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Crônica

Vida de gado

Grande pavor que tive quando criança foi o de ter aftas na boca, pois graças a uma revista Globo Rural antiga eu descobri a febre aftosa — doença infecciosa causada por um vírus e que aflige principalmente animais de casco fendido: cabras e porcos, bois e vacas. Gado.

As pústulas e aftas dos bichos nas fotos daquela edição me marcaram tanto que, lembro-me bem, perguntei para minha mãe se já era vacinado. Ela riu, deve ter feito graça e disse que não. Fiquei paranoico, confesso, criei um medo irracional e duplo, da morte e da vacina, já que o tamanho da pistola-seringa empunhada pelo veterinário sisudo que encimava o telefone do Ministério da Agricultura era indecente.

Em meados da década de noventa eu não tinha smartphones à mão para uma pesquisa rápida no Google. O site me dá, hoje, 1.890.000 de resultados em 0,42 segundos para ‘febre aftosa’. Em 1995 eu só tinha a Enciclopédia Larrouse Cultural, mas seu verbete para febre aftosa bastou para aplacar minha imaginação fértil e apocalíptica.

Porque ali havia ciência, informação, fatos.

Eu poderia ter abraçado o comportamento bovino e paranoico, criado todo um mar de chorume para meus amiguinhos de rua e de escola, dizer que nossos pais estavam escondendo um inevitável encontro, meu e deles, com aquele absurdo de injeção e morte. Mas a ciência, a fonte confiável e os fatos disseram não.

Hoje, vivendo uma pandemia, vejo muita gente flertando com a idiotia do comportamento bovino e paranoico, de gado mesmo. Pior: comportamento este fomentado pelo presidente da república que nega a ciência, ignora a fonte confiável e cospe nos fatos. É o meu eu hipotético de nove anos de idade recusando informações sobre uma doença, com a diferença absurda de que Bolsonaro tem a caneta do poder nas mãos e a responsabilidade sobre o que pode acontecer com milhares de brasileiros.

Afirmar, neste momento, que a economia e a vida devem manter a normalidade é coisa de gente insana. Replicar a intenção do presidente é ostentar o selo de gado com orgulho. Muitas, mas muitas vidas estão em jogo. E a triste verdade é que, enquanto Bolsonaro se esforça para empurrar a crise para as costas da imprensa e dos governadores dos estados, escuto um sem-fim de mugidos. Mal sabem eles o tamanho daquela injeção.

Tags : brasilcorona víruscrônicagadopresidentesociedade
Marcos Marciano

The author Marcos Marciano

Marcos Marciano é um ser humano amador. Formou-se em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais, lê livros por esporte e escreve por falta de vergonha na cara. Ainda não sabe por que a Débora resolveu se casar com ele.