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Crônica

O que é bonito está logo ali, em Júpiter

Primeiro incômodo: o sol. Porque sentar do lado direito do ônibus deveria ser a estratégia perfeita para evitar os raios solares. Até então era, mas hoje não foi. Bizarro. A explicação talvez esteja no horário, pois embarquei uns vinte e cinco minutos atrasado. Sempre achei errado relacionar o verbo embarcar a qualquer meio de transporte que não toque a água. E acabei não cumprimentando meu motorista favorito, vejam só. Esse seria o segundo incômodo, no entanto não será. Vou parecer um velho cheio de manias antes dos trinta e cinco anos de idade e, óbvio, indignação pela mudança de rotinas é um clichezão atribuído a velhos cheios de manias.

Segundo incômodo: o livro. Eu estava lendo o discurso de Orhan Pamuk, escritor turco, enunciado em sei lá que cidade da Alemanha (isso aqui é preguiça de ir até a mochila, pegar o livro, encontrar a página correta e ter certeza da cidade). Ele tinha ganhado um prêmio e tudo, muito merecido por sinal. Ontem, inclusive, eu lia o primeiro discurso, do Pamuk também, proferido quando ele recebeu o Nobel de Literatura em 2006. Quase chorei ao final, porque, cara, eu amo redenção. Redenção é tipo minha morfina (tentei emplacar essa expressão no ensino médio e ela não pegou). Mas o incômodo, o segundo incômodo. O livreto é composto por apenas três discursos do Pamuk. Amanhã lerei o derradeiro e fiquei com receio de agora ser uma pessoa viciada em ler discursos, o mesmo receio que tive numa terça-feira ociosa quando li uns três (cinco) discursos de Malcom X e do Martin Luther King. Eu não tenho mais livros assim.

Terceiro incômodo: o menino. Já acumulava dois incômodos, um combo chato. Aí entrou esse menino e a mulher que aparentemente era sua mãe, mas poderia muito bem ser uma daquelas tias fãs de New Kids On The Block, que vêm de outra cidade e saem com o sobrinho quando não têm nada para fazer nas férias. Sempre há esse tipo de menino (e de tias, e as bandas mudam, claro). O moleque passou pela roleta e falava alto, só que o problema não é falar alto, já que muita gente faz isso em um ônibus. O problema é falar alto para a tia que ainda está na roleta, mas sabendo que está falando para todo mundo ouvir enquanto finge que não sabe que as pessoas sabem que ele está falando para todo mundo ouvir enquanto fala com a tia, ou mãe. Tanto faz. Gostei mais dela como alguém cantando Step by Step em 1991. Aí o moleque, ainda fingindo um diálogo com a tia, — e foi quando virou esse tipo de menino — começou a soltar coisas como “eu tenho um computador com infinitos gigas”, “porque os efeitos especias de Star Wars já foram melhores” e“hoje a lua vai estar com oitenta e oito por cento do seu brilho”. Esse tipo de menino que gosta de ajeitar os óculos mesmo que já estejam grudados na porcaria da sobrancelha, achando que computadores e informações técnicas sobre as coisas, lidas em portais de notícias ou garimpadas em canais de YouTube, transforma-os magicamente em cientistas e em caras mais legais que os outros. Logo, esse tipo de menino, soberbo gratuito, é mais chato do que aqueles moleques que são escolhidos primeiro no futebol e no basquete, ou em qualquer outra coisa nas aulas de educação física. Ele devia ter uns doze anos e tenho certeza (não) que nem olhou para o céu na noite passada e achou um saco a lua sempre avacalhar as pessoas (eu) planejando enxergar Júpiter a olho nu.

Tags : crônicaincômodolivrosmau humorônibusplanetasreflexão

The author Marcos Marciano

Marcos Marciano é um ser humano amador. Formou-se em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais, lê livros por esporte e escreve por falta de vergonha na cara. Ainda não sabe por que a Débora resolveu se casar com ele.