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Reflexão

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O jeito bom de se importar com a opinião dos outros

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A ideia desse texto surgiu na minha recente viagem ao Peru quando passei por pequenos desconfortos causados por outras pessoas. Ao mesmo tempo, pude observar que uma parcela do meu comportamento é direcionada a (tentar) não causar problemas para outrem. E isso vai muito além daquele medo da opinião dos outros.

Confesso que o título do texto foi propositalmente colocado como está para chamar mais a sua atenção. Digo isso porque vou falar mais sobre importar-se com os outros do que propriamente com a opinião deles. Desculpe, mas eu precisava te convidar para essa leitura!

Importar-se com a opinião dos outros é, em última instância, egoísta

Eu já falei sobre a importância de se tratar como prioridade e esmiucei os impactos de estar todo o tempo preocupado com o que os outros vão pensar. Apresentei para vocês meus dois grandes estalos sobre esse assunto:

  • Não se pode agradar a todo mundo e
  • Não requer esforço se você agrada a alguns naturalmente.

Uma coisa que eu ainda não tinha contado é que cheguei à conclusão de que se importar com a opinião dos outros é egoísta. “Mas Débora, como assim? Se eu estou preocupado em agradar como isso seria egoísta?”. Vamos lá:

  1. Estou preocupada com o que vão pensar de mim;
  2. Faço as coisas — ou pelo menos tento fazer — de uma forma que possibilite agradar aos outros;
  3. Quando agrado, provavelmente provoco no outro a reação de “nossa, a Débora é tão legal” (ou algo similar a isso).

Sejamos honestos: você está mais preocupado consigo mesmo. Isso é egoísmo. Calma que nem todo egoísmo é ruim (embora eu ache que esse é péssimo, por ser velado e no final das contas te atrapalha infinitamente mais do que te ajuda). Quer o exemplo de um bom egoísmo? Fazer o que combina mais com você e que vai te fazer bem, desde que isso não traga consequências negativas graves sobre outra(s) pessoa(s). Em tempo: o outro ficar com raivinha de você não é uma consequência negativa grave para ele! Nem deveria ser para você.

Importar-se verdadeiramente com os outros

Esse é o jeito bom! Agora vou voltar ao ponto que trouxe esse texto à tona: minhas experiências na viagem ao Peru — mas também vou acrescentar de outros momentos.

Quando estávamos em viagem — eu e a Marcella, que também escreve aqui — percebi uma grande preocupação minha em não atrapalhar os outros. Estávamos prontas no horário que supostamente a van iria nos buscar; voltávamos para o ponto de encontro sempre alguns minutinhos antes do horário marcado; prestava atenção se não tinha deixado lixo dentro do veículo, nas mesas etc.; não conversava muito alto, porque sempre tem alguém dormindo e por aí vai.

Em contrapartida, observei esses descuidos dos outros: turistas que voltavam para a van na hora que bem entendiam, atrasavam o circuito e provocavam que tivéssemos uma permanência menor no próximo ponto visitado; no avião, um homem achou que tudo bem dormir encostado na traseira da minha poltrona, jogando todo o peso dele sobre as minhas costas; na viagem de trem, uma mulher resolveu cruzar as pernas e me chutar diversas vezes enquanto pedia desculpas, mas não alterava o comportamento.

Vou dar mais exemplos, sou cheia deles. Em qualquer viagem que tenha feito, pessoas que entram na frente da minha foto ou que não saem nunca e não permitem espaço para que em algum momento eu e outras pessoas possam fotografar. Um vizinho que tocava bateria à noite e fazia o batuque reverberar no meu teto, embora tocasse a bateria com fones de ouvido. Uma república logo acima do meu apartamento que fazia festas de madrugada. Gente que conversa pelo celular no cinema. Gente que fala alto em qualquer lugar. Gente que não arreda para o fundo do ônibus, impedindo que mais pessoas entrem. Gente que não devolve troco errado que veio a mais. Em suma: pessoas que agem como se elas fossem as únicas que existissem no mundo.

Não quero de forma alguma dizer que eu sou perfeita e sempre antenada para não incomodar os outros. Nós sempre temos a chance e provavelmente a agarramos em alguns momentos de ser o incômodo de alguém. Mas acredito na importância de fazer o esforço empático de se lembrar do fato de que existem outras pessoas ao nosso redor.

Sobre os exemplos que eu dei, pedi para cessarem o incômodo que me causavam ou demonstrei isso com expressões de desagrado — e sim, tem gente que fica sem graça e para e tem aquele que intensifica só pra te encher o saco. Meu ponto é: essas pessoas não deveriam me tratar bem para evitar que eu pensasse mal delas — porque eu pensei! Elas deveriam me tratar bem pois é assim que tratamos uns aos outros. Digo e repito: o melhor jeito é se importar verdadeiramente com o outro. Ser empático. Isso sim é altruísmo.

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O sangue que corre em nossas veias

O sangue que corre em nossas veias

Eu fiz uma viagem ao Peru com a Débora aqui do blog, mais especificamente para os arredores de Cusco e Machu Picchu (aprendi que se diz “mátiu píquetchu”). Foi uma ótima oportunidade para aprender mais sobre o Império Inca e conhecer uma das Sete Maravilhas do Mundo Moderno. Mas por incrível que pareça, uma coisa me incomodou durante toda a viagem.

Em nossos passeios e contatos com os peruanos, eu observava o orgulho que todos sentiam dos seus antepassados e como o povo ainda mantém a cultura inca presente no dia a dia: seja nos hábitos, nas vestimentas, no diálogo (a segunda língua do Peru é a Quechua, língua que era falada pelos Incas) e até na estrutura dos monumentos e casas, onde ainda havia vestígios das construções incas. Tudo isso me fez pensar que eu não sei muito sobre nossas origens e acredito piamente que grande parte do povo brasileiro não saiba.

Nossa origem nativa

Há um tempo, conversei com meus pais sobre meus antepassados. Sei que por parte de mãe tenho ascendência portuguesa e indígena; já por parte de pai, tenho ascendência negra (meu avô, infelizmente falecido, disse que uma de suas bisavós foi capturada a laço. Bem horrível). Mesmo com essas informações, nunca mais quis saber a fundo sobre a minha própria origem (indígena, negra e até mesmo a portuguesa), e por consequência, o que de tradições eu poderia manter em respeito aos meus antepassados.

Claro que esse resquício de vontade de saber sobre nossos antepassados não é nada parecido com as pesquisas de historiadores, antropólogos e sociólogos sobre a origem do povo brasileiro, já que o Brasil é um dos países mais miscigenados do mundo (índios, os negros vindos da África, os colonizadores portugueses e diversos imigrantes: franceses, holandeses, italianos, japoneses, alemães, entre outros).

O grupo de pop Rouge é um retrato da miscigenação do Brasil. (Foto/Divulgação)

Olhando para trás, vejo inúmeras consequências negativas de como a invasão europeia se deu em nosso país e acredito que esse nosso desinteresse pelas culturas indígenas seja uma delas. Mas quero me portar de um jeito diferente, então, fiquei curiosa para saber mais detalhes sobre elas.

Já tinha ciência de que existem órgãos como a Funai (Fundação Nacional do Índio) e o Ipan (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) que fornecem dados diários sobre a situação atual. Mas durante minha rápida pesquisa, relembrei de um livro/documentário que um professor de faculdade utilizou bastante nas aulas de História do Brasil: “O Povo Brasileiro – A formação e o sentido do Brasil”, do antropólogo Darcy Ribeiro. Ele fala sobre como foi a chegada dos portugueses e a brutalidade da formação do povo brasileiro com a colonização.

Ainda nas minhas pesquisas, me deparei com esse vídeo super didático do Canal do Slow a respeito dos primeiros “brasileiros” no continente americano. Foi uma grata surpresa, porque não existem muitos materiais que expliquem tão bem e de forma tão simples sobre esse assunto. Segue o vídeo:

Utopia?

É claro que essa pequena pesquisa que fiz é ínfima em relação ao tanto de informação que existe sobre a questão indígena no Brasil. E tenho ciência de que o que inseri aqui não é nada perto do que merecem de visibilidade. Hoje mesmo, estamos vendo ao vivo e a cores o que o atual governo está fazendo em relação às propriedades indígenas e com a Floresta Amazônica, sinalizando o tamanho desrespeito com todos os povos existentes no Brasil. É de dar vergonha, afinal estudos demonstram a importância dos indígenas na manutenção das florestas.

Índia da tribo Awá Guajá, do Maranhão. (Foto/Fiona Watson)

E diante disso tudo, volto para o meu incômodo durante a viagem ao Peru e penso como algumas coisas no Brasil poderiam ser diferentes. Já imaginou se todos falássemos, além do português, alguma língua indígena como o tupi-guarani? Segundo o IBGE são mais de 200. E se nossos feriados fossem datados de acordo com cada religião-cultura indígena? Ou se fôssemos devotos dos costumes e crenças de cada tribo, ou se as tratássemos com a mesma importância e respeito que as do cristianismo? Como o Brasil seria?

Para a maioria dessas perguntas eu não sei a resposta, mas quanto ao respeito, ainda dá tempo de fazer alguma coisa e mudar a forma como enxergamos os povos indígenas. Seja pesquisando sobre as tribos ainda existentes ou até mesmo visitando-as. Porque a casa é tão deles quanto nossa. E o sangue que corre nas veias deles é o sangue que corre em nossas veias também.

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Antes de melhorar, piora

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Se alguém fizesse uma coletânea das frases que eu mais falo, posso te garantir que o título desse texto seria uma figurinha carimbada. Falo para os outros e para mim mesma, de modo a tentar gerar coragem para enfrentar a vida com suas delícias e percalços. Portanto, já te aviso que antes de melhorar, piora, mas há esperança e falaremos sobre isso!

Por que fazemos o que fazemos

Não tenho uma resposta super elaborada para te dar o porquê, na verdade, a essência do motivo de fazermos o que fazemos habitualmente é bem simples: porque aprendemos a agir assim.

Skinner, um proeminente psicólogo behaviorista, defendeu que o comportamento é produto de três níveis de variação e seleção. São eles: filogenético, ontogenético e cultural.

Vamos falar rapidinho sobre cada um:

  • Filogenético: refere-se ao nosso arcabouço biológico e genético, é o que herdamos;
  • Ontogenético: abarca o desenvolvimento comportamental do indivíduo, dadas todas as suas interações com o meio;
  • Cultural: esse nível de seleção compreende as variáveis ambientais mais amplas que influenciam os indivíduos. Por exemplo, a economia, a política, as questões culturais próprias do ambiente.

Diante disso, eis o que você precisa saber: esses três níveis interagem e o resultado é o conjunto de comportamentos que você aprendeu e apresenta. A tendência é repetir esses modos de agir. Dá para quebrar a sequência repetitiva se você se propuser a aprender algo diferente no lugar do que normalmente faz. Também é necessário criar as condições para que esse aprendizado comportamental aconteça.

Por que temos dificuldade (ou medo) de mudar, mesmo desejando as mudanças

Pelos mesmos motivos que te expliquei ali em cima. Nós aprendemos nossos comportamentos em determinados contextos que incluem nossa genética, história pessoal e cultura. Tendemos a repeti-los porque são nosso modo conhecido, garantido e seguro de interagir com o mundo.

Eu costumo brincar com os meus clientes:

Como será para você se eu começar a conversar em [insiro uma língua que eu sei que a pessoa não sabe, como alemão, por exemplo] contigo?

O cliente obviamente responde que não vai conseguir continuar a nossa conversa por não dominar o idioma. Essa pessoa não tem repertório nessa língua específica. Mas tem em outra, que é a que ela aprendeu a usar. Para dominar outro idioma o estudante teria que fazer um esforço consciente, programado e contínuo. Além disso, precisaria arriscar essa nova habilidade num contexto de insegurança, por ser novo.

Penso que assim fica mais claro por que temos dificuldade/medo de mudar, mesmo desejando as mudanças. A nossa forma de agir, embora incômoda nos aspectos em que se desejam as alterações, volto a dizer, é conhecida, garantida e segura. Os resultados dos nossos comportamentos-padrão são suficientemente previsíveis para nós. Outro ponto é que nossas atitudes nos trazem benefícios ou nos livram de problemas, ainda que não tenhamos essa percepção clara.

Mas por que antes de melhorar, piora?

Antes de melhorar, piora, porque ao tentar mudar algo em nossas vidas — seja lá o que for — isso sempre vai afetar o nosso comportamento. Por exemplo, se você se muda de casa isso vai afetar os seus trajetos habituais. Se você começa um novo curso, isso vai alterar sua rotina considerando as outras atividades. Se você altera a sua alimentação, vai mudar os seus hábitos em relação à comida. Percebe?

Não é confortável agir de um jeito ainda desconhecido. De uma forma cujos resultados não são tão previsíveis quanto os anteriores. E, especialmente, de uma maneira na qual você ainda não é “fluente”. Isso significa ter que fazer esforços deliberados para se comportar de um jeito X, sendo que você já é fera no Y. Já vou te falar que há esperança, mas antes só quero dar mais um aviso:

Se envolver outras pessoas piora ainda mais

Como somos seres sociais, é muito comum que uma mudança em nós influencie a vida de mais alguém. Não é uma regra, não é uma coisa que necessariamente vai acontecer, mas com outras pessoas envolvidas a mudança pode ser mais difícil.

Vamos pensar juntos: quando interage com alguém, você se torna contexto para o outro. E vice-versa, numa interação contínua, sistêmica. Sabe quando mãe reclama que faz tudo em casa e ninguém ajuda? Pois bem, ela faz tudo porque ninguém “move uma palha”. Enquanto isso, os demais moradores não fazem nada porque aprenderam que já está tudo pronto ou logo ficará. Por que eles iriam se esforçar? Em algum momento, os comportamentos dessas pessoas se estabeleceram assim e para quebrar alguém vai ter que começar a agir diferente.

Sigamos com nosso raciocínio. A(s) pessoa(s) que interage(m) com você vai(vão) reagir mal às suas mudanças, dificultando-as, se você agir habitualmente de maneiras que de alguma forma, mesmo que indireta:

  • Geram algum benefício a ela(s) ou
  • Impedem ou minimizam um prejuízo a ela(s).

Vale ressaltar que muito do que estou descrevendo costuma representar processos inconscientes. Isto é, essas relações muitas vezes não são realizadas deliberadamente pelas pessoas envolvidas. Para ficar mais claro: o que eu quero dizer é que não necessariamente quem reagir mal à sua mudança fará isso de propósito.

Fica aqui o alerta: quando quiser mudar algo na sua vida, pense em como isso vai afetar as pessoas ao seu redor e prepare-se como puder para os impactos.

O que fazer então?

“Mas Débora, se mudar é difícil por tendermos a viver numa eterna repetição dos nossos comportamentos e, além disso, ainda pode ter gente que vai agir contra (talvez sem saber) por participar da interação comigo, como diabos eu vou implementar alguma mudança?”

E eu te respondo: lembre-se que antes de melhorar, piora, mas a situação desconfortável não é permanente. Ela é transitória. Se você aguentar um pouquinho mais, vai ter tempo suficiente para transformar o estranho, o novo, em familiar.

Quanto às pessoas envolvidas de alguma maneira nas suas mudanças, tenha paciência. Lembre-se de que se você precisa de tempo, elas também. Com persistência nos seus novos comportamentos, as pessoas próximas a você que te querem bem em um dado momento vão perceber, entender e irão se adaptar.

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O vazio que faz bem

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Eu posso apostar que você leitor está vivendo numa constante miríade de informações, responsabilidades e relacionamentos. E todas essas coisas provavelmente estão a 120 km/h. Mas eu tenho certeza que não é só você que passa por isso, é muita gente passando por essa situação, incluindo eu mesma. 

Viver assim, em pressão constante por todos os lados, nos acarreta uma série de problemas: não é à toa que a depressão e a ansiedade são os males do século XXI. E é por isso que constantemente temos a necessidade vital de momentos de pausa para respirar.

É bem verdade que o mundo não vai desacelerar só para que você pare um pouco para organizar as ideias e ter fôlego para continuar nessa velocidade maluca que nossa sociedade exige. Mas é importante lembrar que a pausa é necessária para que tudo, absolutamente tudo funcione. Porque é assim que as coisas ficam em equilíbrio. Para entender melhor por que a pausa é tão importante, vou trazer aqui um conceito bastante interessante da cultura japonesa, o Ma.

O Conceito de Ma

O Ma, segundo o blog Coisas do Japão, é uma das leituras do ideograma 間, portão/portal/porta ( 門 ) e sol ( 日 ). Quando pensamos em uma porta, normalmente o que vem em nossa mente é a imagem do objeto. Mas a questão é ir além. O que faz da porta ser uma porta? A resposta é: o espaço vazio. 

A função do Sol — sem entrarmos na questão científica — é aquecer e iluminar o mundo. A junção dos dois ideogramas sugere um tempo-espaço para observar o que o sol ilumina. Em outras palavras, o Ma é um espaço vazio, uma pausa, um intervalo de contemplação que dá um sentido mais pleno para a quarta dimensão, o tempo.

E este conceito está presente em diversas outras expressões se pararmos para pensar. Para entender melhor, li este artigo da arquiteta Michiko Okano, onde ela diz que essa estética distinta, “implica a valorização, por exemplo, do espaço branco não desenhado no papel, do tempo de não ação de uma dança, do silêncio do tempo musical, bem como dos espaços que se situam na intermediação do interno e externo, do público e do privado, do divino e do profano ou dos tempos que habitam o passado e o presente, a vida e a morte”.

Um tempo atrás, assisti a um vídeo que fala justamente de como o cineasta japonês Hayao Miyazaki, utiliza do conceito de Ma em suas obras. Como ele introduz, por exemplo, pausas pontuais na narrativa de suas animações, de forma tal que o espectador se torna um observador.

Imagem icônica da animação ‘Meu Vizinho Totoro’, em mais um exemplo de Ma. (Reprodução)

Caso você não conheça, recomendo assistir aos filmes “A Viagem de Chihiro”, “Vidas ao Vento”, “O Castelo Animado”, entre muitas outras animações do Studio Ghibli, responsável por implementar essa característica única, peculiar e maravilhosa, eu posso dizer.

Fique “de altas!”

O Ma representa um intervalo ou um vazio necessário. É um momento de reflexão, compreensão e preparação. Ele pode estar nas pausas das conversas e no nosso jeito de encarar os hiatos da vida.

Então, pare.

O poder de fazer uma pausa tem sido muito investigado. Pausas não apenas promovem o relaxamento, mas também refrescam e reenergizam por horas. Ter tempo para ficar calmo e quieto dá ao seu sistema nervoso a chance de recuperar o equilíbrio.

Tony Schwartz, autor do livro The Energy Project, afirma que “os seres humanos têm melhor desempenho e são mais produtivos quando se alternam entre períodos de foco intenso e renovação intermitente”. Então é de extrema importância fazer pausas pontuais quando tudo é correria. Preste atenção nos entremeios, porque faz bem esse intervalo entre ocupações. Porque essa pausa é o vazio que faz bem.

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Você é um introvertido e só quer ir para casa

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A história pode e irá se repetir num sábado qualquer. Imagine: já é quase noite e você está em seu quarto, debaixo das cobertas, lendo um livro sensacional ou assistindo a um filme que poderia nunca acabar de tão bom. Seu gato está deitado ao pé da cama, um tipo de troféu que representa toda a situação feliz. Só falta algo gostoso para beliscar e você já ensaia uma incursão à cozinha quando, do nada, surge a mãe revoltada — pode ser o pai, a irmã mais velha, a tia-avó — querendo saber por que cargas d’água um(a) jovem está em casa em pleno final de semana, por que não sai com os amigos, por que não arruma um(a) namorado(a), por que passa tanto tempo enfurnado em casa, por que não desliga o computador e por aí vai.

O gato se levantou e agora você não sabe se vai conseguir o petisco na cozinha. Também esqueceu em qual parágrafo do livro estava. Pode ter que retomar o filme de onde parou, isso se conseguiu congelar a imagem e não está tendo pequenos spoilers graças ao parente que te fez sentir mais uma vez a grande ovelha negra no mundo das ovelhinhas de algodão, aquelas que consideram a morte ao não sair de casa num sábado à noite.

Introversão

Se a situação descrita acima soou um tanto familiar, talvez você seja uma em cada duas ou três pessoas no mundo que são consideradas introvertidas. Isso mesmo. Susan Cain, autora do ótimo O poder dos quietos, diz que de um terço à metade da população mundial pode ser considerada introvertida. É bastante gente numa sociedade que quer porque quer recompensar desde cedo apenas os que estão sempre prontos para socializar, os que gostam de fazer networking, que se entediam muito ao não fazer nada, os que são figurinhas fáceis em todas as festas, os que saem de casa nem que seja só para ver gente.

Mas que diabos. Já passei por inúmeras situações chatas por não compactuar com o ideal da extroversão. Eu sou um introvertido de carteirinha e estou aqui hoje para apresentar 4 coisas que introvertidos sempre escutam e que precisam de resposta:

1. Você tem que sair de casa e deixar de ser antissocial!

Não, não preciso sair de casa.

Para mim e para o você hipotético ali do início do texto, não há coisa melhor que curtir um bom livro ou um bom filme em nossos respectivos cantos. Passar horas desbravando o mundo aberto de algum jogo no computador também é ótimo. Perfeição seria fazer isso tudo enquanto chove lá fora. Mas isso não quer dizer que não gostemos de pessoas, só apreciamos a coisa em doses menores. Preferimos a companhia de poucos amigos ao grande evento lotado de indivíduos do trabalho ou da faculdade. Não sei se há um nome para aquele misto de culpa e alívio ao conseguirmos sair de uma festa qualquer. Festa esta que basicamente só comemos, conversamos com as pessoas que já conhecíamos e que estavam perto do lugar que escolhemos para sentar e, na maior parte do tempo, ponderamos se já era um bom momento para ir embora. Porque realmente cansa a interação cavalar e fora da nossa concha. E o mais importante: introvertidos não são antissociais. O comportamento antissocial é aquele que de alguma forma vai ferir pessoas ou ferrar com o bom funcionamento da comunidade. Um cara que chuta cachorrinhos na rua ou que joga pedras nas janelas do vizinho é um antissocial. Alguém que recusa convite atrás de convite para a baladinha top não está fazendo nada além de preservar energia para outras coisas, pois um introvertido precisa mesmo recarregar baterias depois de interações. A Netflix só é o que é hoje em dia porque nós existimos.

2. Você deve ter algum problema para gostar de tanta solidão.

Talvez do mesmo jeito que o extrovertido ache uma porcaria ficar sozinho, eu ache uma grande e fedorenta merda estar dentro da boate barulhenta e apinhada de seres humanos. E é aqui que devemos diferenciar outras duas coisas importantes ao falarmos sobre introversão: solidão e solitude.

Solidão é algo muito ruim de ser sentido por qualquer pessoa. Alguém pode estar na boate barulhenta e apinhada de seres humanos, mas estar completamente só. A solidão é imposta às pessoas, faz com que elas não se sintam importantes para ninguém ou relevantes para o mundo. A solidão dói, porque a sensação é de punição por sermos apenas nós mesmos.

Já a solitude, por outro lado, é algo bom de ser sentido. Nela você também está só, mas por sua escolha. São em momentos de solitude que o introvertido recarrega as energias, entra em contato com todos os seus pensamentos e planos e questionamentos. É quando pode estar com ele mesmo e trabalhar sua criatividade, repensar e reforçar seu modo de enxergar o mundo, a vida e sua relação com os outros. Sem tais oportunidades é muito comum que o introvertido desligue, fique embotado para todo o resto. Perdi o número de vezes que disse“não quero sair de casa hoje, já saí ontem”, exatamente para preservar a solitude necessária para continuar funcionando.

Então, não. Eu não tenho um problema por gostar de ficar sozinho. Até um extrovertido precisa de momentos de solitude.

3. Mas você é estranho. Não fala nada.

Bem, eu poderia sempre devolver essa com um “e você que não cala a boca?”, no entanto outra característica comum em introvertidos é pensar muito antes de falar qualquer coisa. Agir assim resulta em bastante silêncio e observação, ou vice-versa. Daí o monte de gente confundindo tanta ponderação com mau humor ou achando que somos tímidos. É inegável que podemos ser, sim, muito acanhados, mas timidez não é condição sine qua non para a introversão. Inclusive algumas pessoas podem se surpreender com a verborragia de um introvertido sobre determinado assunto, só não esperem a mesma empolgação para conversar sobre picuinhas. Gastar tanto tempo em solitude para ter que debater sobre o clima ou sobre a última separação das celebridades é de doer.

Em geral acham que os introvertidos são estranhos porque não falam nada, mas passam de estranhos a uns chatos depois que tentam transformar uma conversa trivial em algo muito maior e profundo.

4. Você poderia fazer um esforço para ser mais agradável.

Será?

Engana-se quem acha que aos introvertidos estão reservados apenas os papéis subalternos em um mundo moldado para os extrovertidos. Muitas personalidades internacionais, das mais variadas áreas de atuação, ao contrário da expectativa de várias pessoas, foram e são introvertidas. Nós somos considerados ótimos ouvintes, escritores, planejadores e possuímos grande aptidão para insights. Podemos ser grandes oradores e líderes — Bill Gates está aí como prova. Claro, não há uma regra para isso tudo e não estou puxando sardinha para o meu lado, mas algumas características comportamentais facilitam bastante o alcance de algumas habilidades. Uma pessoa presa por vontade em um universo só seu pode ajudar na resolução de problemas antes considerados complexos até mesmo para um grupo considerável de trabalho.

O fato é que me recuso a tentar ser agradável, pois isso no fundo significaria ser algo que não sou: um extrovertido. Já é bem difícil ser o cara que escolhe O Escafandro e a Borboleta em detrimento de Velozes e Furiosos como filme a ser assistido entre primos de terceiro grau. Já foi muito pesado ter que fingir interesse por algumas coisas só para não ser um estraga-prazeres. Muitas vezes me senti envergonhado e tendo que pedir desculpas por ser um introvertido. É quase como se a humanidade fosse construída para um fim extrovertido, com tipos de felicidade que só se encaixam em vidas extrovertidas, só que na prática isso é uma grande balela. Minha solitude, meus livros, meus filmes, meus dias chuvosos e todas as conversas que tenho comigo mesmo e não compartilho com tanta facilidade, tenho certeza, essas coisas têm valor. Assim como sei do imenso valor das habilidades que extrovertidos possuem e que eu nem passo perto de ter.

O que pretendi com este texto foi compartilhar um incômodo que às vezes vejo muitas pessoas ao meu redor também sentindo, mas não sabendo colocar em palavras. Aliás, não só compartilhar o incômodo, mas desnudar um preconceito bobo que ainda deve persistir. E dizer ao final:

Não é tristeza, não é raiva, mau humor ou depressão. Você é um introvertido e só quer ir para casa.

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Mas eu me mordo de ciúme

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Algo que me intriga bastante são os relacionamentos amorosos permeados por uma dose de ciúme. Fico intrigada por ser uma coisa que não consigo sentir, mas também pelo fato de que não vejo o porquê disso estar presente entre pessoas que supostamente se amam.

Quer dizer… há tentativas de explicação científica, diferenciação dos motivos do ciúme da mulher e do homem evolutivamente falando, a história de vida de quem sente ou provoca ciúme nos outros (já escrevi sobre isso antes)… De forma analítica, eu entendo muito bem o que leva as pessoas a sentirem ciúme, inclusive trabalho muito com esse tema em consultório. Mas continuo pensando que é desgaste demais se manter em uma relação íntima de insegurança, caso não seja possível modificá-la para melhor.

Relacionamento deveria ser uma coisa boa

Toda vez que eu penso em relações interpessoais — de todo tipo: familiares, amizades, amorosas, de trabalho, comunitárias etc. —, já me vem logo à mente que é algo para ser bom. Uma pessoa contribuir com a outra da forma que lhes couberem. Uma pessoa fazer bem à outra quando e como for possível.

Infelizmente, nem sempre dá para ser assim. Costumo dizer que algumas relações são sorteadas. Por exemplo, tendemos a escolher nossos amigos, mas não dá para selecionar quem é parente e geralmente não é possível determinar quem serão seus colegas de trabalho. Dentre as relações “sorteadas”, é possível se desfazer de umas, mas não de outras. Vamos supor que você adore seu trabalho, mas tem um colega péssimo. Será necessário encontrar alguma maneira de tolerar essa situação, já que você não irá abrir mão da sua função e a saída do colega não depende de você.

Um relacionamento amoroso não precisa entrar na gama dos sorteados. Outra coisa que eu sempre digo quando tenho a oportunidade é que o primeiro encontro é para saber se você quer ter o segundo e assim sucessivamente. Estar com alguém tem que ser sim uma escolha.

Relacionamento não é sobre posse

Já adianto que se for, está errado! Uma pessoa não se torna dona da outra porque estão juntas. Ou pelo menos, não deveria se tornar. Para mim, aí começa essa história do ciúme: “preciso manter o que é meu”. A pessoa começa a associar a ideia de que “se eu faço esforço para que Fulano(a) continue comigo, ele/ela irá permanecer”.

Vamos pensar juntos:

  • Você realmente quer um relacionamento cuja continuidade depende de que você fique se esforçando para cercar a pessoa para que ela não faça nada de “errado”?
  • Você acha que tem algum valor a pessoa só não fazer nada de “errado” porque você a cercou?

Não tem valor se é policiado

Caso você ainda não tenha conseguido responder às duas perguntas que fiz acima, segue uma frase cômica adaptada que achei na internet (perdoem-me por não ter encontrado a fonte para dar os créditos) que talvez ajude a pensar:

O que mantém o gado no pasto é a grama, não a cerca.

Não sei você, mas eu prefiro que meu marido esteja comigo porque ele me acha legal, gosta da minha companhia, da forma como eu penso, das ponderações que levanto, de como contribuo com a vida dele e até das minhas chaturinhas. “Deus me dibre” da “obrigação” que o ciúme traz de ficar checando o tempo todo se ele não está com outra para garantir que está comigo. Que ele está comigo eu já sei. Faço a escolha de preferir aproveitar a companhia.

É sobre confiar no outro

Pode ser que eu ainda não tenha conseguido te convencer com o meu jeito good vibes de encarar relacionamento: “Ah, Débora, mas e se eu não vigiar e ele/ela fizer alguma coisa desaprovável?”. Eu te digo o seguinte: quem quer fazer m*rda, faz.

Primeiro porque não tem como você controlar tudo. É humanamente impossível. Quer mais uma paranoia pra sua cabeça para que eu prove meu ponto? Se eu quisesse demais esconder algo do meu marido, teria um número e aparelho de celular somente para as coisas escondidas e deixaria esse aparelho no meu consultório, local que o Marcos não frequenta. Ou seja, pode não valer nada seu esforço de se esgueirar e olhar o telefone do outro quando ele estiver tomando banho ou dormindo.

Segundo porque a pessoa que já foi controlada fica cada vez mais esperta — se ela for inteligente — para escapar nas próximas vezes. Ela já sabe o que a entregou, então vai se antecipar para que a mesma coisa não a entregue novamente. Eu digo que ela fica mais criativa.

Por fim, como já falei acima, não tem valor se a pessoa só não faz m*rda porque é policiada. Isso quer dizer que no momento em que o seu controle afrouxar ou não for possível existir, ela escapole por entre os dedos. Sério mesmo, você quer um relacionamento custoso assim? Em que você acha que o outro está contigo porque você cercou as possibilidades de que ele ou ela vá embora?

Por isso digo que é sobre confiar no outro. Não depende do seu controle, depende da índole do seu parceiro. Se ele vier a te trair isso diz muito mais sobre ele do que de você. Ele não traiu porque você não era suficiente. Ele traiu porque foi covarde e não soube reconhecer o momento de terminar o relacionamento — no melhor dos casos. No pior, traiu porque é uma pessoa sem caráter que quer tirar vantagem, a despeito dos sentimentos da pessoa que está com ele. Nunca se culpe pelas coisas ruins que fizeram com você! Responsabilize quem agiu mal. E depois disso, por favor, siga a sua vida. Pra frente.

Para fechar essa parte, vamos a uma analogia. Imagino que você não aceite pegar estrada, especialmente se for uma viagem longa, com qualquer carro. Sem revisão. Caindo aos pedaços. Afinal de contas, você pode sofrer um acidente. Dessa forma, você vai escolher um bom carro, passar pela revisão, ter todos os documentos em dia, não é mesmo? Essa parte é a confiança no outro. Assim como você não pega estrada com qualquer carro, não deveria compartilhar a sua vida com qualquer pessoa. Escolha alguém que te pareça confiável.

Mas também é sobre confiar em si mesmo

Agora entra a parte que eu acho mais interessante da história: não é só confiar no parceiro, tem que confiar em si mesmo também. É a velha história de ter uma boa autoestima. Vai ficar mais claro quando seguirmos com a nossa analogia do carro. Vamos lá!

Seu carro para pegar estrada é ótimo. Mas… não adianta nada se você não sabe dirigir ou não sente segurança para conduzir. Nesse caso, você teria medo e desconfianças do mesmo jeito.

Por isso é tão importante que você saiba e se lembre de que é uma pessoa legal e que seja lá quem for que está com você tem sorte de desfrutar da sua companhia. Entender que há pessoas que vão combinar mais com você do que outras. E principalmente saber o quanto vocês são bons juntos, mas também funcionam de forma avulsa quando convém a cada um. Se não for para ser assim, deixo honestamente uma pergunta: por que ser então?

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Reflexão

Por que o lazer precisa ter um espaço definido na sua agenda

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Vivemos em uma cultura que valoriza trabalho muitas vezes de forma massacrante e se esquece do lazer. A noção de sucesso vem atrelada à correria, produção e esgotamento. Um profissional visto como bem-sucedido — devo avisar que não por mim! — é aquele que não tem tempo, que almoça na mesa de trabalho, que sai depois de 21h do escritório. Fico pensando quando essa pessoa usufrui do dinheiro que produz ou até se recebe o correspondente ao tanto que se dedica.

Penso que as coisas já não eram boas, mas pioraram um pouco com as startups. Só porque há um videogame ou uma sala de descanso com pufes coloridos na empresa não quer dizer que as pessoas vão se sentir à vontade para utilizá-los. Geralmente vão ficar preocupadas com as metas a cumprir e o videogame apenas vai fazer parte da imagem cool do local. Nota: pessoas que atendo que trabalham nesses locais costumam precisar identificar em terapia o quanto realmente deveriam trabalhar. Sentem-se ansiosas com as metas e como a coisa é muito livre — sem horário para entrar, por exemplo — acabam ficando também sem horário para sair. Torna-se uma liberdade que aprisiona por outras vias se a pessoa não estiver atenta aos próprios limites.

A noção de ser “útil” se mistura com “trabalhar”

Percebo frequentemente essa confusão: as pessoas pensam que sentir-se útil tem a ver com estar trabalhando. E quando essa relação trabalhar = ser útil se repete muito, um significado cola no outro com mais força. A pessoa torna-se uma tarefeira, porque é a única maneira que passa a se sentir “bem” já que o que não for considerado trabalho é visto como tempo inútil, improdutivo. Depois ela começa a colar esses rótulos em si mesma.

O que é entendido como trabalho vai variar para cada um. Tem gente que acha que é somente aquilo que produz dinheiro como consequência. Há outros que entendem que trabalho pode produzir também diversos tipos de resultados que não monetários. Algumas pessoas pensam que é uma tortura, outras que é o maior significado que temos na vida. Há quem coloque estudo dentro da categoria trabalho e por aí vai.

Um prato cheio para a ansiedade

A partir do estabelecimento dessa relação em que nos sentimos úteis somente quando estamos trabalhando (cada um com sua noção do que isso seria), a ansiedade tem espaço de sobra para operar. Já cansei de ver pessoas que se sentem ansiosas justo quando estão em seus momentos de lazer e descanso. Não sabem o que fazer com o próprio tempo ou ao escolher algo para se dedicarem têm a percepção negativa e incômoda de que estão sendo “inúteis”.

Se nossa rotina prioriza demais fazer somente aquilo que está delimitado, que é obviamente necessário — como as obrigações do trabalho, de cuidar de casa, de filhos e afins — quando temos tempo livre, ficamos perdidos. Como preencher? Como saber o que traria satisfação?

Uma coisa é fazer algo que você deliberadamente sabe que não gosta; outra coisa é investir tempo no que você tem memória de gostar e ainda assim não conseguir apreciar a experiência. Sabe o que está acontecendo quando funciona assim? Você está tratando sua vida como se ela tivesse uma área só: trabalho.

A sua vida não é só trabalho!

Com essa ideia finalmente te explico por que o lazer precisa ter um espaço definido na sua agenda: sua vida possui múltiplas áreas e você precisa cuidar bem de todas elas!

Balancear trabalho que gera dinheiro (se for o seu caso), trabalho que gera outros resultados que não monetários, autocuidado, família, encontros com os amigos, investimento de tempo em hobbies, saúde física e mental e descanso é fundamental para uma qualidade de vida adequada, para o seu bem-estar.

Por isso venho insistindo na ideia de que devemos colocar nosso lazer na agenda. Ele tem tanta importância quanto qualquer outro compromisso para que tenhamos uma vida equilibrada. Eu tenho o hábito de usar agenda porque marco com meus clientes e tenho que saber o horário de cada um deles. O costume acabou se estendendo para outros compromissos e resolvi reservar tempos na agenda com o título lazer. Dentro dessa categoria posso escolher o que estiver com mais vontade fazer naquele momento entre diversas opções que me agradem.

Com o tempo reservado na agenda, lembro-me da importância que dou ao meu lazer e descanso e sei que as outras coisas que preciso fazer, especialmente as que chamo de trabalho, também têm seu horário garantido. Descansar e me divertir não vai implicar em deixar de fazer nenhuma das outras atividades que também são importantes, uma vez que está tudo organizado nas suas devidas janelas de tempo.

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CrônicaReflexão

Quando a nostalgia vira saudade…

Quando a nostalgia vira saudade

Eu adoro seguir esses perfis engraçados nas redes sociais. Um dos que eu mais gosto é o da Pomba (se você tem um humor “refinado” como o meu, te aconselho a segui-la aqui, aqui e aqui. É sensacional). Um dia, stalkeando o perfil no Facebook, me deparei com outra conta interligada, a Vó da Pomba, que basicamente é a Pomba (o neto) fazendo hora com a cara da avó.

O que me chamou a atenção nesse perfil, além da relação que a Pomba tem com a avó, é o fato de que a senhorinha sofria de Alzheimer. Mas por que logo isso me chamou a atenção? Porque a minha avó (Dona Lia, que se foi em 2015) tinha uma doença parecida. E todo o relacionamento “entre tapas e beijos” que eu vi no perfil, fez com que eu me lembrasse da relação que eu tinha com a minha avó. E se antes era com um ardor no peito de nostalgia, hoje a lembrança é cheia do quentinho cômodo de muita saudade.

Saudade x Nostalgia

Para entender melhor ao que me referi anteriormente, é importante saber que entendo que os dois termos são diferentes em seus significados, apesar de remeterem ao mesmo sentimento de falta/ausência. Acredito que é muita pretensão minha traduzir o significado de saudade, mas prefiro acreditar que saudade é o lado positivo de sentir falta.

De acordo com esta matéria do jornal digital Brasil 247, foram realizados na Universidade de Dakota do Norte (EUA) vários estudos onde induziram o estado nostálgico em alguns participantes, convidando-os a pesquisar a definição de saudade em um dicionário, pensar por cerca de dez minutos em um episódio de sua vida que despertou esse sentimento neles e relatá-lo por escrito.

Como conclusão, os pesquisadores constataram que, longe de aumentar os sentimentos negativos, a saudade intensifica o bom humor, uma vez que ela é baseada em experiências passadas geralmente felizes. “Embora ela surja muitas vezes em um momento em que o indivíduo sente uma emoção negativa (um sentimento de isolamento ou de vazio), a saudade vem aumentar a auto-estima e promover a ideia que a vida é cheia de sentido”, cita a matéria.

É basicamente a mesma definição que o filósofo Mario Sergio Cortella acredita. Em seu livro Viver em Paz para Morrer em Paz, ele nos diz que na vida “nós devemos ter raízes, e não âncoras. Raiz alimenta, âncora imobiliza. Quem tem âncoras vive apenas a nostalgia, e não a saudade. Nostalgia é uma lembrança que dói, saudade é uma lembrança que alegra. Uma pessoa tem saudade quando tem raízes, pois o passado a alimenta. Pessoas que têm nostalgia estão quase sempre às voltas com um processo de lamentação”

Saudade em Nostalgia

Quanto mais velho você fica, a expressão “no meu tempo era muito melhor” faz cada vez mais sentido. Então é claro que existem muitas coisas que me deixam nostálgica hoje em dia. Como lembrar do companheirismo que eu tinha com minha melhor amiga de infância e perceber que, hoje em dia, nossa relação já não é a mesma. Recordar os momentos de quando morava junto ao meu pai e perceber como era bom quando ele chegava do trabalho, se sentava junto a mim na cama e me fazia cafuné enquanto eu estava fingindo dormir. Ou até mesmo algo bobo como pensar que o cenário musical do Brasil no final dos anos 90/início dos anos 2000 era muito, MUITO melhor e não vai voltar a ser o que era antes.

Como para muitas pessoas, em alguns casos, é ainda um esforço tremendo transformar essas lembranças em saudade para mim. E eu acredito que quando é demais, a nostalgia é muito perigosa. É vivermos de passado. Mas o grande desafio é tornar a sua nostalgia uma saudade. O que te faz reviver aquilo que te torna nostálgico? Como transformar essa memória em saudade, em algo gostoso de relembrar?

Lembrar da minha avó por muito tempo foi nostálgico. Porque doía pensar que o tempo em que vivi com ela era melhor do que viver o presente sem ela. Só que hoje, lembrar de quando ela estava aqui é trazê-la para o presente e senti-la mais perto de mim. Lembrar do cheiro, da textura das mãos, do sorriso, do jeito tímido, das broncas e cascudos de quando eu fazia hora com a cara dela, dos biscoitos caseiros que gostava de fazer, das músicas de igreja que ela gostava de cantar… isso me faz matar a saudade que tenho.

E me faz feliz, não triste.

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Reflexão

Homens com bolas — parte 3 de 3

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A terceira e última parte de Homens com bolas — leia a primeira e a segunda — será a mais curta. Não existem mais os mundinhos da escola, dos amigos e da rua. Virei adulto e há um bom tempo só jogo bola com desconhecidos e semiconhecidos. Alguns ficam mais próximos, mas nada que se compare à felicidade de ter os pés descalços entre amigos e usar chinelos como traves. É bem triste. Sinto que todos com quem troco passes, disputo bolas ou faço tabelinhas hoje em dia também carregam uma bagagem pesada de masculinidade moldada, em grande parte, pelo esporte bretão. O cheiro que senti quando pequeno era o desse monstro que encontro em todas as peladas das quais participo. É bem triste, pois a coisa parece estar já bem consolidada, impossível de ser combatida.

Adultez

Ser adulto e jogar bola é isso: ainda existem os homens que ficam passando a mão em você esperando seu revide masculino, só que eles fazem isso com bem mais frequência. Os grupos de WhatsApp servem para a marcação de locais e horários de jogo, para muita nudez feminina e insinuações de homossexualidade e feminilidade em participantes da pelada. Há também uma piração com vídeos e fotos de acidentes de trabalho e automobilísticos, uma tara por violência e seus resultados que dá nojo. Mas reclamar de algo assim é alimentar o monstro, é a deixa para que digam que “a menina não aguenta” ou que “a senhorita precisa dar meia hora de bunda” em vez de estar ali, entre homens com bolas.

Ser comparado a uma mulher enquanto se joga futebol entre homens sempre, friso, sempre será algo ruim.

Aprendemos isso desde cedo. Daí você entende que a história vai além do esporte e dita os limites do que é esperado de um homem e o que é esperado de uma mulher. Ronaldo Nazário de Lima, quiçá o maior centroavante que existiu, saiu com travestis e teve que se explicar na TV em horário nobre de domingo. Disse que tudo não passou de um grande mal-entendido. Qualquer coisa no futebol que negue a lógica da masculinidade hegemônica é rapidamente decepada. Antoine Griezmann, por exemplo, campeão do mundo com a seleção francesa em 2018, foi capa da revista Têtu Magazine e se posicionou contra a homofobia no futebol, entretanto “Quem é o namorado do Griezmann kkk” era o comentário com mais curtidas na reportagem do portal brasileiro que dava a notícia.

Homens com bolas: até quando?

Ser um homem adulto e jogar bola também é isso: um dos peladeiros recentes, machão pra dar com pau, não perdeu a oportunidade de notar meus dois joelhos ralados por motivos que nem eu sei dizer quais eram, para pedir desculpas: “da próxima vez que eu te botar de quatro, Marcos, você escolhe o tapete em vez do KY’. Ou, ainda, o outro peladeiro, um senhorzinho de propaganda de margarina, dizendo que quando tinha a minha idade também usava um cavanhaque e aquela foi a época que “mais teve boceta para comer”.

É uma quimera. Gigante. E o que fazer?

Do fundo do meu coração, não tenho ideia.

Já considero um esforço enorme manter o discurso contra o troféu da macheza e o espólio dividido entre os homens de cada pelada por aí. Não sou pretensioso, tenho consciência de que não escapo do tal monstro e que devo contribuir de várias maneiras para sua existência, mas o problema é que ser o sujeito esperneando entre seus dedos é exaustivo. Sinto-me fraco, ignorado, homeopático, uma gotinha de água doce num oceano furioso.

Homens não existem

Termino o post com a conclusão que cheguei há um tempo, em outro texto, e tento carregar na mochila da masculinidade, ao lado das chuteiras:

“… não existem homens no imaginário machista. Existem, sim, esses desesperados correndo atrás de um totem impossível, grande, veiúdo e incansável. Arremedos de corpos, arrogantes e hipócritas, covardes e mentirosos. Coitados que dominam a partir da misoginia, que disseminam a ideia de que homens pensam em sexo a cada dois minutos e estão sempre preparados, mas que mulheres não pensam e não fazem. Soldados desesperados e tristes de um exército que rabisca mulheres para retroalimentarem um desprezo sem sentido. Desesperados e tristes, cheios de fobia da coisa não homem, mas não têm um isso de humanidade para compreender que não são melhores que ninguém. Não veem que ser homem significa mais do que provar a todo instante e a todo custo que você consegue ter ereções.”

É isso. Ficou maior do que eu imaginei, falhei com louvor ao tentar deixar isso pequeno, mas se você chegou até aqui, obrigado por ter lido. Segue o jogo.

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Reflexão

Homens com bolas — parte 2 de 3

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Terminei o último post dizendo que o futebol monta o esqueleto de universo masculino. Afirmei e reafirmo: esse esqueleto é um monstro que engole muitos garotos por aí. Desde criança pude sentir o cheiro de algo a ser respeitado, um troço invisível mas bastante rígido e perigoso de ser desafiado. Decidi dividir a coisa toda em três partes e subdividi-la em períodos da vida. Dividir para não ficar enorme, subdividir por pura didática, para mostrar como o inferno da masculinidade piora com os anos que passam e como o futebol, travestido de paixão nacional, é ferramenta ótima para doutrinar um exército de pobres coitados.

Então, de novo: prepare o estômago. E quando digo para preparar o estômago, é porque a coisa é nojenta. Aliás, há grande possibilidade da jornada que vivi e ainda vivo com o futebol tentando me ensinar a ser homem seja algo que compartilhamos de alguma maneira. É um percurso nada bonito e pode sim ditar suas escolhas e comportamentos sociais, além de ditar a do seu filho, do seu namorado, do seu irmão ou marido. Seja lá qual for o seu sexo.

Sigamos, pois, pela efervescência de hormônios e busca de identidade chamada puberdade.

Adolescência

Quando pequeno, como já contei, fui colocado e mantido contra minha vontade num box no banheiro da escola junto com um colega de sala. O autor da filhadaputice foi um garoto mais velho, estrelinha futebolística no turno vespertino. Ele estava acompanhado por um séquito — esse tipo de cara sempre tem um — que zoneava o lugar e fazia muito barulho. Todos riram horrores das insinuações de sodomia infantil que o bully fazia enquanto eu e meu colega saíamos do local completamente embaraçados. Nós dois fomos direto para a quadra onde a promessa era de futebol na aula de educação física.

Então. Voltemos ao meu eu infantil, ainda muito encabulado com o que acabara de acontecer e chegando à quadra principal da escola. Pude ver meu colega, o companheiro do box, iniciar o processo de me ignorar para sempre ao tomar distância e se encontrar com o garoto que num futuro próximo seria a cópia daquele que nos prendera no banheiro. Nunca mais nos falamos, mas está aqui o meu gancho. A memória é verdadeira porque o encontro entre aqueles dois me deixou muito só por um instante — o carinha com quem partilhei uma experiência tosca me virou as costas e foi ter com um outro carinha que, apesar da regra à época ser clara quanto ao uso de regatas para a educação física, estava usando uma novíssima camisa 9 do Clube Atlético Mineiro, modelo infantil do ano de 1994. Eu estava de regatas e obviamente o assunto entre eles era o uniforme atleticano. Ensaiei uma birra temporária, todavia ele fazia por merecer o número, era um artilheiro nato. Houve vários como ele, mas decidi tomá-lo como personagem a ser orbitado aqui por conta dos anos de convivência e por ter ligação com o final do episódio do banheiro. Por necessidade e humor, vou chamá-lo a partir de agora de Pica Boy.

Pica Boy era rei

Pica Boy reunia todas as características necessárias e exigidas de um adolescente no final da década de 90 e início dos anos 2000 para ser o predador no futebol e no mundo masculino, quais sejam: era mais alto e mais forte que a maioria dos meninos; era considerado bonito de acordo com os padrões da Capricho e da Atrevida; fazia escolinha de futebol há anos; tinha o queixo quadrado; era escolhido pelo professor de educação física para definir os times ou era a primeira opção para os times de qualquer esporte durante as aulas; tinha ao menos três meninas num fã-clube velado-nem-tão-velado-assim; não aceitava perder nem meia partida de futebol; vangloriava-se por não ser virgem há mais tempo do que parecia ser possível e ponto. Acho que está bom. É dessa lista — creio que ela não mudou muito com o passar do tempo — que tiro algumas situações.

(Abro parênteses. Após o episódio dos socos na barriga que narrei no post anterior, só parei de jogar bola na rua depois de passados doze anos. Muito mais por falta de quórum e tempo do que por qualquer outra razão. Vi e escutei um sem-fim de coisas enquanto queimava os pés no asfalto, coisas que poderia com certeza contar aqui, mas vou me ater ao que possa estar ligado ao Pica Boy. Vamos lá. Fecho parênteses).

Em determinado momento de minha adolescência, um de meus companheiros de bola na rua e vizinho de muro começou a frequentar os treinos da escolinha de futebol de um ex-jogador que morava perto de nossas casas. Paulo Isidoro, para quem não conhece, foi um multicampeão. Rodou o Brasil, mas fez fama por aqui jogando pelo Atlético Mineiro. Participou também da Copa do Mundo de 1982, integrando aquela que foi considerada uma das melhores equipes de todos os tempos, o que só faz aumentar a vergonha de nossas atuações nos Mundiais de 1986 e 1990. Bem, há tempos Paulo tinha o desejo de ensinar futebol para rapazes e estava finalmente botando seu plano em prática. Eu logo entrei na onda. Alguns dias depois de tomar conhecimento da empreitada, já estava dentro de uma van cheia de garotos uniformizados e empolgados por poderem jogar num gramado marcado com cal e desvendar os atalhos do campo com uma estrela considerável do futebol brasileiro. O negócio é que, meio que sem perceber, depois de algum tempo treinando, digamos que deixei de ser um cabeça-de-bagre qualquer e chamei a atenção do Pica Boy nas aulas de educação física. Resultado: fui convidado por ele a participar de seu time no campeonato interno da escola e, de quebra, ganhei mais uma história sórdida naquele fatídico banheiro.

Masculinidade frágil

Ganhamos o primeiro jogo e estávamos no mesmo lugar onde anos antes eu tinha sido preso num box depois de questionar a utilidade dos chuveiros, já que ninguém tomava banho ali. Qual não foi minha surpresa quando percebi que, sim, usaríamos os benditos chuveiros antes de irmos para a sala de aula? Acho que a noção de higiene pós-futebol fica diferente quando temos pelos nas axilas. No entanto, surpresa maior foi o Pica Boy resolver testar o quão homens eram os primeiros a tomar a ducha gelada. Enquanto os dois estavam lá, nus e sofrendo com a água fria, o macho alfa chegou sorrateiro e seminu por trás de ambos para correr com o dedo médio, de baixo para cima, boa parte da fissura que separava as nádegas dos meninos. O susto foi imediato e os protestos veementes. Era o esperado. O experimento é simples e tem variações mil. É só um grupo de homens de qualquer idade estar junto para que haja tal testagem: uma bunda ou perna mais à mostra e pronto, é preciso passar a mão ou elogiar para que o apreciado possa demonstrar toda a sua indignação por ser tachado como mulher ou homossexual ou simples objeto de desejo de outro homem. Acho que na van lotada de meninos, voltando de alguns treinos, isso chegou a acontecer comigo mais de uma vez, e também acho que vi uma leve ereção dentro da cueca do Pica Boy quando ele tentou repetir o teste com os outros garotos do time da escola. Nós perdemos o campeonato.

E por falar no que havia dentro da cueca do Pica Boy, foram muitas as vezes que tive a oportunidade de ver o que estava ali. Não de caso pensado, mas porque o mundo masculino tem muito disso. Você é obrigado a passar pelas situações para se sentir no direito de replicar qualquer estupidez em qualquer lugar, para que quem passe pela situação se sinta no direito de replicar qualquer estupidez em qualquer lugar e por aí vai, tudo para atestar sua masculinidade. Como naquela vez que estávamos em viagem para alguma cidade histórica mineira e Pica Boy se empolgou com a ideia do seu fã-clube velado-nem-tão-velado-assim estar competindo por ele. O rapaz não conseguia ficar sentado no fundo do ônibus e, não sei como ou o que serviu de gatilho — talvez a efervescência da puberdade —, simplesmente baixou as calças e disse para uma das tietes, com o membro balançando entre as mãos: “eu sei quem tá querendo isso daqui”. Risos de alguns, indecoro para outros. Não sei quem conseguiu aquilo lá, mas sei que ele alcançou o que queria.

Homens com bolas e violência

Para finalizar a adolescência, duas situações ocorridas num mesmo dia, durante — adivinhem só — uma aula de educação física que depois de certa idade parece oferecer apenas futebol para nós, os meninos. Era início de ano e ainda estávamos nos acostumando com as caras novas. Pica Boy já tinha um séquito formado e naturalmente os integrantes de sua equipe coincidiam com a trupe. Eu e alguns amigos mais próximos formamos outro time. Bola vai, bola vem, um dos meus conseguiu aplicar drible previsível mas muito efetivo para cima do Pica Boy. O bambambã ensaiou um pisão no tornozelo dele, no entanto desistiu no último momento. Nada que um escudeiro fiel não resolvesse: antes que o ala do meu time pudesse completar a jogada, levou uma rasteira bem dada e se arrebentou no chão.

A confusão foi enorme.

Muito empurra-empurra, mães sendo citadas e tals, para, no final, o Pica Boy ter o antebraço colocado contra a garganta do meu amigo e perguntar: “o que cê tava fazendo no final do ano, fulano? Estava com a vovó? Pois eu tava comendo boceta”. Por incrível que possa parecer, aquilo funcionou. A cara de cachorro sem dono do meu ala ficou marcada em mim. Quem era ele para desafiar o Pica Boy e sua plateia? Parecia que o argumento “estou comendo alguém e você não” vencia qualquer discussão. Soou muito viril naquele dia e definiu o vencedor da briga generalizada.

Ao que parece, e é o que pretendo mostrar no próximo post, a prova de virilidade era e ainda é tudo o que importa quando você vira adulto e continua a jogar bola.

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