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Crônica

De quando não salvei uma amiga

Ontem à noite sonhei sobre quando eu e a Débora vimos uma cadelinha perdida e aterrorizada na rua, tempos atrás, enquanto despedíamos de minha mãe depois de uma visita. Pois é, não salvei uma amiga.

Mal esperei Glorinha entrar no carro e atravessei a Augusto de Lima pra sabe-se lá o quê. “Tá. Eu pego a cachorrinha, e aí?”. A coitada estava desesperada, era passar um ônibus guinchando que ela tremia toda. Rabinho entre as pernas, talvez ceguinha de um olho, coleira. Parecia ter dono. “Vem cá, vem cá”, mas ela não parava quieta. Desconfiou de mim por uma hora inteira. Rodou quarteirões comigo em seu encalço, me mordeu numa das várias agachadas de aproximação e tentativa de carinho. Ela estava desesperada.

Débora trouxe uma coleira de casa, conseguiu um pedaço de linguiça calabresa num bar, um tiozão tentou ajudar com um pão velho. Mas nada da bichinha parar. “Vem cá, pequena. Vem cá, filha-da-puta, cê vai morrer se atravessar a avenida de novo”, mas nada dela parar. Tava morrendo de medo, cheirando tudo quanto é canto pra achar o caminho de sei lá onde. Assustava com todo mundo que passava perto. Aí não deu mais, correu e aumentou a distância.

E eu lá, parado. Coleira sem cachorro na mão, short de pijama e camisa de flanela quadriculada, cabelo despenteado e chinelos. Belo look de salvamento sem sucesso. As luzes dos carros dando um efeito chato nas passadas que a cadelinha dava enquanto ia embora.

E eu lá, triste pra caralho.

Em tempo: Adote um amigo.

Tags : amizadecão adotecotidianocrônicareflexão

The author Marcos Marciano

Marcos Marciano é um ser humano amador. Formou-se em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais, lê livros por esporte e escreve por falta de vergonha na cara. Ainda não sabe por que a Débora resolveu se casar com ele.