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Crônica

Estamos na merda

Estamos na merda? Estamos na merda. Mas cê olha pela janela e a vida continua. O sol nasce, o ônibus passa e as padarias mantêm o cronograma do pão. Quando estudava história no ensino médio, tinha uma outra visão sobre tempos de crise política e econômica. Talvez fosse o tom dos autores. Meio que todo mundo receoso em suas casas, ruas vazias, sinais de televisão cortados. Não é assim. Só se fode de verdade quem já é fodido. Caminhar pela cidade de Belo Horizonte à noite dá a letra: centenas de malocas, tendas sujas e pessoas que chafurdam lixo lá dentro. Miseráveis que só aumentam a cada dia. Crise política e econômica, então, significa que quem já era fodido vai se foder mais ainda.

Dias atrás, uma quinta-feira braba, resolvi chamar um carro pelo aplicativo de carona ao final do expediente para caçar o rumo de casa. O motorista estava tão mal quanto eu. Tossíamos seco e conversávamos. Fiquei surpreso quando ele me falou qual era sua ocupação principal. É comum que o pessoal use o aplicativo como complemento de renda, no entanto não esperava encontrar um professor dirigindo. E encontrei. De história. Vinte e cinco anos de sala de aula, principalmente em Contagem com a galera de baixa renda. Teve algumas experiências em colégios particulares de Belo Horizonte também. E me falou que:

se eu quisesse saber qual a diferença entre os alunos de uma escola pública na periferia para os alunos do colégio caro da zona sul, ele tenderia a dizer que é nenhuma. Porque tem gente brilhante e pífia em todo canto. Só que a chance do brilhante da periferia estar atrás do pífio da zona sul depois de ambos formados é incômoda.

Educação é o caminho

Mais do mesmo, né? Bem lacradora a fala dele. Ou bem esquerdopata, dependendo da canalização das suas paixões.

Mas acho razoável que, apesar dos discursos apaixonados e textões de Facebook, haja um consenso sobre esse abismo separando brasileiros. E antes que a paixão tome conta, vale dizer que nenhum dos lados — simplifique para esquerda e direita se preferir —, nenhum dos lados, repito, quando no poder em municípios ou estados ou na esfera federal, arregaçou as mangas e afirmou:

Vou revolucionar essa porra de educação.

Estamos na merda. Depois dos últimos anos maniqueístas, depois de caminhar nas ruas lotadas de miseráveis, depois da corrida com o professor e de FHC/Lula/Dilma/Temer/Bolsonaro, decidi que:

Só ganha meu voto em 2020 e em 2022 quem estiver loucamente comprometido com um projeto de cidade, estado e país onde a educação seja o carro chefe dessa birosca.

Mas é LOUCAMENTE comprometido

Tags : brasilcrônicaeducaçãopolíticasociedadetrabalho
Marcos Marciano

The author Marcos Marciano

Marcos Marciano é um ser humano amador. Formou-se em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais, lê livros por esporte e escreve por falta de vergonha na cara. Ainda não sabe por que a Débora resolveu se casar com ele.