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CrônicaReflexão

Um raciocínio simples

O raciocínio é simples:

O fato de alguém ser homossexual, preto, judeu, kardecista, mulher, índio, branco, favelado, católico, gordo, soropositivo, homem, evangélico, magro, gago e por aí vai, não deveria ser motivo de zoação. Só que quando misturam qualquer tipo de atitude idiota com futebol, o cérebro de algumas pessoas dá uma bugada. Vêm com “ah, mas é só brincadeira”, ou “cê tá de mimimi porque o seu time perdeu kkk chupa”. Chupar o quê, gente? Um pênis imaginário? Daí isso te daria mais uma razão para me zoar, já que supostamente eu deveria ser hétero e católico?

Pois quando os goleiros vão cobrar o tiro de meta, as torcidas do meu time e do seu time gritam é BICHA, não gritam PAI DE FAMÍLIA ou ESTUDANTE DE MEDICINA. E olha que seriam duas grandes zoações.

Outro raciocínio simples: por que é engraçado chamar um homem de mulher quando o assunto é futebol? Ou insinuar que ele seja homossexual? Por que isso ainda é troça hoje em dia enquanto todo mundo (quase todo mundo) enlouquece quando jogam bananas para jogadores brasileiros na Europa? Não é tudo brincadeira e futebol?

Pois é.

Se você que chama tudo de brincadeira ainda está lendo isso daqui, já deve ter pulado para o argumento do “eu me conheço, eu sou uma pessoa boa e quem me conhece sabe bem como sou, minha mãe é mulher e cruzeirense/atleticana e aceita tudo numa boa”.

Colocando a mãe no meio

Ok, então vamos colocar sua mãe no meio.

Porque na hora que o filho ou filha dela sofreu bullying na escola — já que lá qualquer tipo de segregação ganha esse nome —, a coisa mudou completamente de figura. Quando o filho dela foi zoado por ser preto pelas colegas de sete anos de idade, tudo ficou diferente. Quando a filha recebeu bilhetes anônimos horrorosos por ser lésbica, ou teve o nome rabiscado no banheiro por ter beijado fulano de tal, o mundo da sua mãe caiu. É possível que depois de cada situação dessas sua mãe tenha escutado dos outros pais e da própria escola que providências seriam tomadas, só que tudo não passou de uma brincadeira. Isso rola bastante.

Pergunta pra ela se foi legal participar da tal brincadeira.

Tags : bullyingcrônicafutebolmulheresrespeitosociedade
Marcos Marciano

The author Marcos Marciano

Marcos Marciano é um ser humano amador. Formou-se em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais, lê livros por esporte e escreve por falta de vergonha na cara. Ainda não sabe por que a Débora resolveu se casar com ele.