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Conto

Um Pedro

Pedro é alto, pardo e magro. Gosta de pensar que Kant, sim, Immanuel Kant, também era. Um professor lhe disse, há muito tempo, que os vizinhos do filósofo prussiano costumavam marcar o tempo em função dos momentos em que Kant passava sob suas janelas a caminho de casa ou para a universidade de Königsberg, tamanho era o seu rigor. Que exemplo, que homem deve ter sido, pensou o jovem Pedro à época.

Ele não caminha como Kant para o trabalho, mas sabe que o alívio no rosto daqueles estudantes significa o óbvio: se Pedro está no ponto de ônibus, ainda não são 7 da manhã. Os ônibus atrasam, Pedro não. Norma, sua esposa, acha que o marido é muito rígido, encarna a dureza do próprio nome. Diz que Pedro devia relaxar e se divertir. Norma talvez não perceba a beleza e a alegria em seus métodos. Kant com certeza sabia quantos passos eram necessários para ir de sua casa à universidade, assim como Pedro sabe que, se colocar a pastilha de menta na boca às 6h56min, bastam 125 movimentos de sua língua para que ela se desfaça às 7 em ponto. Muitas vezes no momento em que o ônibus chega, vejam só. É muito divertido, Norma, ele pensa antes subir no veículo.

Tags : contopedrorelacionamentossociedadetempo

The author Marcos Marciano

Marcos Marciano é um ser humano amador. Formou-se em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais, lê livros por esporte e escreve por falta de vergonha na cara. Ainda não sabe por que a Débora resolveu se casar com ele.