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Crônica

Por que tão cinzas vossos corações?

Quando criança, infelizmente, estraguei duas coisas que meu pai gostava muito: um vinil do Queen, acho que de um show ao vivo, e um pequeno quadro decorativo, daqueles com vidro e areia dentro e que dão altos efeitos legais. Eu menti para ele sobre ambos os estragos.

O vinil estraguei ao fingir que ele era um carrinho de brinquedo. Arrastei, arranhei e arrebentei de modo que Freddie Mercury nunca soou tão absurdo. O quadro, bem, o quadro eu deixei cair dentro da privada. Não sei como. Só tenho acesso à memória do vidro partido lá dentro — a rachadura tal qual o sorriso do demônio — e sem tocar a água. Repito e acrescento: menti sobre ambos os casos dizendo que não fiz nada.

Meu pai não engoliu nenhuma das duas mentiras, claro. Eu não tinha mais do que três anos quando esganicei Freddie. Devia ter uns cinco quando do episódio da privada. Com certeza devo ter achado que era um garoto super sagaz, muito além das capacidades de uma criança da minha idade. Talvez por isso eu também tenha mentido sobre o suco de laranja — joguei fora o meu, entreguei o copo vazio ao meu irmão, peguei seu copo ainda cheio e disse para minha mãe que ele é quem tinha regado o jardim com laranja. Por quê? Não sei. Ou quando num final de tarde mordi meu próprio braço e disse para nossa progenitora que ele, meu irmão outra vez, acabara de cravar os dentes em mim. Só que eu vinha do quarto e meu irmão estava entrando na cozinha pela porta que dava para o quintal naquele exatíssimo momento. Fui pego. “Você não me engana, Marcos Augusto”, foi a fala dela antes do couro comer solto e das labaredas dançarem ao som de monstros cantando.

Mentiras. Acobertamentos. Enganações. Deixando de lado qualquer tipo de questionamento sobre meu comportamento doentio e/ou perverso — sem reabrir inquéritos sobre pintinhos que eu talvez tenha afogado —, falemos brevemente sobre a última vez que escutei um “você não me engana” e que labaredas dançaram. Na verdade foi um “ele não me engana” e minha mãe não teve nada a ver com o caso, mas o coral de monstros continua sendo muito válido para a situação.

Digamos que eu estava almoçando e que alguém tenha sugerido que um terceiro alheio à conversa tenha se envolvido com uma menina. Digamos que esse envolvimento não tenha ido para frente e que algum tempo depois o tal terceiro tenha começado a namorar com um rapaz. Digamos que o fulaninho que trouxe à tona o assunto tenha fechado sua fala com aquele sorriso, misto de orgulho e escárnio, tão recorrente na boca daqueles que têm o discurso dominante ao seu lado, acompanhado de um “aquele lá, aquele lá não me engana, nunca me enganou”. Voilà: Labaredas bailarinas, coral monstruoso.

Por onde começar?

Pelo básico. Homossexuais não devem nada a ninguém para ouvirem esse tipo de coisa. Não é como se estivessem sempre à espreita, escondidos em esquinas escuras e se preparando para pular na frente de incautos heterossexuais para gritar um SOU GAY e em seguida caírem na gargalhada. Por favor, baixe a guarda. Se eles mentem, dissimulam ou fogem é por medo, e não por te deverem alguma satisfação. E há um gigantesco leque de medos: o de não ser aceito pelos pais, amigos ou colegas de trabalho. O de perder oportunidades. O de perder pais, amigos e colegas de trabalho. O de perder o trabalho. O de perder alguns dentes, um olho, quem sabe um pênis. O de perder uns dentes, um olho ou quem sabe um pênis para seus pais, amigos e colegas de trabalho. Não é exagero. Isso acontece. Há sim o medo de apanhar dos pais, dos amigos ou dos colegas de trabalho. Há o medo do estupro corretivo, há o medo do estupro-já-que-você-gosta-de-homem-então-toma. Sem contar o medo dos desconhecidos na rua e suas lanternas e rituais de purificação. Medos desse tipo são ótimas razões para tentar te enganar, não?

Eu poderia ficar horas apontando absurdos, mencionar um monte de casos, expor razões para combater a homofobia, fazer links entre as piadinhas e os jovens com braços quebrados, a boca cheia de papéis com discurso de ódio, mortos na sarjeta. No entanto voltarei a falar sobre as duas coisas que meu pai gostava bastante e acabei estragando e mentindo sobre:

Freddie Mercury acabou sendo um divisor de águas em minha vida, pois me forçou a mentir pela primeira vez (exagero, não sei, duvido) e porque foi o primeiro exemplar humano que fugia do padrão heterossexual de que tomei conhecimento. Bombardeados como somos desde pequenos a entender o mundo feito apenas para meninos/meninas heterossexuais, eu devo ter execrado o ídolo do meu pai. Ainda bem que ninguém nasce homofóbico, ainda bem que dei um passo importante e saí do jogo ignorante, ainda bem que posso ajudar outras pessoas a dar o mesmo passo. Afinal de contas foi bom ter transformado o vinil em carrinho e consequentemente em objeto de discussões.

Ah, e o quadro quebrado. Eu gostava quando ocasionalmente um coração se formava naquele caos lento de areia cinzenta e água. Talvez antes de quebrar eu tenha visto um coração assim, ou tenha quebrado justamente por não ter visto. Vai saber. Hoje gosto de imaginar a vida como um coração — uma metáfora do que pulsa, da energia em transformação constante e que pulsa —, um coração que escorre cores aos litros e aos poucos. Só não curto mais um coração cinza. Em tempos de presidentes execráveis e homofóbicos, podemos perceber um certo desespero cinzento, rígido, angustiado, medroso e ressentido no ar. Medo do rosa e do azul e de seus efeitos sobre a sexualidade da criança. Medo do arco-íris, da purpurina. Medo de tudo aquilo que soe feminino demais ou masculino demais. Corações cinzas concretam a fluidez que há no carinho, no respeito, no que é de fato muito humano.

E para aqueles incautos e assustados, aqueles da maioria quase em guerra: baixem a guarda. Não há uma ditadura, não há paus-de-arara preparados para católicos, heterossexuais ou para aqueles que creem no fim da raça humana se por acaso pessoas do mesmo sexo puderem (e devem) se amar francamente. Baixem a guarda. Só há o convite para viver em um mundo onde há presunção de mais cores e humanidade.

Tags : crônicaforabolsonarohomofobiamúsicarelacionamentossociedade

The author Marcos Marciano

Marcos Marciano é um ser humano amador. Formou-se em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais, lê livros por esporte e escreve por falta de vergonha na cara. Ainda não sabe por que a Débora resolveu se casar com ele.