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Reflexão

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Um raciocínio simples

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O raciocínio é simples:

O fato de alguém ser homossexual, preto, judeu, kardecista, mulher, índio, branco, favelado, católico, gordo, soropositivo, homem, evangélico, magro, gago e por aí vai, não deveria ser motivo de zoação. Só que quando misturam qualquer tipo de atitude idiota com futebol, o cérebro de algumas pessoas dá uma bugada. Vêm com “ah, mas é só brincadeira”, ou “cê tá de mimimi porque o seu time perdeu kkk chupa”. Chupar o quê, gente? Um pênis imaginário? Daí isso te daria mais uma razão para me zoar, já que supostamente eu deveria ser hétero e católico?

Pois quando os goleiros vão cobrar o tiro de meta, as torcidas do meu time e do seu time gritam é BICHA, não gritam PAI DE FAMÍLIA ou ESTUDANTE DE MEDICINA. E olha que seriam duas grandes zoações.

Outro raciocínio simples: por que é engraçado chamar um homem de mulher quando o assunto é futebol? Ou insinuar que ele seja homossexual? Por que isso ainda é troça hoje em dia enquanto todo mundo (quase todo mundo) enlouquece quando jogam bananas para jogadores brasileiros na Europa? Não é tudo brincadeira e futebol?

Pois é.

Se você que chama tudo de brincadeira ainda está lendo isso daqui, já deve ter pulado para o argumento do “eu me conheço, eu sou uma pessoa boa e quem me conhece sabe bem como sou, minha mãe é mulher e cruzeirense/atleticana e aceita tudo numa boa”.

Colocando a mãe no meio

Ok, então vamos colocar sua mãe no meio.

Porque na hora que o filho ou filha dela sofreu bullying na escola — já que lá qualquer tipo de segregação ganha esse nome —, a coisa mudou completamente de figura. Quando o filho dela foi zoado por ser preto pelas colegas de sete anos de idade, tudo ficou diferente. Quando a filha recebeu bilhetes anônimos horrorosos por ser lésbica, ou teve o nome rabiscado no banheiro por ter beijado fulano de tal, o mundo da sua mãe caiu. É possível que depois de cada situação dessas sua mãe tenha escutado dos outros pais e da própria escola que providências seriam tomadas, só que tudo não passou de uma brincadeira. Isso rola bastante.

Pergunta pra ela se foi legal participar da tal brincadeira.

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Mr. Sandman, bring me a dream

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Às vezes sonho comigo. Nesses sonhos eu posso ver e falar com aquele espectro de mim mesmo. O que refuta a teoria — se é que há mesmo uma teoria — de que não podemos ver nossos rostos nos sonhos. Sei lá. Talvez seja uma coisa um pouco rara, isso eu posso aceitar. Mas podemos sim. Acho que podemos fazer qualquer coisa quando sonhamos.

Há uma outra teoria — se é que há uma teoria — de que só podemos ver coisas que já vimos quando sonhamos. Bem, então ela também refuta a supracitada, porque todos nós vemos nossos reflexos em espelhos. Todavia também não gosto muito dessa, porque nunca vi muita coisa que já sonhei. Posso ter imaginado essas coisas, isso eu posso aceitar com algum esforço.

Hoje tive um desses sonhos. Hoje sonhei comigo mesmo. Estávamos, eu e eu, sentados em cadeiras que talvez tenhamos visto em filmes sobre o Brasil colonial. A sala parecia-se bem com salas que aparecem em filmes sobre o Brasil colonial. Talvez um gabinete, talvez alguns quadros ou uma escrivaninha. Um tapete verde-esmeralda velho sob nossos pés. As cadeiras dispostas de maneira que não nos encarássemos, mas que dessem a impressão de que falar sobre coisas importantes seria necessariamente a única coisa a se fazer. Vestíamos ternos ingleses cinzas, no entanto ele, o espectro, tinha um lenço vermelho estiloso que eu não tinha colocado em um dos bolsos do casaco. Também usávamos coletes. Estávamos elegantes.

Um silêncio pesado no ar. Parecia que ponderávamos várias coisas, ou pelo menos eu também devia estar ponderando. Então o espectro olhou para mim e quase não suportei aquilo. Não tínhamos os mesmos olhos.

— Todos têm um projeto, Marcos — disse o espectro — Eu tenho preguiça, muita, mas muita preguiça. E você?

Aí acordei com a Mentira, minha cachorra, lambendo meu pé direito.

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A melhor companhia que tenho é a minha

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Observo com grande frequência o incômodo das pessoas ao se perceberem sozinhas. Ao passarem um sábado à noite em casa ou ao não terem com quem almoçar, por exemplo. Já estive nesse grupo quando era mais nova, mas com o passar do tempo aprendi a apreciar a minha própria companhia e descobri que isso é a melhor coisa que podemos fazer.

Desespero para achar companhia

Quando você se desespera para achar uma companhia, potencialmente conseguirá uma ruim. Alguém que não se encaixa bem com o que você precisa de verdade. Porque o que está em jogo nesse caso não é a qualidade da companhia, mas ter uma. Quem quer que seja. Quem aparecer primeiro ou quem topar.

Tenho percebido muitas pessoas descrevendo encontros malsucedidos do Tinder (não vou entrar no mérito nesse post, mas há várias formas malsucedidas diferentes) nas sessões lá no consultório. O principal motivo — claro que existem outros, comportamento humano sempre é multifatorial — é aquela ideia de “não tem tu, vai tu mesmo“. É fundamental trocar o artigo indefinido — ter uma companhia — para o artigo definido: ter a companhia. Para isso, você precisa primeiro estar bem consigo mesmo. Depois, saber o que quer. Por fim, buscar o que você quer e ser paciente na jornada.

“Antes só do que mal acompanhado”

Isso me traz ao famigerado ditado popular brasileiro “antes só do que mal acompanhado”. Tomei como verdade na minha vida, o que me faz ser bastante seletiva sobre as pessoas que vou manter perto de mim. Uma frase de Nietzsche complementa essa mesma ideia:

Não me roube a solidão sem antes oferecer a verdadeira companhia

Friedrich Nietzsche

A interpretação pessoal que dei para essa frase é quase como uma filosofia de vida para mim: estarei na companhia de alguém se isso for, de alguma forma e qualquer que seja ela, interessante. Não estou sendo utilitarista nem interesseira. O que eu quero dizer com interessante para mim é que faz sentido estar com alguém se isso nos possibilitar algum tipo de troca. Quero estar com alguém quando isso for divertido, quando pudermos nos ajudar, quando tivermos conversas instigantes e por aí vai.

O prazer de estar na minha própria companhia

Não sendo assim, desculpe, eu prefiro estar na minha própria companhia. É a troca do termo solidão, que vem com aquela carga pesada, com aquela cor cinza escura, pelo termo solitude, que chega leve e eu enxergo como amarelo brilhante. O Marcos Marciano falou um pouco de solitude e introversão neste post aqui no Prisma.

Eu acho uma delícia poder decidir o que vou fazer com o meu próprio tempo! Se vou pesquisar alguma coisa, assistir a um seriado ou a um filme em casa, ir ao cinema, ler um livro, resolver algo na rua ou até mesmo, viajar sozinha. Quando se chega a essa descoberta de que você é a melhor companhia que poderia ter, um novo mundo de liberdade se abre.

Isso quer dizer que eu não gosto das pessoas?

Não. Significa que meus contatos sociais são ainda mais significativos. Eu não estou com as pessoas por estar desesperada, porque preciso delas. Estou com as pessoas porque isso é bom e quando é bom.

Quando estamos bem conosco, tudo funciona melhor. Especialmente a relação com outras pessoas. Você deixa de fazer por obrigação e passa a fazer por vontade. Não consigo imaginar nada mais livre e que traga mais leveza do que isso! Experimente!

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O jeito bom de se importar com a opinião dos outros

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A ideia desse texto surgiu na minha recente viagem ao Peru quando passei por pequenos desconfortos causados por outras pessoas. Ao mesmo tempo, pude observar que uma parcela do meu comportamento é direcionada a (tentar) não causar problemas para outrem. E isso vai muito além daquele medo da opinião dos outros.

Confesso que o título do texto foi propositalmente colocado como está para chamar mais a sua atenção. Digo isso porque vou falar mais sobre importar-se com os outros do que propriamente com a opinião deles. Desculpe, mas eu precisava te convidar para essa leitura!

Importar-se com a opinião dos outros é, em última instância, egoísta

Eu já falei sobre a importância de se tratar como prioridade e esmiucei os impactos de estar todo o tempo preocupado com o que os outros vão pensar. Apresentei para vocês meus dois grandes estalos sobre esse assunto:

  • Não se pode agradar a todo mundo e
  • Não requer esforço se você agrada a alguns naturalmente.

Uma coisa que eu ainda não tinha contado é que cheguei à conclusão de que se importar com a opinião dos outros é egoísta. “Mas Débora, como assim? Se eu estou preocupado em agradar como isso seria egoísta?”. Vamos lá:

  1. Estou preocupada com o que vão pensar de mim;
  2. Faço as coisas — ou pelo menos tento fazer — de uma forma que possibilite agradar aos outros;
  3. Quando agrado, provavelmente provoco no outro a reação de “nossa, a Débora é tão legal” (ou algo similar a isso).

Sejamos honestos: você está mais preocupado consigo mesmo. Isso é egoísmo. Calma que nem todo egoísmo é ruim (embora eu ache que esse é péssimo, por ser velado e no final das contas te atrapalha infinitamente mais do que te ajuda). Quer o exemplo de um bom egoísmo? Fazer o que combina mais com você e que vai te fazer bem, desde que isso não traga consequências negativas graves sobre outra(s) pessoa(s). Em tempo: o outro ficar com raivinha de você não é uma consequência negativa grave para ele! Nem deveria ser para você.

Importar-se verdadeiramente com os outros

Esse é o jeito bom! Agora vou voltar ao ponto que trouxe esse texto à tona: minhas experiências na viagem ao Peru — mas também vou acrescentar de outros momentos.

Quando estávamos em viagem — eu e a Marcella, que também escreve aqui — percebi uma grande preocupação minha em não atrapalhar os outros. Estávamos prontas no horário que supostamente a van iria nos buscar; voltávamos para o ponto de encontro sempre alguns minutinhos antes do horário marcado; prestava atenção se não tinha deixado lixo dentro do veículo, nas mesas etc.; não conversava muito alto, porque sempre tem alguém dormindo e por aí vai.

Em contrapartida, observei esses descuidos dos outros: turistas que voltavam para a van na hora que bem entendiam, atrasavam o circuito e provocavam que tivéssemos uma permanência menor no próximo ponto visitado; no avião, um homem achou que tudo bem dormir encostado na traseira da minha poltrona, jogando todo o peso dele sobre as minhas costas; na viagem de trem, uma mulher resolveu cruzar as pernas e me chutar diversas vezes enquanto pedia desculpas, mas não alterava o comportamento.

Vou dar mais exemplos, sou cheia deles. Em qualquer viagem que tenha feito, pessoas que entram na frente da minha foto ou que não saem nunca e não permitem espaço para que em algum momento eu e outras pessoas possam fotografar. Um vizinho que tocava bateria à noite e fazia o batuque reverberar no meu teto, embora tocasse a bateria com fones de ouvido. Uma república logo acima do meu apartamento que fazia festas de madrugada. Gente que conversa pelo celular no cinema. Gente que fala alto em qualquer lugar. Gente que não arreda para o fundo do ônibus, impedindo que mais pessoas entrem. Gente que não devolve troco errado que veio a mais. Em suma: pessoas que agem como se elas fossem as únicas que existissem no mundo.

Não quero de forma alguma dizer que eu sou perfeita e sempre antenada para não incomodar os outros. Nós sempre temos a chance e provavelmente a agarramos em alguns momentos de ser o incômodo de alguém. Mas acredito na importância de fazer o esforço empático de se lembrar do fato de que existem outras pessoas ao nosso redor.

Sobre os exemplos que eu dei, pedi para cessarem o incômodo que me causavam ou demonstrei isso com expressões de desagrado — e sim, tem gente que fica sem graça e para e tem aquele que intensifica só pra te encher o saco. Meu ponto é: essas pessoas não deveriam me tratar bem para evitar que eu pensasse mal delas — porque eu pensei! Elas deveriam me tratar bem pois é assim que tratamos uns aos outros. Digo e repito: o melhor jeito é se importar verdadeiramente com o outro. Ser empático. Isso sim é altruísmo.

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O sangue que corre em nossas veias

O sangue que corre em nossas veias

Eu fiz uma viagem ao Peru com a Débora aqui do blog, mais especificamente para os arredores de Cusco e Machu Picchu (aprendi que se diz “mátiu píquetchu”). Foi uma ótima oportunidade para aprender mais sobre o Império Inca e conhecer uma das Sete Maravilhas do Mundo Moderno. Mas por incrível que pareça, uma coisa me incomodou durante toda a viagem.

Em nossos passeios e contatos com os peruanos, eu observava o orgulho que todos sentiam dos seus antepassados e como o povo ainda mantém a cultura inca presente no dia a dia: seja nos hábitos, nas vestimentas, no diálogo (a segunda língua do Peru é a Quechua, língua que era falada pelos Incas) e até na estrutura dos monumentos e casas, onde ainda havia vestígios das construções incas. Tudo isso me fez pensar que eu não sei muito sobre nossas origens e acredito piamente que grande parte do povo brasileiro não saiba.

Nossa origem nativa

Há um tempo, conversei com meus pais sobre meus antepassados. Sei que por parte de mãe tenho ascendência portuguesa e indígena; já por parte de pai, tenho ascendência negra (meu avô, infelizmente falecido, disse que uma de suas bisavós foi capturada a laço. Bem horrível). Mesmo com essas informações, nunca mais quis saber a fundo sobre a minha própria origem (indígena, negra e até mesmo a portuguesa), e por consequência, o que de tradições eu poderia manter em respeito aos meus antepassados.

Claro que esse resquício de vontade de saber sobre nossos antepassados não é nada parecido com as pesquisas de historiadores, antropólogos e sociólogos sobre a origem do povo brasileiro, já que o Brasil é um dos países mais miscigenados do mundo (índios, os negros vindos da África, os colonizadores portugueses e diversos imigrantes: franceses, holandeses, italianos, japoneses, alemães, entre outros).

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Antes de melhorar, piora

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Se alguém fizesse uma coletânea das frases que eu mais falo, posso te garantir que o título desse texto seria uma figurinha carimbada. Falo para os outros e para mim mesma, de modo a tentar gerar coragem para enfrentar a vida com suas delícias e percalços. Portanto, já te aviso que antes de melhorar, piora, mas há esperança e falaremos sobre isso!

Por que fazemos o que fazemos

Não tenho uma resposta super elaborada para te dar o porquê, na verdade, a essência do motivo de fazermos o que fazemos habitualmente é bem simples: porque aprendemos a agir assim.

Skinner, um proeminente psicólogo behaviorista, defendeu que o comportamento é produto de três níveis de variação e seleção. São eles: filogenético, ontogenético e cultural.

Vamos falar rapidinho sobre cada um:

  • Filogenético: refere-se ao nosso arcabouço biológico e genético, é o que herdamos;
  • Ontogenético: abarca o desenvolvimento comportamental do indivíduo, dadas todas as suas interações com o meio;
  • Cultural: esse nível de seleção compreende as variáveis ambientais mais amplas que influenciam os indivíduos. Por exemplo, a economia, a política, as questões culturais próprias do ambiente.

Diante disso, eis o que você precisa saber: esses três níveis interagem e o resultado é o conjunto de comportamentos que você aprendeu e apresenta. A tendência é repetir esses modos de agir. Dá para quebrar a sequência repetitiva se você se propuser a aprender algo diferente no lugar do que normalmente faz. Também é necessário criar as condições para que esse aprendizado comportamental aconteça.

Por que temos dificuldade (ou medo) de mudar, mesmo desejando as mudanças

Pelos mesmos motivos que te expliquei ali em cima. Nós aprendemos nossos comportamentos em determinados contextos que incluem nossa genética, história pessoal e cultura. Tendemos a repeti-los porque são nosso modo conhecido, garantido e seguro de interagir com o mundo.

Eu costumo brincar com os meus clientes:

Como será para você se eu começar a conversar em [insiro uma língua que eu sei que a pessoa não sabe, como alemão, por exemplo] contigo?

O cliente obviamente responde que não vai conseguir continuar a nossa conversa por não dominar o idioma. Essa pessoa não tem repertório nessa língua específica. Mas tem em outra, que é a que ela aprendeu a usar. Para dominar outro idioma o estudante teria que fazer um esforço consciente, programado e contínuo. Além disso, precisaria arriscar essa nova habilidade num contexto de insegurança, por ser novo.

Penso que assim fica mais claro por que temos dificuldade/medo de mudar, mesmo desejando as mudanças. A nossa forma de agir, embora incômoda nos aspectos em que se desejam as alterações, volto a dizer, é conhecida, garantida e segura. Os resultados dos nossos comportamentos-padrão são suficientemente previsíveis para nós. Outro ponto é que nossas atitudes nos trazem benefícios ou nos livram de problemas, ainda que não tenhamos essa percepção clara.

Mas por que antes de melhorar, piora?

Antes de melhorar, piora, porque ao tentar mudar algo em nossas vidas — seja lá o que for — isso sempre vai afetar o nosso comportamento. Por exemplo, se você se muda de casa isso vai afetar os seus trajetos habituais. Se você começa um novo curso, isso vai alterar sua rotina considerando as outras atividades. Se você altera a sua alimentação, vai mudar os seus hábitos em relação à comida. Percebe?

Não é confortável agir de um jeito ainda desconhecido. De uma forma cujos resultados não são tão previsíveis quanto os anteriores. E, especialmente, de uma maneira na qual você ainda não é “fluente”. Isso significa ter que fazer esforços deliberados para se comportar de um jeito X, sendo que você já é fera no Y. Já vou te falar que há esperança, mas antes só quero dar mais um aviso:

Se envolver outras pessoas piora ainda mais

Como somos seres sociais, é muito comum que uma mudança em nós influencie a vida de mais alguém. Não é uma regra, não é uma coisa que necessariamente vai acontecer, mas com outras pessoas envolvidas a mudança pode ser mais difícil.

Vamos pensar juntos: quando interage com alguém, você se torna contexto para o outro. E vice-versa, numa interação contínua, sistêmica. Sabe quando mãe reclama que faz tudo em casa e ninguém ajuda? Pois bem, ela faz tudo porque ninguém “move uma palha”. Enquanto isso, os demais moradores não fazem nada porque aprenderam que já está tudo pronto ou logo ficará. Por que eles iriam se esforçar? Em algum momento, os comportamentos dessas pessoas se estabeleceram assim e para quebrar alguém vai ter que começar a agir diferente.

Sigamos com nosso raciocínio. A(s) pessoa(s) que interage(m) com você vai(vão) reagir mal às suas mudanças, dificultando-as, se você agir habitualmente de maneiras que de alguma forma, mesmo que indireta:

  • Geram algum benefício a ela(s) ou
  • Impedem ou minimizam um prejuízo a ela(s).

Vale ressaltar que muito do que estou descrevendo costuma representar processos inconscientes. Isto é, essas relações muitas vezes não são realizadas deliberadamente pelas pessoas envolvidas. Para ficar mais claro: o que eu quero dizer é que não necessariamente quem reagir mal à sua mudança fará isso de propósito.

Fica aqui o alerta: quando quiser mudar algo na sua vida, pense em como isso vai afetar as pessoas ao seu redor e prepare-se como puder para os impactos.

O que fazer então?

“Mas Débora, se mudar é difícil por tendermos a viver numa eterna repetição dos nossos comportamentos e, além disso, ainda pode ter gente que vai agir contra (talvez sem saber) por participar da interação comigo, como diabos eu vou implementar alguma mudança?”

E eu te respondo: lembre-se que antes de melhorar, piora, mas a situação desconfortável não é permanente. Ela é transitória. Se você aguentar um pouquinho mais, vai ter tempo suficiente para transformar o estranho, o novo, em familiar.

Quanto às pessoas envolvidas de alguma maneira nas suas mudanças, tenha paciência. Lembre-se de que se você precisa de tempo, elas também. Com persistência nos seus novos comportamentos, as pessoas próximas a você que te querem bem em um dado momento vão perceber, entender e irão se adaptar.

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O vazio que faz bem

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Eu posso apostar que você leitor está vivendo numa constante miríade de informações, responsabilidades e relacionamentos. E todas essas coisas provavelmente estão a 120 km/h. Mas eu tenho certeza que não é só você que passa por isso, é muita gente passando por essa situação, incluindo eu mesma. 

Viver assim, em pressão constante por todos os lados, nos acarreta uma série de problemas: não é à toa que a depressão e a ansiedade são os males do século XXI. E é por isso que constantemente temos a necessidade vital de momentos de pausa para respirar.

É bem verdade que o mundo não vai desacelerar só para que você pare um pouco para organizar as ideias e ter fôlego para continuar nessa velocidade maluca que nossa sociedade exige. Mas é importante lembrar que a pausa é necessária para que tudo, absolutamente tudo funcione. Porque é assim que as coisas ficam em equilíbrio. Para entender melhor por que a pausa é tão importante, vou trazer aqui um conceito bastante interessante da cultura japonesa, o Ma.

O Conceito de Ma

O Ma, segundo o blog Coisas do Japão, é uma das leituras do ideograma 間, portão/portal/porta ( 門 ) e sol ( 日 ). Quando pensamos em uma porta, normalmente o que vem em nossa mente é a imagem do objeto. Mas a questão é ir além. O que faz da porta ser uma porta? A resposta é: o espaço vazio. 

A função do Sol — sem entrarmos na questão científica — é aquecer e iluminar o mundo. A junção dos dois ideogramas sugere um tempo-espaço para observar o que o sol ilumina. Em outras palavras, o Ma é um espaço vazio, uma pausa, um intervalo de contemplação que dá um sentido mais pleno para a quarta dimensão, o tempo.

E este conceito está presente em diversas outras expressões se pararmos para pensar. Para entender melhor, li este artigo da arquiteta Michiko Okano, onde ela diz que essa estética distinta, “implica a valorização, por exemplo, do espaço branco não desenhado no papel, do tempo de não ação de uma dança, do silêncio do tempo musical, bem como dos espaços que se situam na intermediação do interno e externo, do público e do privado, do divino e do profano ou dos tempos que habitam o passado e o presente, a vida e a morte”.

Um tempo atrás, assisti a um vídeo que fala justamente de como o cineasta japonês Hayao Miyazaki, utiliza do conceito de Ma em suas obras. Como ele introduz, por exemplo, pausas pontuais na narrativa de suas animações, de forma tal que o espectador se torna um observador.

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Você é um introvertido e só quer ir para casa

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A história pode e irá se repetir num sábado qualquer. Imagine: já é quase noite e você está em seu quarto, debaixo das cobertas, lendo um livro sensacional ou assistindo a um filme que poderia nunca acabar de tão bom. Seu gato está deitado ao pé da cama, um tipo de troféu que representa toda a situação feliz. Só falta algo gostoso para beliscar e você já ensaia uma incursão à cozinha quando, do nada, surge a mãe revoltada — pode ser o pai, a irmã mais velha, a tia-avó — querendo saber por que cargas d’água um(a) jovem está em casa em pleno final de semana, por que não sai com os amigos, por que não arruma um(a) namorado(a), por que passa tanto tempo enfurnado em casa, por que não desliga o computador e por aí vai.

O gato se levantou e agora você não sabe se vai conseguir o petisco na cozinha. Também esqueceu em qual parágrafo do livro estava. Pode ter que retomar o filme de onde parou, isso se conseguiu congelar a imagem e não está tendo pequenos spoilers graças ao parente que te fez sentir mais uma vez a grande ovelha negra no mundo das ovelhinhas de algodão, aquelas que consideram a morte ao não sair de casa num sábado à noite.

Introversão

Se a situação descrita acima soou um tanto familiar, talvez você seja uma em cada duas ou três pessoas no mundo que são consideradas introvertidas. Isso mesmo. Susan Cain, autora do ótimo O poder dos quietos, diz que de um terço à metade da população mundial pode ser considerada introvertida. É bastante gente numa sociedade que quer porque quer recompensar desde cedo apenas os que estão sempre prontos para socializar, os que gostam de fazer networking, que se entediam muito ao não fazer nada, os que são figurinhas fáceis em todas as festas, os que saem de casa nem que seja só para ver gente.

Mas que diabos. Já passei por inúmeras situações chatas por não compactuar com o ideal da extroversão. Eu sou um introvertido de carteirinha e estou aqui hoje para apresentar 4 coisas que introvertidos sempre escutam e que precisam de resposta:

1. Você tem que sair de casa e deixar de ser antissocial!

Não, não preciso sair de casa.

Para mim e para o você hipotético ali do início do texto, não há coisa melhor que curtir um bom livro ou um bom filme em nossos respectivos cantos. Passar horas desbravando o mundo aberto de algum jogo no computador também é ótimo. Perfeição seria fazer isso tudo enquanto chove lá fora. Mas isso não quer dizer que não gostemos de pessoas, só apreciamos a coisa em doses menores. Preferimos a companhia de poucos amigos ao grande evento lotado de indivíduos do trabalho ou da faculdade. Não sei se há um nome para aquele misto de culpa e alívio ao conseguirmos sair de uma festa qualquer. Festa esta que basicamente só comemos, conversamos com as pessoas que já conhecíamos e que estavam perto do lugar que escolhemos para sentar e, na maior parte do tempo, ponderamos se já era um bom momento para ir embora. Porque realmente cansa a interação cavalar e fora da nossa concha. E o mais importante: introvertidos não são antissociais. O comportamento antissocial é aquele que de alguma forma vai ferir pessoas ou ferrar com o bom funcionamento da comunidade. Um cara que chuta cachorrinhos na rua ou que joga pedras nas janelas do vizinho é um antissocial. Alguém que recusa convite atrás de convite para a baladinha top não está fazendo nada além de preservar energia para outras coisas, pois um introvertido precisa mesmo recarregar baterias depois de interações. A Netflix só é o que é hoje em dia porque nós existimos.

2. Você deve ter algum problema para gostar de tanta solidão.

Talvez do mesmo jeito que o extrovertido ache uma porcaria ficar sozinho, eu ache uma grande e fedorenta merda estar dentro da boate barulhenta e apinhada de seres humanos. E é aqui que devemos diferenciar outras duas coisas importantes ao falarmos sobre introversão: solidão e solitude.

Solidão é algo muito ruim de ser sentido por qualquer pessoa. Alguém pode estar na boate barulhenta e apinhada de seres humanos, mas estar completamente só. A solidão é imposta às pessoas, faz com que elas não se sintam importantes para ninguém ou relevantes para o mundo. A solidão dói, porque a sensação é de punição por sermos apenas nós mesmos.

Já a solitude, por outro lado, é algo bom de ser sentido. Nela você também está só, mas por sua escolha. São em momentos de solitude que o introvertido recarrega as energias, entra em contato com todos os seus pensamentos e planos e questionamentos. É quando pode estar com ele mesmo e trabalhar sua criatividade, repensar e reforçar seu modo de enxergar o mundo, a vida e sua relação com os outros. Sem tais oportunidades é muito comum que o introvertido desligue, fique embotado para todo o resto. Perdi o número de vezes que disse“não quero sair de casa hoje, já saí ontem”, exatamente para preservar a solitude necessária para continuar funcionando.

Então, não. Eu não tenho um problema por gostar de ficar sozinho. Até um extrovertido precisa de momentos de solitude.

3. Mas você é estranho. Não fala nada.

Bem, eu poderia sempre devolver essa com um “e você que não cala a boca?”, no entanto outra característica comum em introvertidos é pensar muito antes de falar qualquer coisa. Agir assim resulta em bastante silêncio e observação, ou vice-versa. Daí o monte de gente confundindo tanta ponderação com mau humor ou achando que somos tímidos. É inegável que podemos ser, sim, muito acanhados, mas timidez não é condição sine qua non para a introversão. Inclusive algumas pessoas podem se surpreender com a verborragia de um introvertido sobre determinado assunto, só não esperem a mesma empolgação para conversar sobre picuinhas. Gastar tanto tempo em solitude para ter que debater sobre o clima ou sobre a última separação das celebridades é de doer.

Em geral acham que os introvertidos são estranhos porque não falam nada, mas passam de estranhos a uns chatos depois que tentam transformar uma conversa trivial em algo muito maior e profundo.

4. Você poderia fazer um esforço para ser mais agradável.

Será?

Engana-se quem acha que aos introvertidos estão reservados apenas os papéis subalternos em um mundo moldado para os extrovertidos. Muitas personalidades internacionais, das mais variadas áreas de atuação, ao contrário da expectativa de várias pessoas, foram e são introvertidas. Nós somos considerados ótimos ouvintes, escritores, planejadores e possuímos grande aptidão para insights. Podemos ser grandes oradores e líderes — Bill Gates está aí como prova. Claro, não há uma regra para isso tudo e não estou puxando sardinha para o meu lado, mas algumas características comportamentais facilitam bastante o alcance de algumas habilidades. Uma pessoa presa por vontade em um universo só seu pode ajudar na resolução de problemas antes considerados complexos até mesmo para um grupo considerável de trabalho.

O fato é que me recuso a tentar ser agradável, pois isso no fundo significaria ser algo que não sou: um extrovertido. Já é bem difícil ser o cara que escolhe O Escafandro e a Borboleta em detrimento de Velozes e Furiosos como filme a ser assistido entre primos de terceiro grau. Já foi muito pesado ter que fingir interesse por algumas coisas só para não ser um estraga-prazeres. Muitas vezes me senti envergonhado e tendo que pedir desculpas por ser um introvertido. É quase como se a humanidade fosse construída para um fim extrovertido, com tipos de felicidade que só se encaixam em vidas extrovertidas, só que na prática isso é uma grande balela. Minha solitude, meus livros, meus filmes, meus dias chuvosos e todas as conversas que tenho comigo mesmo e não compartilho com tanta facilidade, tenho certeza, essas coisas têm valor. Assim como sei do imenso valor das habilidades que extrovertidos possuem e que eu nem passo perto de ter.

O que pretendi com este texto foi compartilhar um incômodo que às vezes vejo muitas pessoas ao meu redor também sentindo, mas não sabendo colocar em palavras. Aliás, não só compartilhar o incômodo, mas desnudar um preconceito bobo que ainda deve persistir. E dizer ao final:

Não é tristeza, não é raiva, mau humor ou depressão. Você é um introvertido e só quer ir para casa.

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Reflexão

Mas eu me mordo de ciúme

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Algo que me intriga bastante são os relacionamentos amorosos permeados por uma dose de ciúme. Fico intrigada por ser uma coisa que não consigo sentir, mas também pelo fato de que não vejo o porquê disso estar presente entre pessoas que supostamente se amam.

Quer dizer… há tentativas de explicação científica, diferenciação dos motivos do ciúme da mulher e do homem evolutivamente falando, a história de vida de quem sente ou provoca ciúme nos outros (já escrevi sobre isso antes)… De forma analítica, eu entendo muito bem o que leva as pessoas a sentirem ciúme, inclusive trabalho muito com esse tema em consultório. Mas continuo pensando que é desgaste demais se manter em uma relação íntima de insegurança, caso não seja possível modificá-la para melhor.

Relacionamento deveria ser uma coisa boa

Toda vez que eu penso em relações interpessoais — de todo tipo: familiares, amizades, amorosas, de trabalho, comunitárias etc. —, já me vem logo à mente que é algo para ser bom. Uma pessoa contribuir com a outra da forma que lhes couberem. Uma pessoa fazer bem à outra quando e como for possível.

Infelizmente, nem sempre dá para ser assim. Costumo dizer que algumas relações são sorteadas. Por exemplo, tendemos a escolher nossos amigos, mas não dá para selecionar quem é parente e geralmente não é possível determinar quem serão seus colegas de trabalho. Dentre as relações “sorteadas”, é possível se desfazer de umas, mas não de outras. Vamos supor que você adore seu trabalho, mas tem um colega péssimo. Será necessário encontrar alguma maneira de tolerar essa situação, já que você não irá abrir mão da sua função e a saída do colega não depende de você.

Um relacionamento amoroso não precisa entrar na gama dos sorteados. Outra coisa que eu sempre digo quando tenho a oportunidade é que o primeiro encontro é para saber se você quer ter o segundo e assim sucessivamente. Estar com alguém tem que ser sim uma escolha.

Relacionamento não é sobre posse

Já adianto que se for, está errado! Uma pessoa não se torna dona da outra porque estão juntas. Ou pelo menos, não deveria se tornar. Para mim, aí começa essa história do ciúme: “preciso manter o que é meu”. A pessoa começa a associar a ideia de que “se eu faço esforço para que Fulano(a) continue comigo, ele/ela irá permanecer”.

Vamos pensar juntos:

  • Você realmente quer um relacionamento cuja continuidade depende de que você fique se esforçando para cercar a pessoa para que ela não faça nada de “errado”?
  • Você acha que tem algum valor a pessoa só não fazer nada de “errado” porque você a cercou?

Não tem valor se é policiado

Caso você ainda não tenha conseguido responder às duas perguntas que fiz acima, segue uma frase cômica adaptada que achei na internet (perdoem-me por não ter encontrado a fonte para dar os créditos) que talvez ajude a pensar:

O que mantém o gado no pasto é a grama, não a cerca.

Não sei você, mas eu prefiro que meu marido esteja comigo porque ele me acha legal, gosta da minha companhia, da forma como eu penso, das ponderações que levanto, de como contribuo com a vida dele e até das minhas chaturinhas. “Deus me dibre” da “obrigação” que o ciúme traz de ficar checando o tempo todo se ele não está com outra para garantir que está comigo. Que ele está comigo eu já sei. Faço a escolha de preferir aproveitar a companhia.

É sobre confiar no outro

Pode ser que eu ainda não tenha conseguido te convencer com o meu jeito good vibes de encarar relacionamento: “Ah, Débora, mas e se eu não vigiar e ele/ela fizer alguma coisa desaprovável?”. Eu te digo o seguinte: quem quer fazer m*rda, faz.

Primeiro porque não tem como você controlar tudo. É humanamente impossível. Quer mais uma paranoia pra sua cabeça para que eu prove meu ponto? Se eu quisesse demais esconder algo do meu marido, teria um número e aparelho de celular somente para as coisas escondidas e deixaria esse aparelho no meu consultório, local que o Marcos não frequenta. Ou seja, pode não valer nada seu esforço de se esgueirar e olhar o telefone do outro quando ele estiver tomando banho ou dormindo.

Segundo porque a pessoa que já foi controlada fica cada vez mais esperta — se ela for inteligente — para escapar nas próximas vezes. Ela já sabe o que a entregou, então vai se antecipar para que a mesma coisa não a entregue novamente. Eu digo que ela fica mais criativa.

Por fim, como já falei acima, não tem valor se a pessoa só não faz m*rda porque é policiada. Isso quer dizer que no momento em que o seu controle afrouxar ou não for possível existir, ela escapole por entre os dedos. Sério mesmo, você quer um relacionamento custoso assim? Em que você acha que o outro está contigo porque você cercou as possibilidades de que ele ou ela vá embora?

Por isso digo que é sobre confiar no outro. Não depende do seu controle, depende da índole do seu parceiro. Se ele vier a te trair isso diz muito mais sobre ele do que de você. Ele não traiu porque você não era suficiente. Ele traiu porque foi covarde e não soube reconhecer o momento de terminar o relacionamento — no melhor dos casos. No pior, traiu porque é uma pessoa sem caráter que quer tirar vantagem, a despeito dos sentimentos da pessoa que está com ele. Nunca se culpe pelas coisas ruins que fizeram com você! Responsabilize quem agiu mal. E depois disso, por favor, siga a sua vida. Pra frente.

Para fechar essa parte, vamos a uma analogia. Imagino que você não aceite pegar estrada, especialmente se for uma viagem longa, com qualquer carro. Sem revisão. Caindo aos pedaços. Afinal de contas, você pode sofrer um acidente. Dessa forma, você vai escolher um bom carro, passar pela revisão, ter todos os documentos em dia, não é mesmo? Essa parte é a confiança no outro. Assim como você não pega estrada com qualquer carro, não deveria compartilhar a sua vida com qualquer pessoa. Escolha alguém que te pareça confiável.

Mas também é sobre confiar em si mesmo

Agora entra a parte que eu acho mais interessante da história: não é só confiar no parceiro, tem que confiar em si mesmo também. É a velha história de ter uma boa autoestima. Vai ficar mais claro quando seguirmos com a nossa analogia do carro. Vamos lá!

Seu carro para pegar estrada é ótimo. Mas… não adianta nada se você não sabe dirigir ou não sente segurança para conduzir. Nesse caso, você teria medo e desconfianças do mesmo jeito.

Por isso é tão importante que você saiba e se lembre de que é uma pessoa legal e que seja lá quem for que está com você tem sorte de desfrutar da sua companhia. Entender que há pessoas que vão combinar mais com você do que outras. E principalmente saber o quanto vocês são bons juntos, mas também funcionam de forma avulsa quando convém a cada um. Se não for para ser assim, deixo honestamente uma pergunta: por que ser então?

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Reflexão

Por que o lazer precisa ter um espaço definido na sua agenda

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Vivemos em uma cultura que valoriza trabalho muitas vezes de forma massacrante e se esquece do lazer. A noção de sucesso vem atrelada à correria, produção e esgotamento. Um profissional visto como bem-sucedido — devo avisar que não por mim! — é aquele que não tem tempo, que almoça na mesa de trabalho, que sai depois de 21h do escritório. Fico pensando quando essa pessoa usufrui do dinheiro que produz ou até se recebe o correspondente ao tanto que se dedica.

Penso que as coisas já não eram boas, mas pioraram um pouco com as startups. Só porque há um videogame ou uma sala de descanso com pufes coloridos na empresa não quer dizer que as pessoas vão se sentir à vontade para utilizá-los. Geralmente vão ficar preocupadas com as metas a cumprir e o videogame apenas vai fazer parte da imagem cool do local. Nota: pessoas que atendo que trabalham nesses locais costumam precisar identificar em terapia o quanto realmente deveriam trabalhar. Sentem-se ansiosas com as metas e como a coisa é muito livre — sem horário para entrar, por exemplo — acabam ficando também sem horário para sair. Torna-se uma liberdade que aprisiona por outras vias se a pessoa não estiver atenta aos próprios limites.

A noção de ser “útil” se mistura com “trabalhar”

Percebo frequentemente essa confusão: as pessoas pensam que sentir-se útil tem a ver com estar trabalhando. E quando essa relação trabalhar = ser útil se repete muito, um significado cola no outro com mais força. A pessoa torna-se uma tarefeira, porque é a única maneira que passa a se sentir “bem” já que o que não for considerado trabalho é visto como tempo inútil, improdutivo. Depois ela começa a colar esses rótulos em si mesma.

O que é entendido como trabalho vai variar para cada um. Tem gente que acha que é somente aquilo que produz dinheiro como consequência. Há outros que entendem que trabalho pode produzir também diversos tipos de resultados que não monetários. Algumas pessoas pensam que é uma tortura, outras que é o maior significado que temos na vida. Há quem coloque estudo dentro da categoria trabalho e por aí vai.

Um prato cheio para a ansiedade

A partir do estabelecimento dessa relação em que nos sentimos úteis somente quando estamos trabalhando (cada um com sua noção do que isso seria), a ansiedade tem espaço de sobra para operar. Já cansei de ver pessoas que se sentem ansiosas justo quando estão em seus momentos de lazer e descanso. Não sabem o que fazer com o próprio tempo ou ao escolher algo para se dedicarem têm a percepção negativa e incômoda de que estão sendo “inúteis”.

Se nossa rotina prioriza demais fazer somente aquilo que está delimitado, que é obviamente necessário — como as obrigações do trabalho, de cuidar de casa, de filhos e afins — quando temos tempo livre, ficamos perdidos. Como preencher? Como saber o que traria satisfação?

Uma coisa é fazer algo que você deliberadamente sabe que não gosta; outra coisa é investir tempo no que você tem memória de gostar e ainda assim não conseguir apreciar a experiência. Sabe o que está acontecendo quando funciona assim? Você está tratando sua vida como se ela tivesse uma área só: trabalho.

A sua vida não é só trabalho!

Com essa ideia finalmente te explico por que o lazer precisa ter um espaço definido na sua agenda: sua vida possui múltiplas áreas e você precisa cuidar bem de todas elas!

Balancear trabalho que gera dinheiro (se for o seu caso), trabalho que gera outros resultados que não monetários, autocuidado, família, encontros com os amigos, investimento de tempo em hobbies, saúde física e mental e descanso é fundamental para uma qualidade de vida adequada, para o seu bem-estar.

Por isso venho insistindo na ideia de que devemos colocar nosso lazer na agenda. Ele tem tanta importância quanto qualquer outro compromisso para que tenhamos uma vida equilibrada. Eu tenho o hábito de usar agenda porque marco com meus clientes e tenho que saber o horário de cada um deles. O costume acabou se estendendo para outros compromissos e resolvi reservar tempos na agenda com o título lazer. Dentro dessa categoria posso escolher o que estiver com mais vontade fazer naquele momento entre diversas opções que me agradem.

Com o tempo reservado na agenda, lembro-me da importância que dou ao meu lazer e descanso e sei que as outras coisas que preciso fazer, especialmente as que chamo de trabalho, também têm seu horário garantido. Descansar e me divertir não vai implicar em deixar de fazer nenhuma das outras atividades que também são importantes, uma vez que está tudo organizado nas suas devidas janelas de tempo.

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