Estão falando que meus pulmões e meus rins não precisam mais funcionar. Perdi a noção do tempo. Não sei mais quando é terça-feira, porque Roberta não vem mais. Maldito peixe. Continua ali. Como? Roberta não vem mais. As visitas começaram a ficar frequentes outra vez. Olham para mim como eu olho para o peixe. Alguns me perguntam coisas que não escuto bem. Quero saber de Roberta sobre o dourado do peixe laranja. Roberta não vem mais. Ninguém vem mais de verdade, eu acho.

***

É só um quarto e agora está bem escuro. Não há poltrona, mas mudaram o criado-mudo de lugar. Agora sou eu, a cama, as parafernalhas cansadas, os muitos tubos e o aquário sobre o criado-mudo. Maldito peixe. Ah… e há uma janela. Hoje eu sei que há uma janela. O quarto é bastante escuro e a única fonte de luz escorre para o aquário. Maldito peixe. Ei, espera aí. Eles estão entrando. Estranho. Nem olharam para mim. Geralmente olham para meus rins e pulmões postiços e dizem coisas desinteressantes. E Roberta veio! Mas chora. Um deles está colocando um crucifixo no lugar onde antes ficava o relógio. Roberta chora. Maldito peixe. Estão levando o peixe! Oras, como assim? Trocaram o peixe laranja por um crucifixo fajuto? Nem perguntaram se eu queria reaver a fé. Não há espaço para fé, só para a dúvida que me acompanhava há tempos: por que dourado? Ei. Roberta. Ei, olha pra mim. Isso, chega mais perto. Como podiam chamar aquele peixe de dourado, Roberta? Pare de chorar e responda. Como? Droga. Levaram mesmo o peixe. Ela não escuta, ninguém escuta.

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Acho que falavam a sério sobre desligar meus pulmões e rins. Estão cercando a cama e Roberta chora como chorou no dia em que disseram sobre meu cérebro e o pouco oxigênio. Ela é linda. Saíram ilesos do capotamento, ela e o João. Dizem que eu fiquei todo arrebentado. Aí, durante uma das inúmeras cirurgias, nada de oxigênio para o cérebro. Roberta está chorando copiosamente e levaram o peixe sem ao menos responderem como um peixe laranja pode ser dourado. Então desliguem logo tudo isso.

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