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Reflexão

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Homens com bolas — parte 1 de 3

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Preparem o estômago, mas não por causa da fotografia de capa deste post. Sim, são dois homens — Maradona e Caniggia — num caloroso beijo. Esta imagem foi capturada em La Bombonera lotada há vinte e três anos, num clássico entre Boca Juniors e River Plate pelo Clausura de 1996, logo após o loiro anotar um tento. O Boca venceu a partida com uma atuação de gala de El Pibe e três gols de Cani. Desde o ano anterior a dupla reeditava a parceria que aniquilara a seleção brasileira de futebol na semifinal da Copa do Mundo de 1990 na Itália, adiando nosso tetracampeonato para os Estados Unidos. Os dois argentinos eram infernais dentro e fora dos gramados. Os beijos trocados por eles em campo — isso mesmo, no plural — foram tempero a mais para o final da polêmica carreira de Diego Armando Maradona Franco. Enfim, falemos de homens com bolas.

Maradona versus Pelé: homens com bolas

Pode haver um quase consenso sobre Pelé ter sido o maior de todos os tempos, mas quem tem um santuário em Nápoles e uma religião própria é o argentino. Ninguém por aqui venera Pelé como veneram Maradona na Argentina, na Itália e na Espanha. Pelo contrário. Edson Arantes do Nascimento é execrado por falar de si mesmo na terceira pessoa, é xingado por suas declarações políticas e por ter arrastado um processo de reconhecimento de paternidade anos a fio, para no final dizer que ele poderia até ser pai biológico de Sandra Regina, mas não fazia questão de se preocupar com ela. E olha que Maradona também espalhou filhos por aí aos moldes do dito rei do futebol, usou e abusou de cocaína, marcou gol com a mão para ser campeão mundial e colocou na conta de deus. Beijou homens. Mas a adoração está aí, firme e forte.

Faço a comparação entre eles por dois motivos. Primeiro: vi a imagem do beijo entre os jogadores argentinos pela primeira vez numa revista do cara que possibilitou minha estreia no universo do futebol de rua, anos atrás, algum tempo depois de ele atestar minha masculinidade aos outros garotos da vizinhança, de modo que me permitiram jogar. Segure essa informação por um momento.

Segundo motivo: alguns dias antes da abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, a expectativa era de que Pelé fosse o escolhido para acender a pira olímpica, no entanto o ex-camisa 10 brasileiro alegou problemas de saúde e disse que não compareceria à cerimônia. Como não é endeusado à la Maradona por aqui, claro, a internet não perdoou. Falaram que ele estava na verdade muito despeitada — sim, no feminino — por não ter sido a primeira opção da organização dos Jogos. Li em comentários de portais de notícias que, se por acaso Maradona fosse brasileiro, ele iria até de maca ao Maracanã e tiraria do bolso um cartaz de “Fora Temer” — o impeachment de Dilma ainda estava morno —, botando fogo não só na pira, porque ele sim, Maradona, era muito macho. Nas palavras da comentarista de portal, e agora ela falava de Pelé, abro aspas, “pai que não reconhece filha, pra mim, não é homem”.

Dito isso, parto para o que quero abordar: masculinidade e futebol. Apresento agora a jornada de como o futebol tentou e tenta me ensinar a ser homem. Repetindo o início do post: prepare o estômago.

Infância

Eu devia ter uns oito para nove anos quando comecei a jogar futebol. Jogávamos na rua, uma pirambeira respeitável que pode muito bem ter a ver com as duas artroscopias em meus joelhos. Porém demorei a ser convidado pelos meninos mais velhos para fazer parte da coisa. Eu “fedia a perereca e devia ter uma”, de acordo com um deles, pois ainda brincava de pega-pega com as meninas. Eles me obrigavam a buscar a bola que descia a ladeira, dando falsas esperanças que em algum dia chegaria a participar das partidas de verdade. Usavam chinelos como traves e todos jogavam descalços. Digo a vocês: descobri que não há nada melhor que jogar bola descalço. Até então não sabia disso, só ficava correndo atrás da bola que descia a rua. Mas agora podemos falar da informação que deixei você segurando há pouco, sobre como naquela tarde descobri o que era jogar bola descalço após confirmarem minha masculinidade infantil.

Depois de ter subido e descido algumas vezes a rampa de asfalto como o bom gandula que fui, o cara que me mostraria alguns meses depois a revista com o beijo entre os argentinos resolveu que eu poderia jogar. Com uma condição: tinha que aguentar socos na barriga de cada um dos peladeiros. Eu topei, porque era uma criança de oito para nove anos que finalmente ia jogar bola com a galera da rua. E, lá no fundo, não achei que dariam socos a valer em mim. Endureci o mais que pude a barriga e levei cinco socos, dois deles, os últimos, muito bem dados. Tive vertigens e suei frio e joguei muito mal, com vontade de ir ao banheiro o tempo todo. O cara da revista disse que o menino da perereca agora “tinha bolas”.

Batismo no banheiro

Falando em banheiros, o futebol não ficava só na rua, porque havia a escola. Lembro-me de estar conversando dentro do banheiro que ficava próximo ao pátio com um colega de sala. O horário seguinte seria o da nossa educação física. Alguns alunos mais velhos, daqueles que você sabe que não pode nem olhar na cara e que jogavam futebol durante todo o recreio, também estavam lá, atrasados para suas respectivas aulas. Muita gritaria e empurrões. Desde cedo aprendemos que dentro da escola há regras subentendidas sobre quem manda e quem olha para baixo. Uma hierarquia que não sei se funciona para as meninas como funciona para os meninos. Lembro-me de estar achando engraçado o fato de não tomarmos banho depois de exercícios físicos ali e irmos todos suados para as salas de aula, mesmo com três chuveiros disponíveis no banheiro. Escola relapsa.

O que importa agora foi o que aconteceu. Eu não estava olhando para baixo no momento que deveria estar olhando para baixo. Daí, um dos caras mais velhos — creio que o melhor jogador de futebol do turno da tarde —, com dois empurrões, me colocou dentro de um box junto com meu colega de sala, fechou a porta, fazendo força para que não conseguíssemos abri-la e começou a gritar para que todos ouvissem: “Gente! Duas bichinhas comendo a bunda uma da outra no banheiro!”. O olhar desesperado do meu colega — que nem era assim tão colega, sabíamos o nome um do outro, mas não tínhamos tanta intimidade antes daquilo — é algo que vou carregar para sempre. Se existia a possibilidade de uma amizade entre nós, ela morreu ali, naquele box. Quando o bully liberou a porta, saímos de lá e ele apontava para nossos calções e ria junto com os outros presentes: ”Olha lá, os dois com o pau duro!”. Eu meio que sabia e não sabia o que estava acontecendo, mas tinha certeza que estava errado e que aquilo não poderia se repetir e nem chegar aos ouvidos de ninguém.

Por ora, creio que basta.

Homens ainda com bolas, e piora

Mas já é válido dizer que o futebol monta o esqueleto de um universo masculino que engole muitos garotos por aí. Ele não se esgota apenas como esporte. Tem um quê social muito forte e não tão bem definido que passa a ditar comportamentos e respostas numa lógica bem perversinha para darmos significado à palavra homem.

Se vocês não acharam nada impressionante, se acharam exagero eu falar para prepararem o estômago nesta primeira parte, bem, esperem as próximas. São bem piores.

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Abrace as suas vergonhas

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Eu confesso que tenho várias roupas de estimação. E com certeza você também tem aquela peça de vestuário preferida, que pode até mesmo ser antiga, mas sente ojeriza ao pensar em se desfazer dela. No meu caso, o que me mata de vergonha é que a minha roupa de estimação preferida é uma blusa de campanha política de um ex-governador mineiro — que me recuso a dizer quem é publicamente —, e que provavelmente deve ter uns 20 anos de existência. Mas eu amo aquela blusa e não existe roupa mais confortável que ela. E essa culpa de gostar de algo considerado bizarro acontece comigo com várias coisas, são os meus guilty pleasures.

Minhas vergonhas

Caso você não tenha entendido, a expressão guilty pleasures é utilizada para se referir aos nossos prazeres culposos. São coisas que gostamos e que muitas vezes são inconfessáveis, já que podem ser socialmente questionáveis, indo contra a como você normalmente se comporta ou transparece para o mundo. É, basicamente, o medo de passar vergonha com você mesmo em relação às coisas que você gosta.

Falando assim, acho que eu posso me considerar a rainha dos prazeres culposos. E por quê? Bom, eu sou apaixonada por música latina, por exemplo. Desde o rock folclórico do Café Tacvba, até o reggaeton do Maluma. Até aí tudo bem, certo? Mas o motivo que me fez começar a gostar desse estilo musical é onde mora a minha vergonha: novelas mexicanas. Eu posso dizer de cabo a rabo sobre quase todas as novelas mexicanas que passaram no SBT nos anos 90/começo dos anos 2000. Novelas da Thalía? Assisti a todas. A Usurpadora? Acompanhei todas as reprises. Novelas infantis? Sei as músicas de cor até hoje. Como diria Glória Maria, “é horrível, mas ao mesmo tempo é bom”. Eu adoro um dramalhão.

É por causa dessa cultura que fui completamente fascinada por RBD (sim, o grupo mexicano da novela Rebelde: das gravatas vermelhas, tatuagens no rosto e estrelas na testa). Fui fã de ter todos os CDs e DVDs, de ir a todos os shows que tiveram em Belo Horizonte, de saber todos os detalhes de cada integrante. Em resumo: eu até aprendi a entender e falar um pouquinho de espanhol por conta de toda essa influência latina.

E tem mais vergonha na minha conta quando o assunto é música. Quem me conhece sabe que eu não curto muito sertanejo (Gustavo Lima, arrocha e afins pra mim são como enfiar uma faca no ouvido infinitas vezes). Mas eu tenho que dar um braço a torcer, pois alguns cantores e cantoras do gênero são ótimos músicos e tem um vibrato gostoso de ouvir… apesar das letras sofríveis. Então sim, às vezes eu gosto de ouvir Marcos e Belluti ou Jorge e Mateus. Até me arrisco a ouvir algumas músicas gospel pela técnica vocal dos cantores ou cantoras. Parece que já posso aposentar minha carteirinha de gosto musical invejável, certo?

Além de música, tenho uma predileção por comédias românticas. Meu irmão, o Marcos, aqui do blog, define certos tipos de filmes como “filmes de Marcella”. São aquelas comédias românticas super clichês, com atores como Freddie Prinze Jr ou Reese Witherspoon no elenco e uma sinopse bem manjada. E não só filmes, como romances românticos também. Nicholas Sparks, Nora Roberts, Judith McNaught e por aí vai.

Outro exemplo que pode chocar muita gente é meu apreço por esses vídeos de remoção de cravos que são famosos na internet. Para mim é relaxante de acompanhar. Tenho até uma profissional preferida, a doutora Sandra Lee, mais conhecida como Dr. Pimple Popper. E ela fez tanto sucesso na internet que até tem um programa no canal TLC hoje em dia.

Ligue o foda-se

Se eu for listar todos os meu prazeres culposos, acho que morreria tentando. Mas se tem algo que aprendi é que o legal de esconder esses gostos da maioria das pessoas é encontrar gente que te entenda (e te aceite) e que compartilhe a mesma paixãozinha secreta com você. É sentir aquele quentinho no peito de ver que você não está sozinhx nessa odisseia de curtir coisas com qualidade duvidosa. E você acaba ligando o foda-se para os outros e aproveitando algumas situações: minha melhor amiga se tornou minha amiga porque compartilhávamos, lá em 2006, a mesma paixão por RBD. E somos amigas até hoje.

Mas e você? Já parou pra pensar quais são os seus guilty pleasures? É bom refletir sobre isso, porque é uma forma de se autoconhecer, de encontrar em você algo que te faz diferente do resto do mundo ou o que te torna igual a muitas pessoas das quais você nunca imaginou ter algo em comum. E o principal: são coisas que te fazem bem, te trazem felicidade. Então vai um conselho: abrace as suas vergonhas, pois são parte do que te faz ser você. E isso é o que nos faz incríveis, não é mesmo?

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Baby steps: o que são e por que você deveria adotar agora essa forma de agir

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Estou escrevendo este texto para ver se eu também entendo de uma vez por todas, acolho essa ideia e transformo em prática os baby steps. Converso com vocês enquanto também estou falando comigo. Venho tentando caminhar com mais vagar, porém com mais constância. Vez ou outra me esqueço disso e incorro no erro de querer fazer tudo de uma vez, o que acaba produzindo ciclos de ânimo versus desânimo em minha vida.

O que são baby steps?

Baby steps é um termo em inglês que basicamente quer dizer passos de bebê. Bem simples a ideia. Refere-se a fazer as coisas, quaisquer que sejam, devagar, com calma, passo a passo. Às vezes um passo desajeitado após o outro, até que se ganhe a confiança para caminhar com mais desenvoltura. Bonitinho, né? Até o final do texto espero que você ache essa ideia ainda mais legal.

Por que precisamos falar de baby steps?

Porque vivemos em um mundo em que a ideia de sucesso está atrelada às noções de correria, produção e esgotamento.

Existe uma frase — que eu acho horrível, por sinal, massacrante — que os coaches motivacionais (argh!) usam muito. Provavelmente você a conhece, é essa aqui, ó:

Estude enquanto eles dormem.
Trabalhe enquanto eles se divertem.
Lute enquanto eles descansam.
Depois viva o que eles sempre sonharam.

Aí depois vi essa frase reescrita e bateu aquele alívio de perceber que alguma pessoa pensou de forma mais alinhada comigo:

Estude enquanto eles dormem. puder
Trabalhe enquanto eles se divertem. necessário
Lute enquanto eles descansam. Viva, porque a vida não é uma guerra
Depois viva o que eles sempre sonharam. você planejou

Implícita na primeira frase está a ideia de que você precisa se esforçar absurdamente e desrespeitar seus limites físicos e emocionais enquanto os outros não fazem nada “útil”. Ou seja, você precisa se sacrificar. Isso tudo para que você tenha uma vida melhor do que a deles, enquanto eles ficam só no plano do querer. Digo mais: também está embutida nessa citação o pensamento de comparação. Algo como: “se eu me esforçar, vou ter uma vida melhor do que a dos outros“. TÁ ERRADO!!! Vamos trocar para um pensamento saudável?

“Se eu me esforçar com parcimônia vou ter uma vida melhor do que a que EU tenho hoje“.

Meu dever de casa para você: repita isso até acreditar. E esqueça os outros! A vida dos outros não é da nossa conta. E a nossa não é da conta deles. Sucesso para você é uma coisa, para mim é outra, para o meu marido é uma terceira coisa. Qual tal respeitarmos as nossas próprias definições?

Vemos as coisas de um jeito impossível porque falta referencial

Eu conto muito essa história para as pessoas porque acho bastante ilustrativa. Quando eu estava na faculdade, pensava que queria um consultório cheio, com casos interessantes para atender e sustentável financeiramente. Pois toda vez que eu pensava nisso logo vinha um “impossível, claro que eu não vou conseguir” na cabeça. Sabe por quê? Eu dava um salto que não existia: entre o pensar em um consultório cheio e ter o consultório cheio eu não descrevia o passo a passo. Parecia que eu teria que fazer a coisa de uma vez só. Pensamento não materializa coisas ou situações, mas pode materializar planos para que se consigam as coisas ou situações.

Depois eu aprendi, ainda bem: “Vou pensar nisso como uma escada. Então quais são os degraus?”. Aluguei hora avulsa para atender clientes “pingados”. Aluguei bloco de horas para atender mais pessoas. Enquanto isso, eu tinha um trabalho de carteira assinada de 40h semanais para sustentar o básico. Percebi que a demanda no consultório estava aumentando, consegui um trabalho de carteira assinada de 30h semanais. Aluguei uma sala e dividia com uma amiga. Depois, fiquei por conta do meu trabalho como autônoma. Passei a usar a sala sozinha e minha amiga alugou uma para ela também. Passo a passo, viu? Entre o primeiro e o último passo até que eu ficasse por conta exclusivamente do meu consultório foram 5 anos. Ou seja, as coisas não aconteceram como eu queria quando eu pisei fora da faculdade com o diploma na mão.

Assim, a situação em que estou hoje tem que ser referencial para a próxima que eu quero criar. Se o referencial for só o último degrau da sua escada, vai parecer alto demais, longe demais, esforço demais e você provavelmente vai desistir e passar um bom tempo sentindo culpa por não sair do lugar.

Importante também: o meu passo a passo na Psicologia pode ser muito diferente do de outra pessoa. Por exemplo, eu morava e trabalhava no centro da cidade. Horas que eu deixava de gastar andando de ônibus porque andava a pé eu usava para atender pessoas após o expediente do trabalho fixo. Vamos pensar em uma pessoa que mora muito longe: talvez ela não pudesse fazer da forma como eu fiz. Com isso eu quero dizer o seguinte, de novo: vamos parar de nos comparar com os outros?

Dividir para conquistar e celebrar pequenas vitórias

Os baby steps são sobre isso: dividir para conquistar, ao mesmo tempo em que celebramos as pequenas vitórias. Acima, dei o exemplo de ter dividido quais eram os passos para que eu facilitasse minha chegada no ponto que naquela época era o topo da minha escada: trabalhar somente com o meu consultório de uma forma sustentável para mim.

Sugiro que você sempre se trate com esse carinho de identificar aos poucos o que você quer e seguir planejando as ações que vão te levar para mais perto dos seus objetivos. Lembrando que não tem problema em mudar o caminho se ao percorrê-lo você encontra motivos para tanto.

Um efeito maravilhoso de dividir os esforços em passos é que ao conseguir concluí-los, recebemos um impulso de satisfação que se propaga. O bem-estar produzido pela conclusão de um passo se torna contexto para termos motivação para o próximo passo. Um belo e saudável círculo virtuoso.

“A direção é mais importante do que a velocidade”

Já diria o autor Edson Marques em seu poema “Mude”. Uma grande amiga me conta que sempre repete essa frase para si mesma. O bom é que quando ela me fala disso, me lembra que também preciso encaminhar meus esforços para a direção e não para a velocidade.

Eu já disse isso em outra ocasião, mas é o tipo de coisa que penso que sempre vale a pena repetir: você deveria se tratar com a mesma paciência que teria ao tratar um amigo ou familiar querido que está enfrentando dificuldades. Você não acha razoável que essa pessoa divida o que precisa fazer e vá se engajando em cada etapa? Faça isso também!

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Medo da opinião dos outros: aprenda a ser livre e a se priorizar

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Se você já deixou de fazer ou fez algo ponderando o que os outros iriam pensar a seu respeito, te dedico esse texto. O medo da opinião dos outros é um tema central na vida de muita gente, motivo para que várias pessoas busquem soluções na terapia.

Eu já estive dos dois lados e afirmo com convicção: é possível parar de ter medo da opinião dos outros. Vou começar te contando um pouquinho da minha história e vamos desembolar o medo desse bicho papão até o final do texto, beleza?

Ah, o bullying

Eu fui uma criança e adolescente muito tímida, zoada na escola pela minha aparência e meu jeito de CDF. Além disso, minha mãe me prendia demais (ela odeia que eu fale isso, mas só trago verdades). Dessa forma, minha socialização da adolescência acabou acontecendo de forma bastante hostil: convivia com muitos colegas maldosos na escola e não tinha liberdade para conviver com os amigos fora desse espaço.

Como eu sabia que era apontada pelos colegas de sala pelas costas, evitava tudo o que pensava que poderia ser motivo para piadinhas. Roupas que eu gostava, mas que poderiam achar estranhas; andar de sandália aberta porque eu tinha vergonha dos meus pés; não amarrar o cabelo porque eu tinha vergonha do meu nariz (ganhei apelidos por conta dele); não ousar muito em cortes de cabelo — a primeira vez que fiz um repicado (que eu tinha adorado, gente!) algumas pessoas me chamaram de “Chitãozinho e Xororó”. Por mais que eu me limitasse, existia falatório.

Cultura familiar de aparências e de comentários não solicitados

Além das vivências escolares que contei para vocês acima, cresci em uma família com um falando mal do outro pelas costas, mas nas fotos estava tudo lindo e todo mundo se amava. Não tenho pudor em falar que eu fazia a mesma coisa, afinal de contas, eu tinha sido ensinada assim. Era impossível fazer um amigo secreto no final do ano sem pelo menos metade das pessoas estarem sabendo quem tirou quem por causa do leva-e-traz de informações o tempo inteiro.

Assim, fui apresentada logo cedo e no ambiente que se supõe o mais seguro que temos na vida ao pensamento maldoso dos outros. Fui apresentada à situação de ver um parente conversando com o outro na forma mais amigável e carinhosa do mundo e logo que a pessoa virava as costas, quem tinha ficado no recinto comentava algo como “Fulano é muito idiota mesmo”.

Como ter certeza se estou agradando? Faça uma nota mental com essa pergunta, vamos voltar a ela depois de conversarmos um pouco mais, certo?

Na vida adulta, a opinião dos outros bate ainda mais forte

Depois de ter passado por essa trajetória, obviamente me tornei uma adulta com várias inseguranças. Um dos pontos marcantes foi em um estágio. Topei uma vaga de atendimento de criança, que eu já sabia que definitivamente não era do meu interesse, porque fui indicada por um colega, queria a bolsa e era na minha abordagem teórica. Comecei a sofrer desde o primeiro dia do estágio e a coisa só foi se intensificando. Gente, eu odiava MUITO esse estágio.

Gastei cerca de 3 meses para sair. Sabe o que ficava se passando pela minha cabeça toda vez que pensava em pedir conta? A voz da minha supervisora falando que era um estágio de muita responsabilidade, o contrato era de 12 meses e ninguém nunca havia desistido antes — sim, ela me falou todas essas coisas na entrevista. E repetia, vez ou outra. Eu pensava que seria a primeira a decepcionar a minha supervisora e isso pesava.

A terapia me ajudou a entender o óbvio que não estava óbvio apenas na minha cabeça: diante dessa situação, a principal decepcionada era eu mesma! E em consequência disso, por mais que quisesse, eu não faria meu melhor trabalho. Ou seja, não era bom nem para mim, nem para minha supervisora e muito menos para a criança que eu permanecesse no estágio. Foi assim que eu saí: sentada em um sofá de frente para a poltrona da minha supervisora, conversando com ela sobre tudo isso que tinha pensado com a voz trêmula e suando frio. Após tudo que expus, ela me parabenizou porque eu finalmente estava sendo assertiva — ela havia me cutucado muito nesses 3 meses para falar alguns nãos para a família da criança, que eu simplesmente não conseguia colocar em prática.

1º estalo: não se pode agradar a todo mundo

Sabe aquela historinha que muita gente fala que nem Jesus agradou a todo mundo? Pois é. Agora é o momento de voltarmos à pergunta: como ter certeza se estou agradando? Só preciso te devolver mais um questionamento antes de prosseguirmos: por que diabos você precisa ter certeza que está agradando? A resposta para isso é bem pessoal. Reflita aí na sua casa ou onde quer que esteja lendo e guarde sua conclusão com carinho. Ou leve para a sua terapia, melhor ainda.

Mas agora vamos responder à questão que eu lancei antes. Você tem mais segurança em saber que está agradando às pessoas ao seu redor se se cercar de indivíduos com valores mais semelhantes aos seus e cuja relação seja o mais íntima possível, a ponto de poder realmente ser pautada na honestidade.

Isso nos leva para o segundo estalo.

2º estalo: não requer esforço se você agrada a alguns naturalmente

Como já falamos, não dá para agradar a todo mundo. Se você está agradando a todo mundo, provavelmente o único desagradado é você. Se para saber ou ter pelo menos mais pistas de que você agrada a alguém, como falei logo ali em cima, é importante que:

  1. Você compartilhe alguns valores (por exemplo: respeito, liberdade, trabalho, família, tolerância, honestidade, etc.) com a pessoa em questão. Isso ajuda vocês a falarem a “mesma língua”. Vou deixar mais claro: para mim, é extremamente importante me sentir livre e uma das formas de fazer isso é viajando. Se estou conversando com uma pessoa cujo valor mais forte seja segurança, ela pode me achar uma louca e desaprovar a quantidade de dinheiro que gasto com viagens, porque eu deveria investir isso na compra de um imóvel. Entende?
  2. Você tenha uma relação com maior grau de intimidade com essa pessoa. Quanto mais íntimo, maior a chance de a pessoa ser honesta com você e vice-versa sobre o que de fato está pensando a respeito de uma experiência ou situação que te envolve.

Vamos pensar juntos: os valores não são iguais para todos e você também não é íntimo de toda pessoa que conhece. Assim, se tentar se encaixar no gabarito de qualquer um que veja pela frente, qual é a consequência óbvia? Você vai se perder. Por isso, não requer esforço se você agrada às pessoas naturalmente. Elas te “aprovam” como você é, sentem-se bem estando ao seu lado da forma como você se apresenta. Isto é, seu jeito “normal” é apreciado. Você deveria se preocupar menos em agradar a todo mundo e se cercar mais dessas pessoas das quais estamos falando.

Um detalhe importante que não posso deixar passar: não é o tempo inteiro que as pessoas vão ficar satisfeitas com você. E tudo bem! Pense comigo mais uma vez: se alguém gosta de você verdadeiramente, não se incomodará com alguns nãos ou pisadas na bola seus porque sabe que a relação tem muito mais embasamento do que só um agradinho aqui ou outro ali.

Principais impactos do medo da opinião dos outros

Compilei alguns dos principais impactos que percebo relacionados ao medo da opinião ou do julgamento dos outros:

  1. Não saber bem quem você é: já falei agora mesmo que você vai se perder se tentar se encaixar ao jeito de todo mundo. É isso mesmo que acontece! Adaptação é uma coisa boa, especialmente se usada com parcimônia. Se descaracterizar não é se adaptar, viu?
  2. Não saber do que você gosta: em decorrência do que foi mencionado acima, pessoas que se sentem muito inseguras com a opinião dos outros têm muita dificuldade em apontar o que gostam de fazer. Passaram tanto tempo se encaixando em outros formatos que não tiveram oportunidade de observar o formato original. E o hábito de buscar esses encaixes é tão arraigado que precisam aprender a fazer um molde próprio.
  3. Dificuldade de fazer escolhas: se você não sabe quem é, o que gosta e está preocupado em ser aprovado na sua escolha por outrem, me conta uma coisa: isso vai dar certo? Você acha mesmo que vai conseguir fazer uma escolha legal com essa bagagem? Primeiro troque suas referências, aponte-as um pouquinho mais para o seu umbigo e depois escolha.
  4. Insegurança após fazer escolhas: se você estiver tentando servir a dois senhores — a si mesmo e a quem quer que seja que esteja tentando agradar — é inevitável sentir insegurança após ter escolhido algo. Mais uma vez, reforço a importância de consertar o referencial dessas escolhas e apontar para o lugar certo: o seu norte.

Como lidar com esse medo?

Contei ao longo da nossa conversa alguns aspectos da minha história. O que me ajudou?

  • Ter sido praticamente forçada a me priorizar (no exemplo do estágio);
  • Ter desenvolvido uma autocrítica sobre a minha história e identificar que meus valores não condiziam com o disse-me-disse de alguns dos meus parentes;
  • Ter feito a terapia para chegar a mais conclusões, como o entendimento mais profundo sobre eu ser a principal prejudicada se estivesse priorizando vontades dos outros.

E o que mais pode te ajudar a começar a ignorar esse medo tão grande da opinião dos outros?

  • Lembrar que a maldade está em quem julga. Quem gosta de verdade vai expor com carinho, respeito e diretamente a você aquilo que pode te sugerir como novos ângulos a serem pensados sobre o assunto que te diga respeito;
  • Lembrar que também pensamos algumas coisas sobre as pessoas e refletir: “qual é o efeito do que eu penso?”. Na maioria das vezes, aquilo que passa pela sua cabeça nem vai chegar até o receptor e não vai fazer mal algum a ele;
  • Lembrar que você está vivendo dentro da sua cabeça. Se tem tanto medo da opinião dos outros, imagino que não saia por aí pedindo-a, não é mesmo? Ou seja, a maior parte do que você cogita que os outros estão julgando a seu respeito é você mesmo pensando. Se é você mesmo, faça-se o favor e tente pensar coisas melhores sobre e para si.
  • Lembrar que quem vai conviver com as consequências das suas ações e decisões 24h por dia, 7 dias por semana, é você! Priorize-se!

Por fim, digo que quanto mais você conseguir agir a despeito do seu medo, mais essa ação se tornará familiar, habitual, até que esse medo dos linguarudos não mais faça sentido. Eu cheguei do lado de cá e posso te garantir: vale a pena demais! : )

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Pó de estrela, o universo e teorias sobre a vida…

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Se existe algo que prende a minha atenção, com toda a certeza, é qualquer coisa relacionada à Astronomia. Acho que deve ser algo de sangue — afinal, tenho Marciano em meu sobrenome.

Piadas à parte, acredito que todos nós que ficamos intrigados com esse assunto temos a mesma sede de respostas que físicos e astrônomos têm. Mas ao contrário dos leigos, eles estão quebrando a cabeça com contas e teorias neste exato momento para encontrar tais respostas. Como surgiu o universo? Existem outro universos além do que conhecemos? Há vida fora da Terra?

Contatos com extraterrestres?

Às vezes me pego olhando para cima, seja de dia ou de noite, e fico pensando na imensidão do cosmos… me fascina pensar que somos resultado de pó de estrela. Não somente nós seres humanos, mas tudo o que existe no universo. Carl Sagan, uma das personalidades mais importantes no mundo astronômico, foi quem popularizou essa história de sermos feitos de pó de estrelas. Este artigo da equipe da SDDS-III APOGEE, consegue explicar melhor o que Sagan quis dizer.

Foi também ideia de Sagan criarmos uma espécie de mensagem na garrafa a ser enviada para o espaço, com a finalidade de nos apresentarmos aos irmãos extraterrestres, chamada Mensagem de Arecibo. Para tanto, em 1974, uma transmissão de rádio feita por Sagan e parte de sua equipe no projeto SETI (sigla em inglês para Search for Extraterrestrial Intelligence, que significa Busca por Inteligência Extraterrestre), foi enviada para o espaço através de ondas de rádio, em direção a um aglomerado de estrelas a cerca de 25.000 anos-luz de distância da Terra.

De acordo com esta matéria da revista Exame, a Arecibo continha a localização e detalhes de nosso planeta, informações sobre os seres humanos e princípios fundamentais da matemática e da ciência. Tudo isso resumido em 1679 impulsos de código binário que levaram três minutos para serem transmitidos na frequência de 2380 MHz, na esperança de que alguma vida inteligente possa decifrar nosso recado.

E desde então, entre fatos e teorias, nós seres humanos mesmo que a passos pequenos seguimos avançando nas descobertas sobre o universo. Com o lançamento de sondas e satélites na vastidão do universo — como a Cassini —, conseguimos informações preciosas sobre outras galáxias e detalhes dos outros planetas. Enfim chegamos a Marte, temos as primeiras imagens de Plutão e conseguimos descobrir que existe a real possibilidade de vida extraterrestre, com a existência de água líquida e sólida fora do Sistema Solar. E isso é fantástico!

https://www.youtube.com/watch?v=g1fPhhTT2Oo

A grande nova conquista foi a primeira imagem de um buraco negro. Este feito foi resultado da junção de sinais de oito telescópios espalhados ao redor do globo. Vale ressaltar que um dos membros da equipe responsável pela imagem e por sua divulgação é a cientista brasileira Lia Medeiros.

Multiverso e teorias sobre a vida

Batizada de “Hubble Ultra Deep Field”, a imagem, de 2004, representa o retrato mais profundo do universo visível já alcançado pela humanidade. ( ESA/S. Beckwith (STScI)/HUDF Team/NASA )

Dentre as teorias que mais me identifico, está a do Multiverso. Um dos últimos estudos deixados pelo saudoso físico Stephen Hawking. Ele morreu no ano passado, deixando um enorme legado de descobertas e teorias. A Teoria do Multiverso, fruto dos esforços de Hawking e do cientista Thomas Hertog, diz que existem outros universos além deste em que vivemos.

Particularmente, tenho a minha própria teoria de multiversos. Nela eu misturo ciência e algo de espiritualidade. Gosto de pensar que seja uma teoria verossímil. Então, caro leitor, se você chegou até aqui e achar que a partir de agora isso já passou do nível de normalidade, já peço perdão de antemão por tamanho devaneio.

Eu penso que quando morremos, não desaparecemos de vez. Penso que nossa alma ou nosso inconsciente (ou o que quer que seja o que nos faz humanos), se teletransporta de alguma forma para um outro universo, um dos infinitos universos existentes. E nesses outros universos vivemos nossa vida de infinitas formas, semelhantes a essa que estamos vivendo agora ou completamente diferentes. Daí a explicação para nossos déjà vu. E isso acontece infinitas vezes, nos infinitos universos que existem… daí o multiverso.

Como disse Carl Sagan em seu livro O Mundo Assombrado Pelos Demônios,

“a ciência não é só compatível com a espiritualidade; é uma profunda fonte de espiritualidade. Quando reconhecemos nosso lugar na imensidão de anos-luz e no transcorrer das eras, quando compreendemos a complexidade, a beleza e a sutileza da vida, então o sentimento sublime, misto de júbilo e humildade, é certamente espiritual”.

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Reflexão

Nossos úteros não são públicos

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Confesso que está difícil começar esse texto, por ser sobre um assunto que eu odeio conversar: maternidade compulsória. Causa-me preguiça ter que dar tantas explicações a respeito de uma escolha que para mim é, de verdade, extremamente simples e pessoal: a escolha de não ser mãe. Melhor dizendo: a minha escolha de não ser mãe. Mas ao mesmo tempo penso que se não abordo o tema, meu silêncio contribui para a perpetuação de ideias e atitudes das quais discordo terminantemente.

Fazendo um apanhado histórico da minha própria vida, me lembro de que pensava em ser mãe quando era adolescente e estava deslumbrada com os primeiros namoradinhos. Sabe aquela fala totalmente sem profundidade e reflexão? “Nossos filhos vão ser inteligentes como eu e jogar bola como você. Vão se chamar Valentina se for menina ou Enzo se for menino. Tomara que se pareçam com você. Teremos 2. Um casal”.

Pois é. Eu passei pela situação inversa à de boa parte das mulheres. Pensei — mais uma vez, sem profundidade nenhuma — em ter filhos quando muito nova e a cada ano envelhecido, queria menos. Diria que desde os 20 anos é uma certeza que se solidifica a cada aniversário — em vez de enfraquecer, como dizem por aí. Não tenho medo nenhum do tal relógio biológico.

Em tempo: com esse post não tenho a mínima pretensão em fazer apologia às pessoas não terem filhos. Se você for até o final e espero que vá, verá que eu faço apologia mesmo é para que as pessoas sempre possam escolher aquilo que lhes convém, baseadas em análises bem-feitas.

Escolha que te transforma em uma aberração

Para mim e meu marido a minha — a nossa — escolha de não ter filhos é apenas isso: uma escolha. Bem pensada, refletida, ponderada. Acordada entre nós. Mas quando colocamos isso em alto e bom som, as pessoas estranham. “Como assim?”. “Mas vocês não querem mesmo?”. “Vocês têm medo de alguma coisa?”. A pior de todas: “Quem vai cuidar de você quando ficar velha?”. Como se fosse bonito parir um ser teoricamente obrigado a cuidar de mim nos meus últimos dias. Ok, vou parar de colocar as perguntas que chegam porque não quero estender esse texto desnecessariamente. São muitas, pode acreditar.

Pior ainda é quando sou eu quem afirma que não seremos pais. Porque eu sou mulher e uma mulher que não é mãe é metade mulher no entendimento da sociedade. É como se o tempo inteiro houvesse algo de errado comigo. Como se eu fosse extremamente egoísta ou louca por não querer padecer no paraíso.

Egoísmo na medida do autocuidado

Vou te contar uma coisa: na minha decisão tem egoísmo sim e mais um monte de coisa. Egoísmo na medida em que ele significa autocuidado. Por que vou me colocar em uma experiência que sei que não é o que eu quero? Só porque os outros querem que eu faça isso? Puta merda!

Os supostos avós, bisavós e tios dessa criança que não existe até seriam impactados pelo nascimento dela. Mas nunca, jamais, como os pais seriam! Egoísta de verdade para mim é alguém que quer que o outro tenha filho. Aquela pessoa que vai ter acesso à parte boa e divertida de ter uma nova criança na vida, mas que não vai comer o pão que o diabo amassou. Para mim, só opina de verdade quem vai passar noite em claro, pagar por todas as despesas, preocupar-se com a saúde e educação do moleque.

“Você não sabe o que está perdendo!” — ainda bem!

Esse é um argumento que sempre aparece partindo de pessoas que geraram outro ser vivo. Não me convence e eu vou explicar o porquê. Sim, essas pessoas estão cobertas de razão quando falam que não tem como eu saber como é uma experiência se não a vivi. Não tem mesmo, gente! Mas tem como imaginar e decidir sobre ela sem vivenciar.

Nós temos um cérebro extremamente evoluído que nos permite aprender coisas por imitação (observar um modelo e imitar), modelação (receber um modelo de alguém e fazer igual), regras (descrições do que deve ou não ser feito), vivências por si mesmas e com formulações baseadas em experiências (reflexões sobre o que já aconteceu ou ponderações do que poderia acontecer). Diferentemente de outros animais, nós temos função simbólica. Conseguimos pensar, falar, imaginar. Coisa que outros animais não fazem. Somos diferentes deles porque temos a capacidade de viver uma vida muito menos instintiva e muito mais ponderada. Muito mais escolhida.

E como foi que eu entendi que não queria ser mãe?

Mesmo nunca tendo sido mãe, eu sei que: não gosto de ser interrompida por coisas que não escolhi fazer, não lido bem com crianças e nem tenho interesse em aprender, tenho nojo de fraldas, não gosto de ninguém dependendo de mim, liberdade é a coisa mais importante da minha vida, me sinto péssima quando tenho que abrir mão de algo porque fui forçada a fazê-lo, dormir bem também está no topo das minhas prioridades, gosto de gastar meu dinheiro com coisas particulares, ficar sem dinheiro afeta minha saúde mental, não tenho horário para chegar em casa do trabalho, o tempo que estou em casa é ocupado por várias coisas pré-definidas por mim.

Não-cabe-uma-criança-na-minha-vida. E sabe o que é mais importante? Eu não tenho interesse algum em fazer caber. Porque eu não preciso. Porque eu não quero. Porque quero viver a experiência que o pai ou a mãe não viveram e nunca viverão: ser uma adulta e posteriormente uma idosa sem filhos. O que me coloca na mesma posição que eles: também posso dizer que vocês não sabem o que estão perdendo!

Eu ainda farei um texto sobre escolhas de uma forma mais ampla e abordarei com mais detalhes isso para vocês. Não sabermos o que estamos perdendo é um baita favor que nosso querido cérebro nos faz. Afinal de contas, em uma vida média de ser humano, você acha que em uns 85 anos seria possível viver todo tipo de experiências? Lógico que não! A gente precisa escolher e para escolher precisamos de autoconhecimento. Isso aumenta demais a chance de acerto. E, convenhamos: também precisamos dessensibilizar esse medo todo de errar.

Experiências pessoais são apenas experiências pessoais

Nessa jornada da decisão de dizer não à maternidade, me deparo com pessoas que são:

  • Mães/pais e contraindicam;
  • Mães/pais e acham a coisa mais maravilhosa do mundo;
  • Não são mães/pais e querem ser;
  • Não são mães/pais, querem ser e não podem biologicamente;
  • Não são mães/pais e não querem ser;
  • Não são mães/pais e têm dúvidas.

Falar sobre a diferença entre uma mulher dizer que não quer ser mãe e um homem dizer que não quer ser pai, dá outro post inteiro. A mulher geralmente é vista como uma monstra insensível, menos mulher. O homem no máximo vai ser só um cara irresponsável.

Mas o que eu realmente quero dizer, com base na lista que fiz acima, é que as pessoas têm experiências muito diversas. A minha e a sua também são. Ninguém consegue repetir de forma idêntica a experiência de ninguém, seja boa ou ruim. Nós podemos identificar nas vivências dos outros aquilo que nos toca de alguma forma, comparar com o nosso arcabouço de experiências e daí tirar conclusões. Por isso falo sobre o autoconhecimento ser tão importante.

Vou dar alguns exemplos. Se dependesse de mim, acho que todo mundo devia viajar o mundo inteiro, ser profissional autônomo, não trabalhar na parte da manhã, comer o que quiser quando sentir vontade sem se preocupar com tamanho de corpo, fazer tatuagens e ter um tanto de cachorros. Todas essas coisas funcionam extremamente bem na minha vida e me fazem feliz.

Agora vou dar outros exemplos que são igualmente ilustrativos. Coisas que eu não gosto ou pouco me importam e muita gente gosta: praia, calor, ter um carro, casa própria, emprego público, sair sexta à noite, tomar cerveja, vestir roupa de marca, sertanejo universitário, ter uma religião/crer em deus. Não só vivo bem sem essas coisas, como prefiro viver assim.

Tá vendo? Nós podemos ser diferentes e todo mundo sair feliz.

A escolha de uma pessoa não é da alçada de mais ninguém

Eu penso que já deixei claro ao longo da nossa conversa que não precisamos viver de tudo para tirarmos conclusões. Com base em algumas experiências, fazemos associações que nos permitem vislumbrar como seriam outras. A partir daí, geramos um entendimento sobre querer ou não enveredar por algumas decisões.

Eu nunca usei drogas alucinógenas, porque tenho uma ideia dos efeitos e não estou disposta a perder o controle para vivenciar uma euforia plástica. Nunca fiz esportes radicais, mas como sou medrosa e não gosto de sentir dor, não pretendo me lançar de um paredão pendurada por uma corda e equipamentos de segurança. E olha só, nunca fui mãe, mas não preciso ser para saber que não quero abrir mão de noites de sono, ter uma preocupação para a vida toda, modificar todo o esquema da minha vida, viver com menos dinheiro. E vale apontar: não estou dizendo que ser mãe não tenha partes boas, acredito piamente que sim. Eu só não acho que valha a pena na minha história.

Ao começar esse texto, joguei algumas ideias no Google. Descobri que há blogs e grupos sobre mulheres que odeiam ser mães. Eu tenho certeza absoluta que me tornaria essa pessoa: a que ama o filho (se instinto materno existir mesmo), mas odeia ser mãe. Por isso, eu peço a você leitor ou leitora que me conhece: não me deseje uma coisa que eu não quero. Porque isso é me desejar mal, por mais que a sua experiência como mãe/pai seja gloriosa. Ou não, né? E peço que vocês todos respeitem as pessoas ao redor nas decisões particulares delas. Se você realmente acha que estou equivocada em minha escolha, já dizia um grande amigo: “o pé é meu e a jaca é minha!”.

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Reflexão

De onde vem a bondade humana?

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Recentemente comecei a seguir um perfil de boas notícias e ações, o Razões Para Acreditar. Nele você encontra desde postagens bem fofinhas até histórias de superação e de empatia. Com tanta notícia ruim rodando o país e o mundo, achar esse perfil foi um alívio.

Confesso que na maioria das postagens, sempre me emociono e penso que o mundo ainda tem solução. Cheguei à conclusão de que grande parte das pessoas está cercada de tanta tensão, pessimismo, egoísmo e conformidade (não vou ser hipócrita de não me incluir nessa, lembra do Tsunami que Nunca vai Chegar?), que foi preciso uma página com a exposição de gentileza e notícias boas para valorizar — e por que não propagar? — boas ações atualmente. A partir daí, eu comecei a me questionar: de onde vem a bondade humana.

Cultural?

É claro que nunca existiu uma época em que as pessoas viviam despreocupadas e praticando o bem para todos. Acho que é natural do ser humano pensar no seu instinto de sobrevivência em primeiro lugar no final das contas. O autor Robert Winston, em seu livro “Instinto Humano”, examina a partir de nossos ancestrais, instintos humanos como os de sobrevivência, busca por conhecimento, desejo sexual, competição, agressão e altruísmo.

De acordo com o autor, instinto é a parte do nosso comportamento que não é fruto de aprendizado. Porém, nosso ambiente e nosso aprendizado têm grande influência no modo pelo qual nossos instintos se expressam, ou seja, o desenvolvimento da natureza humana depende das pessoas e da cultura à nossa volta.

Em nosso desenvolvimento, aprendemos a fazer uso de ferramentas, descobrimos o fogo e seus usos, exploramos o mundo que habitamos. A partir daí, começamos a conversar uns com os outros e a viver em grupos. Por isso, relações de cooperação e familiaridade possibilitaram a formação de grupos maiores e o aumento da divisão de trabalho nos permitiu criar raízes, construir civilizações e ter uma vida cultural ativa. A bondade, ao que parece, é a vontade de preservar o bem-estar do grupo e preservar a nossa sobrevivência em sociedade.

Biológico?

Para além do viés antropológico, uma pesquisa da Universidade de Oregon, citada em uma reportagem do jornal New York Times, evidencia que a oxitocina está por trás dos dois pilares emocionais da civilização: empatia e confiança.

Na pesquisa, cientistas descobriram que diferenças genéticas na capacidade de resposta das pessoas aos efeitos da oxitocina estavam ligadas à sua habilidade de “ler” rostos, deduzir as emoções dos outros, sofrer com as dificuldades alheias e até a se identificar com personagens de um romance ou revista em quadrinhos, o que prova que a bondade humana também tem causas biológicas.

A bondade de cada um

Seja pela definição antropológica ou biológica, a bondade é sentimento intrínseco ao ser humano. Com a exceção, claro, de pessoas que sofrem de certos transtornos psicológicos — mas isso é um assunto para outra ocasião.

Para mim, a bondade está muito interligada à empatia. Eu posso me gabar e dizer que procuro sempre me colocar no lugar do outro. Porém, como tudo na vida, nada é tão simples como parece: ser bondoso tem também suas dores.

O problema é que, além de você se colocar no lugar do outro, é necessário ser forte o suficiente para entender e superar o fato de que nem todos, e arrisco dizer que a maioria, terá a mesma sensibilidade de colocar-se no seu lugar também.

E acho que aí se encontra o lado interessante da bondade. Ter essa força, mas se respeitando no processo. E você? De onde vem a sua bondade? Ou o que é bondade na sua concepção?

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Reflexão

Vamos ligar o seu fofa-se?

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Olá! Você acabou de chegar e eu já vou te sugerir uma pequena pausa antes de seguir comigo para as próximas linhas. Pensa um pouquinho aí e volta logo: quais são os pesos da sua vida?

… (já pensou?)

Pronto? Então vem comigo, jovem, vamos conversar.

Somos sobrecarregados por nós mesmos e/ou pelos outros o tempo todo. Afazeres, obrigações, prazos, boletos, desejos, vontades, expectativas próprias ou alheias. Não bastasse “o que”, jogamos peso sobre nossa cabeça com o “como”. Basicamente, seria algo assim: “aquilo que eu fiz do jeito que fiz — ou o que eu pretendo fazer — será que está uma merd*? Será que eu deveria ter feito melhor? Será que as pessoas estão pensando algo negativo sobre mim por isso? Será que eu deveria ter esperado mais para fazer?Será? Será? Será?”. Eu chamo isso de ruminação.

Vamos colocar os pingos nos is. Não estou querendo dizer que não podemos ou não devemos pensar sobre as nossas ações. Porque feliz é aquele que tem uma boa capacidade de análise!

Análise X Ruminação

Penso que é importante fazermos essa diferenciação para seguirmos alinhados, falando e entendendo sobre a mesma coisa. Até porque em alguns casos a diferença pode ser sutil. Veja as definições de analisar e ruminar (sentido figurado) no Dicionário Michaelis.

Analisar se refere a decompor em partes, investigar, examinar minuciosamente (com detalhes, com cuidado), ponderar. Já o sentido figurado de ruminar se refere a pensar exaustivamente (com cansaço intenso) em um assunto.

Assim, quem analisa algo tira suas conclusões e segue a vida. Em situações futuras, resgata as conclusões dessa análise e pratica a geração de novas conclusões, atualizadas para resolverem as questões atuais.

Quem rumina, não sai do lugar. Sofre e re-sofre com o mesmo assunto, sem achar saída. Não parece muito útil, certo?

Então como combater as ruminações?

Aqui entra o que eu carinhosamente chamo de ligar o fofa-se. Mas o que é isso, Débora?

É sobre se respeitar, ter carinho consigo mesmo, entender os seus limites e os dos outros. Ser uma pessoa fofa — para si em primeiro lugar. Na teoria é algo simples de entender, na prática é um trabalho cumulativo que às vezes a gente esquece. Nós vamos detalhar mais essas ideias daqui a pouco.

A importância do porquê

Vamos voltar a uma coisa que eu disse lá no início: somos sobrecarregados por nós mesmos e/ou pelos outros o tempo todo. Você já se preocupa demais com o que tem que fazer e com o como. Mas cadê o porquê? Simon Sinek, palestrante e consultor organizacional britânico-americano, fala a respeito da importância de começar pelo porquê (recomendo o vídeo da participação dele no TED) em seu livro.

O que absorvi sobre as ideias do autor é que quando você se pergunta por que quer ou precisa fazer cada atividade, você sai do automático e dá sentido às suas ações. No caso de negócios, que Sinek analisa, você se conecta com os seus clientes se entende o porquê da existência da sua empresa, produto ou solução. Tem algo mais importante do que fazer com propósito?

E quanto mais particular é o seu propósito, melhor. Assim você realiza verdadeiramente os seus desejos e não o que os outros querem para você ou, pior ainda, o que você acha que os outros querem para você.

Ligando definitivamente o fofa-se

Lembra quando eu te perguntei quais são os pesos da sua vida? Vamos retomar essa ideia agora. O que você se fala por causa desses pesos?

… (pensa aí de novo, eu espero.)

Seriam coisas como:

  • eu sou um burro
  • eu não devia ter feito isso
  • eu não devia ter feito assim
  • eu sou inútil
  • eu não consigo
  • eu não posso fazer
  • eu não sou capaz
  • eu não tenho sorte
  • ninguém se importa
  • eu não sou bom em nada
  • eu não ___________ o suficiente?

Agora imagine que um grande amigo ou amiga, por quem você tem um imenso carinho e cuidado, está passando por uma dificuldade semelhante às que você mesmo descreveu quando te fiz a pergunta. O que você fala para essa pessoa a respeito dos pesos dela?

Te peguei, hein?

Aposto que você é muito mais comedido e tranquilo ao lidar com as dificuldades das pessoas próximas por quem você tem carinho. Ou seja, está faltando um olhar carinhoso direcionado a si mesmo.

Eu vou insistir com você: tenha autocuidado. Sabe por que insisto? Porque também me esqueço às vezes, mas sempre que me lembro de agir assim, agradeço a mim mesma profundamente.

Ame-se. Aprecie a sua existência. Respeite-se. Conheça-se. Se você pode ser uma pessoa super legal para o seu amigo passando por dificuldades, você pode e deve ser essa pessoa por você também.

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Reflexão

O tsunami que nunca vai chegar

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Para mim, escrever é um parto. Você fica naquela ansiedade de pensar em um tema que seja interessante para você e para o leitor, em como deixar a sua escrita clara e objetiva e, é claro, fica atento à gramática, pois não quer que o seu texto esteja repleto de erros. O fato de juntar as palavras em algo que faça sentido não é simples.

Este texto que você está lendo, por exemplo. Demorei bastante para começar a escrevê-lo. Fiquei dias na dúvida sobre o que escrever. Procrastinava pensando em coisas como “o que eu vou escrever?” ou “eu nem sei escrever direito!”. Pois bem, eis que um dia depois de muito protelar, me sento em frente ao computador.

Começo a digitar, mas paro para pensar que vai ser difícil, porque sempre chega um momento da escrita em que não sei mais que caminho seguir. Fico impaciente. Coço o olho, o rosto, os braços. Frustrada, decido fazer outra coisa que não seja enfrentar a dificuldade de raciocinar sobre o que escrever em seguida. Meia hora depois eu volto, porque existe um prazo para entregar e não posso demorar mais. Em seguida eu penso que, de qualquer jeito, o texto vai ficar horrível mesmo e ninguém vai gostar. “Por que eu vou insistir? Vou acabar é baixando a qualidade de conteúdo do blog que mal começou”.

O mal-estar é tanto que continuar chega a ser doloroso. Ao mesmo tempo em que quero terminar logo como num passe de mágica, sei que para chegar ao meu objetivo eu preciso simplesmente sentar e escrever. Não tem outro caminho a não ser passar pelo processo. Esse turbilhão de pensamentos e incertezas na escrita de um texto despretensioso é só mais um dos infinitos exemplos de como a ansiedade exacerbada funciona de um jeito maluco nas pessoas.

Vivendo do Futuro

A ansiedade provoca sentimentos que te aceleram ao ponto de te paralisar. Algo que é bem estranho, se você parar para pensar. Mas isso tem uma explicação biológica.

De acordo com essa reportagem do Huffpost, um estudo da revista Current Biology afirma que ansiosos percebem o mundo de uma maneira diferente de outras pessoas que não sofrem do distúrbio, devido a variações no cérebro.

O cérebro tem a capacidade de se reorganizar e formar novas conexões que ditam como a pessoa responde a estímulos. As pessoas que sofrem de ansiedade têm um estímulo mais duradouro depois de uma experiência emocional. Isso significa que as pessoas ansiosas tendem a generalizar demais as experiências emocionais, sejam elas ameaçadoras ou não.

Por isso, nós ansiosos temos uma espécie de mecanismo de antecipação do futuro, uma forma de nos protegermos de um provável grande problema. Temos a tendência de sempre esperar pelo pior cenário. Como um tsunami. Mas a questão é que ele nunca chega. É o nosso inferno particular.

Voltando para o presente

Por causa da ansiedade já perdi amigos, já perdi empregos e já perdi inúmeras oportunidades. A questão é enfrentar o leão de cada dia. Nem sempre dá certo, é claro. Muitas vezes você chuta o balde, as pessoas não têm empatia e você se torna um Jimmy-Bolha da vida real.

Se você sofre dessa síndrome, saiba que você precisa de ajuda. E tudo bem. Existem inúmeras alternativas que auxiliam a lidar com a ansiedade, como terapia, remédios, exercícios físicos, hobbies etc. O importante é que você dê o primeiro passo para buscar uma vida melhor e com mais qualidade. Eu estou tentando, afinal você está aqui lendo o final desse texto, não é mesmo?

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Reflexão

Ostra feliz não faz pérola

desenvolvimento pessoal

Recentemente tive uma conversa com meu marido e duas amigas sobre desenvolvimento pessoal/profissional. Ficamos refletindo por um tempo sobre como “ostra feliz não faz pérola”, como já dizia Rubem Alves.

Sou psicóloga e lido diariamente com os desconfortos dos clientes. Os percalços às vezes emperram, mas em muitas outras empurram o desenvolvimento das pessoas. Vamos esclarecer isso um pouco mais nas próximas linhas!

Qual é o questionamento que te impulsiona mais longe?

Uma das pessoas que atendo me enviou um texto sobre o tipo de perguntas que devemos nos fazer para impulsionar nosso autodesenvolvimento. O ponto principal defendido pelo autor é que nos perguntarmos o que queremos é uma pergunta “fácil”. Há uma pergunta muito mais importante a ser feita e que traz mais informações. Poderia ser resumida em algo como: “qual é a dor que estou disposto(a) a enfrentar para conseguir o que eu quero?”.

O desequilíbrio é inerente ao desenvolvimento

Na ideia de melhoria ou desenvolvimento está embutido que algo não está perfeito, que está incompleto. Não melhoramos aspectos que estejam incríveis, acabados. A sorte agridoce é que nós, seres humanos, somos insatisfeitos crônicos com a vida e temos essa capacidade de sempre vermos um ponto que pode ser aprimorado. Isso pode travar as pessoas com autoconfiança muito baixa para testarem e se exporem às novas propostas que se fazem, por isso o processo para elas demora um pouco mais. Mas para quem está no caminho de se sentir seguro consigo mesmo, é o que impulsiona o autodesenvolvimento.

Sejamos práticos: se está tudo muito bem, obrigado, por que mexer em time que está ganhando? Cortamos caminho, tomamos atalhos, gastamos menos tempo com o que está dando certo.

Se você quer se desenvolver de alguma forma, primeiro precisa entender o porquê. Quais dores você tem hoje que te motivam a pensar nessa necessidade de dar o próximo passo ou mudar a rota? Quais dores você tem disponibilidade para enfrentar nessa jornada? Mudanças, mesmo que para melhor, geram necessidade de adaptação, o que por sua vez pressupõe a existência de um desequilíbrio temporário. Quando estamos em processo de mudança, deixamos de ter o controle parcial e conhecido que tínhamos sobre a situação anterior. Mergulhamos no universo desconhecido das possibilidades que ainda não testamos.

Então me diz: quais desequilíbrios você topa enfrentar para chegar ao seu próximo ponto de equilíbrio? O que isso vai te custar e, ao mesmo tempo, o que te trará como recompensas?

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