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Conto

Gafanhotos

Há um ano Alain Delon se transformou no genro que nunca tive, e agora minha filha não existe mais. Só pude ver que trocaram os desenhos de gafanhotos na porta do bistrô depois que Anne-Marie entrou. Foi ao banheiro. Vai voltar. Eu quero sumir. As vidraças e portas do Sauterelle sempre estiveram cheias dos mais variados gafanhotos. Verdes, imensos, negros, medonhos. Alguns não eram gafanhotos de acordo com Anne-Marie. É o tipo de coisa que ela sabe, a Anne-Marie. “Grilo, outro grilo, e aquele é um besouro”. No lugar dos desenhos na porta de vidro colocaram um cartaz do último filme do Delon. Anne-Marie foi ao banheiro. Vai voltar. Eu quero sumir.

As cadeiras de vime são novas, outra ideia mirabolante de Pierre. Não estavam aqui das últimas vezes. Muito educado, o Pierre. Ele não pergunta mais como Anne-Marie está ou se ainda vamos ao hospital. Já se acostumou com nossas visitas ao Sauterelle e hoje nos convidou a experimentar um queijo de cabra ao molho de tomate. Neguei, tentei ser afável. Gosto do rapaz, ele gosta da Anne-Marie. Eu quero sumir. Não caibo nessa cadeira, ou talvez ela não combine com a calçada. Anne-Marie deve fazer a crítica, ou está fazendo nesse exato momento. Estico o pescoço para olhar lá dentro e não vejo ninguém no balcão. Pierre escreve poesias a giz por toda a pedra do balcão. Faz desenhos de gafanhotos também. Se eu esticar o pescoço para o outro lado, lá para cima da rua, consigo ver a chaminé de tijolos vermelhos do nosso prédio. Descemos dois quarteirões e meio até aqui, eu e Anne-Marie. Se descermos mais quatro chegamos ao hospital. Hoje é terça-feira, dia de ver a mãe de Anne-Marie, assim como nas quintas, no entanto ela prefere passar às terças por causa da poesia de Pierre. “Sempre há uma poesia nova às terças-feiras”, diz Anne-Marie, mas acho que o bordalês apenas reescreve as mesmas palavras todas as semanas com cores de giz diferentes. Havia um erro crasso na semana passada no último verso. Eu quero sumir, eu quero chutar as cadeiras e sumir.

Anne-Marie voltou. Há mais clientes no bistrô. Ela está com um casaco muito grande e um chapéu Lyon azul-piscina. Creio que são de sua mãe. Temos os mesmos queixos e olhos, os três, mas Anne-Marie sempre quer mais. Esticava minhas bochechas outro dia, apertava meus lábios e se olhava no espelho. “Somos muito parecidos, vovô, mas vou ficar bonita como minha mãe”. Eu quero sumir. Pierre traz duas taças iguais e coloca sobre nossa mesa. Anne-Marie troca as taças e o rapaz ri. Diz que a menina já tinha feito o pedido. “Sauvignon para o vovô e água tônica para mim”. Tento um gracejo também, mas vejo o mensageiro descendo a rua com a bicicleta. Pierre voltou para dentro do Sauterelle para buscar as bebidas. O menino na bicicleta desce a ladeira com um sorriso no rosto, guia com a displicência de quem tem uma bolsa vazia e volta para casa ou para o inferno. Pela manhã parou sisudo no vestíbulo de nosso prédio, cheio de pacotes e envelopes, para me entregar a carta do hospital. Eu quero sumir. Pierre voltou e nem percebi, está servindo o vinho em minha taça. Anne-Marie olha para o grupo de mocinhas aos cochichos que apontam os dedos para o nome de Alain Delon no cartaz. O mensageiro sumiu na curva depois de um carro parado.

Todos os programas de rádio começaram a falar de Alain Delon depois de formar o par romântico com Romy Schneider em Christine. Dizer que eram todos os programas pode ser um pouco de exagero. Mas minha filha, naquela idade, cogitou se casar outra vez se porventura o galã de olhos claros e uniforme militar batesse em nossa porta. Anne-Marie conseguiu uma foto autografada e deu para a mãe. Brincavam sobre qual das duas Delon escolheria. Eu quero sumir. O mensageiro bateu em nossa porta pela manhã, no entanto seus olhos eram escuros, muito escuros, e escuro como breu também era o capote que usava. Parecia um dos gafanhotos do Sauterelle, aquele mais odioso.

Anne-Marie olha para mim e balança a cabeça em reprovação quando minha mão direita procura o maço de cigarros. A carta do hospital está no mesmo bolso. Sua mãe tinha o mesmo ar de reprimenda. Eu quero sumir. Quero que Anne-Marie vá ter com Pierre para que eu possa ir atrás do gafanhoto na bicicleta e espancá-lo, dizer que é mentira, que hoje é terça-feira e temos que vê-la. As mocinhas do Alain Delon também estão fumando e minha neta enche sua taça com mais água tônica. “Não podemos nos atrasar, vovô”. Anne-Marie é minha filha por um instante e eu quero sumir. Como é possível tanta pressa para viver enquanto ainda posso ver a outra dando beijos em uma foto autografada? Pierre coloca uma música no rádio e assusta as tietes com um gesto exagerado de boas-vindas. Muito educado, o Pierre. Gosto do rapaz, mas ela poderia mudar o nome do estabelecimento.

As sombras dos postes já começam a esticar e Anne-Marie está impaciente. Pierre recolhe nossas taças e pergunta se não quero mesmo provar o queijo de cabra. O rapaz tem um sorriso amável, o rosto liso e um penteado impecável. É perfumado também. Ele pergunta outra vez sobre o queijo, diz que é maravilhoso e me puxa pelo braço. É muito educado, o Pierre. Agora vejo que seus olhos são claros e ficam mais claros porque está sorrindo enquanto passamos pela porta com o cartaz do filme. Eu quero sumir. Não sei onde está Anne-Marie. O erro absurdo no último verso continua lá no balcão e Pierre não para de falar sobre o molho de tomate que aprendeu com um tal chef em Bordeaux. Os desenhos e figuras de gafanhotos e grilos estão espalhados em uma mesa lateral, perto do pote de vidro com o giz. Quero sumir. Quando começo a rasgar os gafanhotos, Pierre corre até mim e grita alguma coisa que não entendo bem. Não sei onde está minha filha. Digo que vou pagar, que posso pagar, que o dinheiro está no bolso da carta, contudo Pierre não parece entender uma palavra do que digo. Ele tem os olhos de Alain Delon.

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Marcos Marciano

The author Marcos Marciano

Marcos Marciano é um ser humano amador. Formou-se em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais, lê livros por esporte e escreve por falta de vergonha na cara. Ainda não sabe por que a Débora resolveu se casar com ele.