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Reflexão

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O inferno somos nós

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Uma vez eu li em algum lugar (eita memória boa!) que não deveríamos nos preocupar com o que os outros estão pensando de nós, porque eles estão ocupados demais imaginando o que nós estamos pensando deles. Dito isso, gostaria de compartilhar cinco observações que me fazem acreditar que o inferno não são os outros, somos nós.

1. Damos a nós mesmos uma importância muito grande

Essa é uma verdade inconveniente, mas ainda assim verdade. Se passamos uma parte do nosso tempo especulando sobre o que os outros estão pensando de nós, então aí está embutida uma afirmação: os outros estão pensando algo sobre nós. 

O que o faz acreditar que alguém está gastando o próprio tempo fazendo críticas a você? Em geral, não somos tão importantes assim. Eu costumo pensar o seguinte: se alguém tem algo a me dizer e tem intenção de me ajudar, a pessoa irá me dizer, e isso me desobriga de ficar especulando o que seria esse assunto; se alguém tem algo a me dizer e não tem intenção de ajudar (e, por isso, prefere falar pelas costas), essa pessoa não vale uma dor de cabeça minha, não vale especulações e não vale a minha preocupação em agradá-la.

2. O olhar dos outros nos incomoda. Ou seria o nosso próprio olhar?

Em algumas situações, projetamos no olhar dos outros os nossos próprios demônios e inseguranças. Observe esse raciocínio: se você está imaginando o que outra pessoa está pensando a seu respeito, você está criando hipóteses. Essas hipóteses estão partindo de você mesmo, logo, você está com medo de que outra pessoa pense a seu respeito o que você pensa sobre si. Fique com esse nó na cabeça por enquanto!

3. Damos à opinião dos outros uma importância muito grande

Esse tópico guarda íntima relação com o item 2 dessa lista. A opinião dos outros frequentemente vem para: a) reiterar o que pensamos de nós mesmos, ou para b) fortalecer ideias quando estamos inseguros a respeito delas.

a) Opinião dos outros para reiterar o que pensamos de nós mesmos:

Se eu acreditar que sou chata, qualquer opinião que eu imputar aos outros que demonstre que eu sou chata só vai reforçar essa ideia que eu tenho de mim mesma. Certo?

Outro viés relacionado à opinião dos outros como o reforço do que pensamos sobre nós mesmos é que muita gente deixa de fazer coisas com receio do que as outras pessoas irão dizer. “E se eu fracassar, o que vão pensar de mim?”; “Prefiro nem começar para não ter chance de errar perante as pessoas”. Ao pensar assim, você evita agir. Ao evitar agir, você reforça o pensamento que alimenta a sua insegurança. Sentir-se seguro em qualquer ambiente da vida requer prática, e prática só existe quando você se permite arriscar. Portanto, a única coisa que você consegue ao sentir medo da opinião dos outros e em função disso não levar a sua vida adiante é deixar de combater as suas inseguranças. Você ficaria preso para sempre, por isso precisa existir um ponto de ruptura.

b) Opinião dos outros para fortalecer ideias quando estamos inseguros a respeito delas:

Se você conseguir dosar, a opinião dos outros pode ser muito bem-vinda. Em momentos de dúvida sobre cortar ou não o cabelo, qual pedido vocês vão fazer no restaurante, qual o sabor da pizza que vocês vão pedir no delivery ou quando você tem diversas opções e gostaria de discutir as ideias com alguém em quem você confia. Seja para questões simples ou complexas, é possível ter benefício em ouvir alguém.

No entanto, quando você é uma pessoa muito insegura e recorre à opinião dos outros para tomar decisões ou para se certificar de que as decisões que você tomou foram boas, isso tem o potencial de te tornar dependente dos outros e de se ver “preso” tentando agradá-los para não os perder.

4. Somos resistentes às críticas

Raras são as pessoas que se sentem confortáveis quando estão sendo criticadas. A gente se sente meio nu quando tem um terceiro apontando nossas falhas. Em linguagem empresarial, arrumaram um nome bonito em inglês: feedback. Tem gente estudando muito esse assunto e propondo a maneira mais legal de dar um feedback, que geralmente é: mostrar o que a pessoa está acertando, reconhecer isso, apontar onde ela pode melhorar e estar ao lado nesse processo de desenvolvimento, acompanhando, reconhecendo os ganhos e dando apoio quando necessário. Feedback não é apontar falhas e destruir a pessoa que está ouvindo, é o reconhecimento do que está bom e desenvolvimento do que pode ser aprimorado.

Se formos mais sensíveis no momento de criticar uma pessoa – no âmbito pessoal ou profissional – as críticas podem passar a ser mais bem-vindas. Ao mesmo tempo, se formos mais abertos para receber as críticas, podemos fazer coisas legais para nós mesmos e nos relacionar melhor. Podemos parar de sofrer com o pensamento do outro e usá-lo em nosso benefício para crescer.

5. Fazemos o que podemos para não assumir a culpa

Se você tem um casal de amigos em que ambos são muito próximos a você, é possível que já tenha escutado duas versões de uma mesma briga. O narrador é peça fundamental no momento de contar uma história: ele possui crenças, convicções e uma imagem a zelar. Não existe pessoa imparcial, porque estamos impregnados da nossa história de vida. É natural que nos defendamos quando necessário.

Às vezes foi a gente que pisou na bola, mas criamos toda uma narrativa que explica o que aconteceu antes do que nos levou a pisar na bola. Colocamos uma culpa anterior em alguém ou em alguma coisa de forma a justificar o que nós fizemos. Muitas vezes, não assumimos responsabilidade por coisas que nós mesmos temos o poder de melhorar. Por exemplo: se eu acho que o pessoal do trabalho não conversa comigo porque eu devo ser chato ou porque eles são chatos – ou uma mistura disso –, mas eu não tomo iniciativa de falar com eles, a responsabilidade por termos uma relação distante é minha. Se eu tentar me aproximar e isso não der certo, já posso dizer que tentei e que a responsabilidade não é mais minha.

Agora que já falamos sobre o quanto atribuímos aos outros esses cinco fatores, que na verdade podem ser voltados para nós mesmos, queria compartilhar com vocês duas formas que eu acredito que podem nos ajudar a não criarmos um inferno dentro da nossa própria pele.

Duas formas para combater as questões acima:

1. Sempre se pergunte o porquê

Faça o esforço de tentar entender as situações com mais clareza. “Por quê?” é uma pergunta que cabe em quase todas as situações. Veja bem:

– Por que estão pensando alguma coisa de mim?

– Por que estou preocupado com o que estão pensando de mim?

– Por que eu acho que vão acreditar ___________ sobre mim?

– Por que eu mesmo penso que sou ___________?

– Por que estou resistente a essa crítica que recebi?

– Por que estou colocando a responsabilidade de ___________ em fulano? Será que eu tenho alguma responsabilidade nisso?

Colocar uma lupa em cima das situações que você vive vai te gerar informações. Com elas você poderá fazer algo a respeito para melhorar a sua vida.

2. Sinta mais amor por você mesmo

O caminho mais rápido para não se preocupar tanto com a opinião dos outros é criar uma opinião sua melhor sobre você mesmo. Em vez de ficar acreditando em coisas ruins e de dar importância elevada demais aos seus “defeitos”, dê enfoque nas suas qualidades e trabalhe nos seus pontos fracos para se sentir melhor, isto é, fortaleça a sua autoestima e sua autoconfiança. Tente levar um estilo de vida honesto consigo mesmo em que você possa estar próximo das pessoas e coisas que gosta.

Para concluir, apenas mais algumas palavras. Nesse texto eu quis abordar que muitas vezes pensamos que o problema está nos outros, no olhar deles, nas críticas, nas fofocas. O movimento que eu estimulei que você faça é o contrário: voltar para dentro, em vez de acreditar que o problema está lá fora. Se você está suscetível ao pensamento dos outros, é um sinal de que precisa fortalecer algumas coisas sobre si mesmo. Voltar-se para dentro é uma forma de ter controle sobre a situação para melhorar a sua vida e ser mais feliz. Se você vive em meio a pessoas fofoqueiras, tóxicas, negativas e que desejam o mal para os outros, a primeira coisa é criar um escudo contra essas influências e a segunda é rever as suas relações. Torne-se responsável por construir o seu pedacinho de céu.

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CrônicaReflexão

Tempos estúpidos

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A internet criou merdas que não imaginávamos em 1996. Estou longe de ser saudosista, pois no meio da década de 90 a gente não tinha serviços de streaming ou visitas virtuais a museus. Temos a Netflix hoje em dia, ok. Ponto para a atualidade. Em contrapartida, vinte anos pra trás, ninguém ficava doente por não ter uma carta ou e-mail respondidos de forma instantânea. A probabilidade de você ter uma conhecida vítima de revenge porn no final do século passado era, sei lá, a mesma de ganhar na Mega.

Mas talvez eu seja injusto ao dizer que a internet criou as merdas. A coisa toda poderia muito bem estar incubada, só esperando as condições ideais para a maturação, aí inventaram o www, o 5G e a banda larga e pronto: risquinho azul no WhatsApp, revenge porn e seu primo no terceiro período de administração dando pitacos — e com desenvoltura de especialista — sobre crise sanitária, desenvolvimento de vacinas e política internacional. Que desgraça.

O comentarista de tudo é um cu dentro do outro. Um porre. As redes sociais, em resumo, criaram novos chatos e evoluíram os antigos pés no saco. Estão todos em um fã-clube. Entretanto a maior desgraça dos últimos anos e aflorada pelas redes sociais, para mim, foi a seguinte:

Descobrir que vocês descobriram amigos, pais e primas fãs de políticos, desses que demonizam qualquer um que pareça fazer parte do fã-clube oposto, que cortaram relações e espumaram impropérios que com certeza não deveriam ter espumado caso receassem um arrependimento, e agora que o tal arrependimento chegou, não dão o braço a torcer. E tudo catalisado por esse espacinho virtual aqui, repletos deles, os fã-clubes.

Que bela, mas que belíssima desgraça para se viver.

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CrônicaReflexão

O povo do ué

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Equivoquei-me. Fiz a piadinha sobre trocar o “Ordem e Progresso” em nossa bandeira para um “Nós é muito loko”. Equívoco. Isso lááá atrás, com Temer no poder. E é bom assumir nossos erros assim, nossas pedaladas além do limite do razoável. Até pensei em forçar mais a piada, já que Bolsonaro escolheu um “Pátria amada Brasil”, mas vive repetindo o “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Há três anos eu pensei: “ah, já que tirou o slogan da bandeira, bota o meu ‘Nós é muito loko’ lá por enquanto”. Mas é bobagem. Nós não somos loucos. Estamos mais para embasbacados confusos. Talvez tenhamos nos transformado no povo do ué.

Quantas vezes fomos conectar qualquer dispositivo USB e logo de cara não conseguimos? “Ah, deve estar invertido”. Aí, felizões, viramos o cabo do troço e tentamos de novo. Não encaixa. Voltamos para posição inicial e voilà: a porcaria conecta numa facilidade indecente. “Ué”. Essa é a nossa reação, a nossa cara. “Ué”. Ou quando chegamos num ponto de ônibus — em BH temos uma estimativa eletrônica de tempo de chegada em alguns — e vemos que o nosso Pégaso querido e veloz está com status de “3302 – 3 min aproximadamente” e em breve nos levará para casa. “3302 – 1 min aproximadamente”. Você até arrisca o desejo de ir sentado. “3302 – Aproximando”. Finalmente. “3302 – 20 min aproximadamente”. “Ué”. Muitos xingamentos, mas o balão de pensamento é o mesmo: “Ué”.

Os últimos anos, creio, sacramentaram a ideia de que somos o povo do ué. Escolha sua rede social. O Instagram, o Twitter, o WhatsApp. Não importa. Todas elas serviram e acredito que vão continuar a servir para pacificar o que estou dizendo. Vejam bem. Relembrem o tênis de mesa político. “Ué, não era uma manifestação apartidária? O que estes políticos estão fazendo aí, nos ombros dos manifestantes?”. “Ué, a presidente não era a favor da democracia? O que ela está fazendo apoiando ditadores africanos?”. “Ué, a velha política, a mamata não tinha acabado? Por que Bolsonaro está negociando com o Centrão para salvar a própria pele?”.

Convenhamos, é a velha e feia mania do “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

Taca um “Ué” bem legal nessa bandeira. Esqueçamos qualquer ordem ou progresso. Bora tatuar um monte de “Ué” em pulsos, nucas e cristas de ilíacos. Nós somos o povinho do ué.

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Por que falar de empatia quando todo mundo está falando de coronavírus?

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Quando a gente fala de um vírus com uma transmissibilidade tão grande, a primeira coisa que temos que falar é sobre empatia. Vou explicar meus motivos ao longo dessa conversa.

Em primeiro lugar, podemos pensar que não estamos no grupo de risco e por isso precisamos de menos cuidados. Eu, particularmente, sei que não estou pela minha idade e condições gerais de saúde. Mas me acompanha aqui:

  • Mesmo quando não estamos no grupo de risco de desenvolver sintomas muito graves, há uma chance de sermos assintomáticos para a doença COVID-19 ou de termos sintomas leves, mas ainda assim, podemos passar o vírus adiante. E aí não temos controle: podemos passar para pessoas que podem ter sérias complicações e até mesmo virem a óbito;
  • A doença não é tão fatal, já estamos cansados de ver que a taxa de mortalidade é baixa, enquanto percentual. Porém, quanto mais pessoas infectadas, mais pessoas (em um número bruto) irão morrer. Só faça essa conta mentalmente para ter um exemplo: 5% de 100 e 5% de 100.000;
  • Se há uma quantidade enorme de pessoas doentes, teremos consequentemente uma quantidade maior de pessoas precisando de cuidados intensivos e não haverá leitos para todos. Inclusive, pessoas que nem estão infectadas com o novo coronavírus podem vir a óbito, porque os serviços de saúde estão tão sobrecarregados que não será possível atender a demanda e salvar a vida de todos.

Então, empatia basicamente é:

Se você não vai se dar mal com a doença ou se a chance disso  acontecer com você é pequena, pense em quem não está na mesma situação de privilégio!

Por isso, aja com consciência de coletividade, evite ser um vetor e sair por aí transmitindo para outras pessoas. Seja responsável pelas suas ações.

Já sabemos que a transmissão se dá por contato direto ou indireto com saliva, catarro ou secreções de pessoas contaminadas. Dessa maneira, para se prevenir, você precisa tomar alguns cuidados simples, mas que salvam vidas:

  • Lavar as mãos corretamente, com água e sabão, sempre que possível;
  • Na falta de possibilidade de lavar as mãos, você pode usar álcool gel 70;
  • Não abraçar, beijar ou tocar as pessoas na hora de se cumprimentar ou se despedir;
  • Manter pelo menos 1 metro de distância entre você e qualquer pessoa que esteja tossindo ou espirrando;
  • É um ato involuntário, mas quando estiver se lembrando disso, não toque seu rosto, olhos, nariz e boca. Como é um ato involuntário, lavar as mãos continua sendo a medida de prevenção número 1;
  • Se for tossir ou espirrar, cubra a sua boca com a parte interna do cotovelo ou com um lenço. Depois, descarte imediatamente esse lenço de forma correta;
  • Mantenha janelas abertas e os ambientes ventilados;
  • Fique em casa se não estiver se sentindo bem. Aliás, só saia se realmente for imprescindível, nesse momento a grande maioria dos compromissos podem esperar;
  • Evite viagens por agora que não sejam essenciais;
  • Evite aglomerações de pessoas.

É sempre válido lembrar que máscara é para quem está doente — ou seja, para que o doente evite o contágio de outras pessoas — e para cuidadores desse doente e profissionais de saúde que estão em contato direto com os enfermos e que precisam se proteger para continuarem cuidando de todos. Se você compra um monte de máscaras — e nem precisa usá-las! — vai faltar para quem realmente precisa.

Olha só, mais uma vez estamos falando de empatia: se você exagerar na compra de máscaras, álcool gel, papel higiênico (eu juro que ainda não entendi a lógica de quem está se entupindo de papel higiênico) ou artigos alimentícios, vai faltar para outras pessoas! E pior: vai faltar para quem está financeiramente mais vulnerável, que ainda não recebeu o salário e não pôde comprar nada. Quando essas pessoas chegarem aos supermercados, há uma chance de que tudo esteja mais caro, já que tudo estará mais escasso.

Se todo mundo se responsabilizar pelos próprios atos, podemos diminuir o contágio. Daí a importância da empatia em um momento desses! Cuide de si mesmo cuidando dos outros ao mesmo tempo, dá para fazer isso sim.

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CrônicaReflexão

Um raciocínio simples

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O raciocínio é simples:

O fato de alguém ser homossexual, preto, judeu, kardecista, mulher, índio, branco, favelado, católico, gordo, soropositivo, homem, evangélico, magro, gago e por aí vai, não deveria ser motivo de zoação. Só que quando misturam qualquer tipo de atitude idiota com futebol, o cérebro de algumas pessoas dá uma bugada. Vêm com “ah, mas é só brincadeira”, ou “cê tá de mimimi porque o seu time perdeu kkk chupa”. Chupar o quê, gente? Um pênis imaginário? Daí isso te daria mais uma razão para me zoar, já que supostamente eu deveria ser hétero e católico?

Pois quando os goleiros vão cobrar o tiro de meta, as torcidas do meu time e do seu time gritam é BICHA, não gritam PAI DE FAMÍLIA ou ESTUDANTE DE MEDICINA. E olha que seriam duas grandes zoações.

Outro raciocínio simples: por que é engraçado chamar um homem de mulher quando o assunto é futebol? Ou insinuar que ele seja homossexual? Por que isso ainda é troça hoje em dia enquanto todo mundo (quase todo mundo) enlouquece quando jogam bananas para jogadores brasileiros na Europa? Não é tudo brincadeira e futebol?

Pois é.

Se você que chama tudo de brincadeira ainda está lendo isso daqui, já deve ter pulado para o argumento do “eu me conheço, eu sou uma pessoa boa e quem me conhece sabe bem como sou, minha mãe é mulher e cruzeirense/atleticana e aceita tudo numa boa”.

Colocando a mãe no meio

Ok, então vamos colocar sua mãe no meio.

Porque na hora que o filho ou filha dela sofreu bullying na escola — já que lá qualquer tipo de segregação ganha esse nome —, a coisa mudou completamente de figura. Quando o filho dela foi zoado por ser preto pelas colegas de sete anos de idade, tudo ficou diferente. Quando a filha recebeu bilhetes anônimos horrorosos por ser lésbica, ou teve o nome rabiscado no banheiro por ter beijado fulano de tal, o mundo da sua mãe caiu. É possível que depois de cada situação dessas sua mãe tenha escutado dos outros pais e da própria escola que providências seriam tomadas, só que tudo não passou de uma brincadeira. Isso rola bastante.

Pergunta pra ela se foi legal participar da tal brincadeira.

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Mr. Sandman, bring me a dream

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Às vezes sonho comigo. Nesses sonhos eu posso ver e falar com aquele espectro de mim mesmo. O que refuta a teoria — se é que há mesmo uma teoria — de que não podemos ver nossos rostos nos sonhos. Sei lá. Talvez seja uma coisa um pouco rara, isso eu posso aceitar. Mas podemos sim. Acho que podemos fazer qualquer coisa quando sonhamos.

Há uma outra teoria — se é que há uma teoria — de que só podemos ver coisas que já vimos quando sonhamos. Bem, então ela também refuta a supracitada, porque todos nós vemos nossos reflexos em espelhos. Todavia também não gosto muito dessa, porque nunca vi muita coisa que já sonhei. Posso ter imaginado essas coisas, isso eu posso aceitar com algum esforço.

Hoje tive um desses sonhos. Hoje sonhei comigo mesmo. Estávamos, eu e eu, sentados em cadeiras que talvez tenhamos visto em filmes sobre o Brasil colonial. A sala parecia-se bem com salas que aparecem em filmes sobre o Brasil colonial. Talvez um gabinete, talvez alguns quadros ou uma escrivaninha. Um tapete verde-esmeralda velho sob nossos pés. As cadeiras dispostas de maneira que não nos encarássemos, mas que dessem a impressão de que falar sobre coisas importantes seria necessariamente a única coisa a se fazer. Vestíamos ternos ingleses cinzas, no entanto ele, o espectro, tinha um lenço vermelho estiloso que eu não tinha colocado em um dos bolsos do casaco. Também usávamos coletes. Estávamos elegantes.

Um silêncio pesado no ar. Parecia que ponderávamos várias coisas, ou pelo menos eu também devia estar ponderando. Então o espectro olhou para mim e quase não suportei aquilo. Não tínhamos os mesmos olhos.

— Todos têm um projeto, Marcos — disse o espectro — Eu tenho preguiça, muita, mas muita preguiça. E você?

Aí acordei com a Mentira, minha cachorra, lambendo meu pé direito.

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Reflexão

A melhor companhia que tenho é a minha

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Observo com grande frequência o incômodo das pessoas ao se perceberem sozinhas. Ao passarem um sábado à noite em casa ou ao não terem com quem almoçar, por exemplo. Já estive nesse grupo quando era mais nova, mas com o passar do tempo aprendi a apreciar a minha própria companhia e descobri que isso é a melhor coisa que podemos fazer.

Desespero para achar companhia

Quando você se desespera para achar uma companhia, potencialmente conseguirá uma ruim. Alguém que não se encaixa bem com o que você precisa de verdade. Porque o que está em jogo nesse caso não é a qualidade da companhia, mas ter uma. Quem quer que seja. Quem aparecer primeiro ou quem topar.

Tenho percebido muitas pessoas descrevendo encontros malsucedidos do Tinder (não vou entrar no mérito nesse post, mas há várias formas malsucedidas diferentes) nas sessões lá no consultório. O principal motivo — claro que existem outros, comportamento humano sempre é multifatorial — é aquela ideia de “não tem tu, vai tu mesmo“. É fundamental trocar o artigo indefinido — ter uma companhia — para o artigo definido: ter a companhia. Para isso, você precisa primeiro estar bem consigo mesmo. Depois, saber o que quer. Por fim, buscar o que você quer e ser paciente na jornada.

“Antes só do que mal acompanhado”

Isso me traz ao famigerado ditado popular brasileiro “antes só do que mal acompanhado”. Tomei como verdade na minha vida, o que me faz ser bastante seletiva sobre as pessoas que vou manter perto de mim. Uma frase de Nietzsche complementa essa mesma ideia:

Não me roube a solidão sem antes oferecer a verdadeira companhia

Friedrich Nietzsche

A interpretação pessoal que dei para essa frase é quase como uma filosofia de vida para mim: estarei na companhia de alguém se isso for, de alguma forma e qualquer que seja ela, interessante. Não estou sendo utilitarista nem interesseira. O que eu quero dizer com interessante para mim é que faz sentido estar com alguém se isso nos possibilitar algum tipo de troca. Quero estar com alguém quando isso for divertido, quando pudermos nos ajudar, quando tivermos conversas instigantes e por aí vai.

O prazer de estar na minha própria companhia

Não sendo assim, desculpe, eu prefiro estar na minha própria companhia. É a troca do termo solidão, que vem com aquela carga pesada, com aquela cor cinza escura, pelo termo solitude, que chega leve e eu enxergo como amarelo brilhante. O Marcos Marciano falou um pouco de solitude e introversão neste post aqui no Prisma.

Eu acho uma delícia poder decidir o que vou fazer com o meu próprio tempo! Se vou pesquisar alguma coisa, assistir a um seriado ou a um filme em casa, ir ao cinema, ler um livro, resolver algo na rua ou até mesmo, viajar sozinha. Quando se chega a essa descoberta de que você é a melhor companhia que poderia ter, um novo mundo de liberdade se abre.

Isso quer dizer que eu não gosto das pessoas?

Não. Significa que meus contatos sociais são ainda mais significativos. Eu não estou com as pessoas por estar desesperada, porque preciso delas. Estou com as pessoas porque isso é bom e quando é bom.

Quando estamos bem conosco, tudo funciona melhor. Especialmente a relação com outras pessoas. Você deixa de fazer por obrigação e passa a fazer por vontade. Não consigo imaginar nada mais livre e que traga mais leveza do que isso! Experimente!

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O jeito bom de se importar com a opinião dos outros

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A ideia desse texto surgiu na minha recente viagem ao Peru quando passei por pequenos desconfortos causados por outras pessoas. Ao mesmo tempo, pude observar que uma parcela do meu comportamento é direcionada a (tentar) não causar problemas para outrem. E isso vai muito além daquele medo da opinião dos outros.

Confesso que o título do texto foi propositalmente colocado como está para chamar mais a sua atenção. Digo isso porque vou falar mais sobre importar-se com os outros do que propriamente com a opinião deles. Desculpe, mas eu precisava te convidar para essa leitura!

Importar-se com a opinião dos outros é, em última instância, egoísta

Eu já falei sobre a importância de se tratar como prioridade e esmiucei os impactos de estar todo o tempo preocupado com o que os outros vão pensar. Apresentei para vocês meus dois grandes estalos sobre esse assunto:

  • Não se pode agradar a todo mundo e
  • Não requer esforço se você agrada a alguns naturalmente.

Uma coisa que eu ainda não tinha contado é que cheguei à conclusão de que se importar com a opinião dos outros é egoísta. “Mas Débora, como assim? Se eu estou preocupado em agradar como isso seria egoísta?”. Vamos lá:

  1. Estou preocupada com o que vão pensar de mim;
  2. Faço as coisas — ou pelo menos tento fazer — de uma forma que possibilite agradar aos outros;
  3. Quando agrado, provavelmente provoco no outro a reação de “nossa, a Débora é tão legal” (ou algo similar a isso).

Sejamos honestos: você está mais preocupado consigo mesmo. Isso é egoísmo. Calma que nem todo egoísmo é ruim (embora eu ache que esse é péssimo, por ser velado e no final das contas te atrapalha infinitamente mais do que te ajuda). Quer o exemplo de um bom egoísmo? Fazer o que combina mais com você e que vai te fazer bem, desde que isso não traga consequências negativas graves sobre outra(s) pessoa(s). Em tempo: o outro ficar com raivinha de você não é uma consequência negativa grave para ele! Nem deveria ser para você.

Importar-se verdadeiramente com os outros

Esse é o jeito bom! Agora vou voltar ao ponto que trouxe esse texto à tona: minhas experiências na viagem ao Peru — mas também vou acrescentar de outros momentos.

Quando estávamos em viagem — eu e a Marcella, que também escreve aqui — percebi uma grande preocupação minha em não atrapalhar os outros. Estávamos prontas no horário que supostamente a van iria nos buscar; voltávamos para o ponto de encontro sempre alguns minutinhos antes do horário marcado; prestava atenção se não tinha deixado lixo dentro do veículo, nas mesas etc.; não conversava muito alto, porque sempre tem alguém dormindo e por aí vai.

Em contrapartida, observei esses descuidos dos outros: turistas que voltavam para a van na hora que bem entendiam, atrasavam o circuito e provocavam que tivéssemos uma permanência menor no próximo ponto visitado; no avião, um homem achou que tudo bem dormir encostado na traseira da minha poltrona, jogando todo o peso dele sobre as minhas costas; na viagem de trem, uma mulher resolveu cruzar as pernas e me chutar diversas vezes enquanto pedia desculpas, mas não alterava o comportamento.

Vou dar mais exemplos, sou cheia deles. Em qualquer viagem que tenha feito, pessoas que entram na frente da minha foto ou que não saem nunca e não permitem espaço para que em algum momento eu e outras pessoas possam fotografar. Um vizinho que tocava bateria à noite e fazia o batuque reverberar no meu teto, embora tocasse a bateria com fones de ouvido. Uma república logo acima do meu apartamento que fazia festas de madrugada. Gente que conversa pelo celular no cinema. Gente que fala alto em qualquer lugar. Gente que não arreda para o fundo do ônibus, impedindo que mais pessoas entrem. Gente que não devolve troco errado que veio a mais. Em suma: pessoas que agem como se elas fossem as únicas que existissem no mundo.

Não quero de forma alguma dizer que eu sou perfeita e sempre antenada para não incomodar os outros. Nós sempre temos a chance e provavelmente a agarramos em alguns momentos de ser o incômodo de alguém. Mas acredito na importância de fazer o esforço empático de se lembrar do fato de que existem outras pessoas ao nosso redor.

Sobre os exemplos que eu dei, pedi para cessarem o incômodo que me causavam ou demonstrei isso com expressões de desagrado — e sim, tem gente que fica sem graça e para e tem aquele que intensifica só pra te encher o saco. Meu ponto é: essas pessoas não deveriam me tratar bem para evitar que eu pensasse mal delas — porque eu pensei! Elas deveriam me tratar bem pois é assim que tratamos uns aos outros. Digo e repito: o melhor jeito é se importar verdadeiramente com o outro. Ser empático. Isso sim é altruísmo.

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O sangue que corre em nossas veias

O sangue que corre em nossas veias

Eu fiz uma viagem ao Peru com a Débora aqui do blog, mais especificamente para os arredores de Cusco e Machu Picchu (aprendi que se diz “mátiu píquetchu”). Foi uma ótima oportunidade para aprender mais sobre o Império Inca e conhecer uma das Sete Maravilhas do Mundo Moderno. Mas por incrível que pareça, uma coisa me incomodou durante toda a viagem.

Em nossos passeios e contatos com os peruanos, eu observava o orgulho que todos sentiam dos seus antepassados e como o povo ainda mantém a cultura inca presente no dia a dia: seja nos hábitos, nas vestimentas, no diálogo (a segunda língua do Peru é a Quechua, língua que era falada pelos Incas) e até na estrutura dos monumentos e casas, onde ainda havia vestígios das construções incas. Tudo isso me fez pensar que eu não sei muito sobre nossas origens e acredito piamente que grande parte do povo brasileiro não saiba.

Nossa origem nativa

Há um tempo, conversei com meus pais sobre meus antepassados. Sei que por parte de mãe tenho ascendência portuguesa e indígena; já por parte de pai, tenho ascendência negra (meu avô, infelizmente falecido, disse que uma de suas bisavós foi capturada a laço. Bem horrível). Mesmo com essas informações, nunca mais quis saber a fundo sobre a minha própria origem (indígena, negra e até mesmo a portuguesa), e por consequência, o que de tradições eu poderia manter em respeito aos meus antepassados.

Claro que esse resquício de vontade de saber sobre nossos antepassados não é nada parecido com as pesquisas de historiadores, antropólogos e sociólogos sobre a origem do povo brasileiro, já que o Brasil é um dos países mais miscigenados do mundo (índios, os negros vindos da África, os colonizadores portugueses e diversos imigrantes: franceses, holandeses, italianos, japoneses, alemães, entre outros).

O grupo de pop Rouge é um retrato da miscigenação do Brasil. (Foto/Divulgação)

Olhando para trás, vejo inúmeras consequências negativas de como a invasão europeia se deu em nosso país e acredito que esse nosso desinteresse pelas culturas indígenas seja uma delas. Mas quero me portar de um jeito diferente, então, fiquei curiosa para saber mais detalhes sobre elas.

Já tinha ciência de que existem órgãos como a Funai (Fundação Nacional do Índio) e o Ipan (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) que fornecem dados diários sobre a situação atual. Mas durante minha rápida pesquisa, relembrei de um livro/documentário que um professor de faculdade utilizou bastante nas aulas de História do Brasil: “O Povo Brasileiro – A formação e o sentido do Brasil”, do antropólogo Darcy Ribeiro. Ele fala sobre como foi a chegada dos portugueses e a brutalidade da formação do povo brasileiro com a colonização.

Ainda nas minhas pesquisas, me deparei com esse vídeo super didático do Canal do Slow a respeito dos primeiros “brasileiros” no continente americano. Foi uma grata surpresa, porque não existem muitos materiais que expliquem tão bem e de forma tão simples sobre esse assunto. Segue o vídeo:

Utopia?

É claro que essa pequena pesquisa que fiz é ínfima em relação ao tanto de informação que existe sobre a questão indígena no Brasil. E tenho ciência de que o que inseri aqui não é nada perto do que merecem de visibilidade. Hoje mesmo, estamos vendo ao vivo e a cores o que o atual governo está fazendo em relação às propriedades indígenas e com a Floresta Amazônica, sinalizando o tamanho desrespeito com todos os povos existentes no Brasil. É de dar vergonha, afinal estudos demonstram a importância dos indígenas na manutenção das florestas.

Índia da tribo Awá Guajá, do Maranhão. (Foto/Fiona Watson)

E diante disso tudo, volto para o meu incômodo durante a viagem ao Peru e penso como algumas coisas no Brasil poderiam ser diferentes. Já imaginou se todos falássemos, além do português, alguma língua indígena como o tupi-guarani? Segundo o IBGE são mais de 200. E se nossos feriados fossem datados de acordo com cada religião-cultura indígena? Ou se fôssemos devotos dos costumes e crenças de cada tribo, ou se as tratássemos com a mesma importância e respeito que as do cristianismo? Como o Brasil seria?

Para a maioria dessas perguntas eu não sei a resposta, mas quanto ao respeito, ainda dá tempo de fazer alguma coisa e mudar a forma como enxergamos os povos indígenas. Seja pesquisando sobre as tribos ainda existentes ou até mesmo visitando-as. Porque a casa é tão deles quanto nossa. E o sangue que corre nas veias deles é o sangue que corre em nossas veias também.

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Reflexão

Antes de melhorar, piora

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Se alguém fizesse uma coletânea das frases que eu mais falo, posso te garantir que o título desse texto seria uma figurinha carimbada. Falo para os outros e para mim mesma, de modo a tentar gerar coragem para enfrentar a vida com suas delícias e percalços. Portanto, já te aviso que antes de melhorar, piora, mas há esperança e falaremos sobre isso!

Por que fazemos o que fazemos

Não tenho uma resposta super elaborada para te dar o porquê, na verdade, a essência do motivo de fazermos o que fazemos habitualmente é bem simples: porque aprendemos a agir assim.

Skinner, um proeminente psicólogo behaviorista, defendeu que o comportamento é produto de três níveis de variação e seleção. São eles: filogenético, ontogenético e cultural.

Vamos falar rapidinho sobre cada um:

  • Filogenético: refere-se ao nosso arcabouço biológico e genético, é o que herdamos;
  • Ontogenético: abarca o desenvolvimento comportamental do indivíduo, dadas todas as suas interações com o meio;
  • Cultural: esse nível de seleção compreende as variáveis ambientais mais amplas que influenciam os indivíduos. Por exemplo, a economia, a política, as questões culturais próprias do ambiente.

Diante disso, eis o que você precisa saber: esses três níveis interagem e o resultado é o conjunto de comportamentos que você aprendeu e apresenta. A tendência é repetir esses modos de agir. Dá para quebrar a sequência repetitiva se você se propuser a aprender algo diferente no lugar do que normalmente faz. Também é necessário criar as condições para que esse aprendizado comportamental aconteça.

Por que temos dificuldade (ou medo) de mudar, mesmo desejando as mudanças

Pelos mesmos motivos que te expliquei ali em cima. Nós aprendemos nossos comportamentos em determinados contextos que incluem nossa genética, história pessoal e cultura. Tendemos a repeti-los porque são nosso modo conhecido, garantido e seguro de interagir com o mundo.

Eu costumo brincar com os meus clientes:

Como será para você se eu começar a conversar em [insiro uma língua que eu sei que a pessoa não sabe, como alemão, por exemplo] contigo?

O cliente obviamente responde que não vai conseguir continuar a nossa conversa por não dominar o idioma. Essa pessoa não tem repertório nessa língua específica. Mas tem em outra, que é a que ela aprendeu a usar. Para dominar outro idioma o estudante teria que fazer um esforço consciente, programado e contínuo. Além disso, precisaria arriscar essa nova habilidade num contexto de insegurança, por ser novo.

Penso que assim fica mais claro por que temos dificuldade/medo de mudar, mesmo desejando as mudanças. A nossa forma de agir, embora incômoda nos aspectos em que se desejam as alterações, volto a dizer, é conhecida, garantida e segura. Os resultados dos nossos comportamentos-padrão são suficientemente previsíveis para nós. Outro ponto é que nossas atitudes nos trazem benefícios ou nos livram de problemas, ainda que não tenhamos essa percepção clara.

Mas por que antes de melhorar, piora?

Antes de melhorar, piora, porque ao tentar mudar algo em nossas vidas — seja lá o que for — isso sempre vai afetar o nosso comportamento. Por exemplo, se você se muda de casa isso vai afetar os seus trajetos habituais. Se você começa um novo curso, isso vai alterar sua rotina considerando as outras atividades. Se você altera a sua alimentação, vai mudar os seus hábitos em relação à comida. Percebe?

Não é confortável agir de um jeito ainda desconhecido. De uma forma cujos resultados não são tão previsíveis quanto os anteriores. E, especialmente, de uma maneira na qual você ainda não é “fluente”. Isso significa ter que fazer esforços deliberados para se comportar de um jeito X, sendo que você já é fera no Y. Já vou te falar que há esperança, mas antes só quero dar mais um aviso:

Se envolver outras pessoas piora ainda mais

Como somos seres sociais, é muito comum que uma mudança em nós influencie a vida de mais alguém. Não é uma regra, não é uma coisa que necessariamente vai acontecer, mas com outras pessoas envolvidas a mudança pode ser mais difícil.

Vamos pensar juntos: quando interage com alguém, você se torna contexto para o outro. E vice-versa, numa interação contínua, sistêmica. Sabe quando mãe reclama que faz tudo em casa e ninguém ajuda? Pois bem, ela faz tudo porque ninguém “move uma palha”. Enquanto isso, os demais moradores não fazem nada porque aprenderam que já está tudo pronto ou logo ficará. Por que eles iriam se esforçar? Em algum momento, os comportamentos dessas pessoas se estabeleceram assim e para quebrar alguém vai ter que começar a agir diferente.

Sigamos com nosso raciocínio. A(s) pessoa(s) que interage(m) com você vai(vão) reagir mal às suas mudanças, dificultando-as, se você agir habitualmente de maneiras que de alguma forma, mesmo que indireta:

  • Geram algum benefício a ela(s) ou
  • Impedem ou minimizam um prejuízo a ela(s).

Vale ressaltar que muito do que estou descrevendo costuma representar processos inconscientes. Isto é, essas relações muitas vezes não são realizadas deliberadamente pelas pessoas envolvidas. Para ficar mais claro: o que eu quero dizer é que não necessariamente quem reagir mal à sua mudança fará isso de propósito.

Fica aqui o alerta: quando quiser mudar algo na sua vida, pense em como isso vai afetar as pessoas ao seu redor e prepare-se como puder para os impactos.

O que fazer então?

“Mas Débora, se mudar é difícil por tendermos a viver numa eterna repetição dos nossos comportamentos e, além disso, ainda pode ter gente que vai agir contra (talvez sem saber) por participar da interação comigo, como diabos eu vou implementar alguma mudança?”

E eu te respondo: lembre-se que antes de melhorar, piora, mas a situação desconfortável não é permanente. Ela é transitória. Se você aguentar um pouquinho mais, vai ter tempo suficiente para transformar o estranho, o novo, em familiar.

Quanto às pessoas envolvidas de alguma maneira nas suas mudanças, tenha paciência. Lembre-se de que se você precisa de tempo, elas também. Com persistência nos seus novos comportamentos, as pessoas próximas a você que te querem bem em um dado momento vão perceber, entender e irão se adaptar.

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