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Conto

À espera do ônibus

Certa vez, quando estava à espera do ônibus que me levaria do trabalho para casa, vi o garoto que se apaixonou por uma flor no asfalto. Ele devia ter no máximo uns seis anos de idade, ou eu quero acreditar que ele tivesse, já que não possuo grande habilidade para definir a idade das crianças hoje em dia. Ele estava caminhando de mãos dadas com a mãe pela calçada do outro lado da avenida Augusto de Lima. Eu esperava o ônibus e eles caminhavam de mãos dadas. Aí, de repente, o moleque se desvencilhou da mãe e correu para o meio da rua, entre os carros, bem na frente de um ônibus.

Acho que o mais desesperador em uma situação como essa é o grito das pessoas. O berro é um catalisador de desastres. O da mãe foi o pior. Acho que se ninguém gritasse, talvez, os motoristas não pisassem no freio com tanta veemência. Mas o menino não foi atropelado pelo ônibus gigante.

Tudo muito mais calmo no final de tarde do centro de Belo Horizonte depois que a mãe recolheu as sacolas da calçada e ofereceu novamente a mão esquerda para o menino, alternando xingamentos e graças aos céus. O aventureiro não deu muito bola, estava absorto com algo na palma da mão que tinha livre, a flor amarelinha que ele arrancara, sei lá, duma rachadura do asfalto.

E eu esperei por mais quarenta minutos pelo meu ônibus.

Tags : ônibus

The author Marcos Marciano

Marcos Marciano é um ser humano amador. Formou-se em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais, lê livros por esporte e escreve por falta de vergonha na cara. Ainda não sabe por que a Débora resolveu se casar com ele.