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Crônica

Pessoas de bem

Pessoas de bem, pois o inferno são os outros. Sempre os outros. Temos uma imensa facilidade para dar respostas muito estúpidas para problemas muito complicados. “Vagabundo tem é que morrer”, como se decidir quem morre e quem vive não fosse soberba demais. “Leva o vagabundo pra casa, então”, como tréplica a qualquer tentativa que fuja da solução final.

Podemos descer vários degraus, chegar aos contatozinhos diários. O inferno são os outros. Presumir que vão te deixar para baixo, então faz muito bem em se encouraçar, em gritar antes, em usar a ironia com o único objetivo de fazer doer. Ironia deveria sempre ser algo engraçado. Vai dizer que nunca chegou em casa e depois de tanto esforço, tanta notícia, tanto rosto sem sorriso, não sentiu falta de um pouco de suavidade em tudo? Em todos, aliás.

Não consigo evitar. Quando escrevi algo parecido com este texto pela primeira vez, falando sobre empatia e pessoas de bem, olhei muito tempo para a foto que a New Horizons, às bordas do nosso sistema solar, fez de Plutão. Fiquei olhando muito, mas muito tempo para a foto. Depois de uma longuíssima viagem de nove anos, a sonda mostrou que Plutão tem um imenso coração despedaçado.

Tags : crônicapessoaspessoas de bemplutãoreflexãorelacionamentosrespeito

The author Marcos Marciano

Marcos Marciano é um ser humano amador. Formou-se em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais, lê livros por esporte e escreve por falta de vergonha na cara. Ainda não sabe por que a Débora resolveu se casar com ele.