close
Conto

Quarentena na janela

Antes de qualquer coisa, eu não sou um depravado, um stalker qualquer, um maníaco sexual. Nada disso. Se consegui convencer meu reflexo no espelho do banheiro, creio que não será tarefa difícil fazer o mesmo com vocês. Mas, sim, tenho passado a quarentena em minha janela — nunca passei tanto tempo em uma —, pois vi a vizinha do prédio ao lado chorando com uma caixa de sabão em pó nas mãos.

De cara lhe atribuí um nome: Jéssica. Combinava com as alças da blusa que ela usava, as cores das estampas, as clavículas. Combinou também com a pergunta que me veio, Por que choras, Jéssica?, e eu fiz e refiz a pergunta várias e várias vezes naquele dia, o primeiro ou segundo da quarentena.

Estava revoltado, contando o número de carros dos imbecis que ainda insistem em furar a quarentena, revoltado com minha mãe que ameaçou cortar a internet se eu batesse panela outra vez na sacada de seu quarto, pois “naquele ali o título de eleitor” era dela. Então fui para o meu, para o meu quarto, para a minha janela, revoltado, sim, só que tudo deixou de ser importante — o vírus, a quarentena, Bolsonaro, minha mãe — quando perguntei Por que choras, Jéssica?

Já se vão vinte e um dias de confinamento. Se Jéssica bate panela, bate não da janela de sua área de serviço, mas deve bater em outra, deve sim. Eu tenho batido como desculpa para ficar aqui. Não que eu precise da desculpa, já que tenho lido aqui, assistido às aulas da faculdade daqui, comido aqui, ignorado minha mãe daqui. Bato panela contra o presidente e com a esperança de que Jéssica resolva bater também, para criarmos um vínculo, ou que decida lavar roupas de novo ou que ela tenha um filho pequeno e que esse filho dê as caras naquela janela e ela vá buscá-lo e me veja com a panela e sorria, pois Jéssica também deve bater panelas, deve sim. Mas só tive a infelicidade de ver o marido com ela, cara grande e tatuado, desses que você vê que já foi rato de academia e que agora relaxou. Desses com aquelas tatuagens tribais que cobrem todo o enorme braço. Tive a infelicidade de ver o marido, o enorme braço da tatuagem e a mão apalpando a bunda de uma Jéssica impassível.

Filho da puta.

Vejam, eu não sou um depravado. É uma preocupação real que nasceu, pois uma apertada de bunda daquelas deveria pressupor intimidade feliz — Por que choras, Jéssica? —, um convite à sacanagem, a uma rapidinha no banheiro dos fundos. No entanto ela parecia um boneco de cera. Em um momento estava concentrada no tanque, em não molhar a camisola de seda, daí veio o apertão, e em outro momento a cara de pré-choro toma conta.

Filho da puta.

Por que choras, Jéssica? Porque casou com um otário, porque ele não te entende, porque ele não te deixa bater panelas contra o “mito”, porque ele usa óculos escuros dentro de casa — por que eleitores de Bolsonaro do sexo masculino usam óculos escuros dentro de casa? —, porque ele te apalpa sem carinho, porque ele teve um caso com a colega de trabalho, porque ele sai de casa e fura a quarentena, porque ele sai de casa com o carro, fura a quarentena e faz lives no Instagram usando óculos escuro dentro do carro — por que eleitores do Bolsonaro tiram fotos e fazem vídeos usando óculos escuros dentro dos carros? —, porque ele bate no filho de vocês para incutir masculinidade. Me diz, Por que choras, Jéssica?

Vocês podem achar que eu exagero, que eu não deveria estar bisbilhotando a vida alheia, que aquilo ali foi reação incomum, quem sabe brigaram mais cedo ou o pai de algum conhecido morreu com suspeita de estar infectado com o coronavírus. Vocês podem dizer que eu estou paranoico, que daqui a pouco vou dizer que o filho da puta é um agressor, que nenhuma das respostas para a pergunta que move minha quarentena estão corretas. E eu digo a vocês que quem está há dias prestando atenção nos olhos dela sou eu, na quantidade de sabão em pó que ela coloca na máquina, no jeito que ela separa as calcinhas — só as calcinhas, vejam bem — para lavar à mão no tanque, sou eu quem presta atenção nisso tudo. Sou eu quem conseguiu encontrar o perfil do marido no Instagram e, sim, ele faz tudo o que eu disse ali em cima, ou quase tudo. Só óculos escuros, idiotices e nenhuma Jéssica. Nenhuma Jéssica no feed, nenhum perfil de Jéssica. Até isso ele deve proibir. Por que choras, Jéssica?

Larga ele. Vem bater panela comigo.

Tags : ciúmecorona vírusminicontoquarentenarelacionamentossexo
Marcos Marciano

The author Marcos Marciano

Marcos Marciano é um ser humano amador. Formou-se em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais, lê livros por esporte e escreve por falta de vergonha na cara. Ainda não sabe por que a Débora resolveu se casar com ele.