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Crônica

Eu já quis ser mulher

Dia Internacional da Mulheragem. Impossível não lembrar da vez que perguntei para meu pai o que eu podia fazer para ser hermafrodita. Estava fascinado com aquela possibilidade: ser homem e mulher ao mesmo tempo. Corriam boatos na escola de que o cavaleiro de ouro de Peixes era hermafrodita. Achei o máximo: ser homem e mulher ao mesmo tempo. Entendam. Na minha cabeça de oito anos aquilo era um poder absurdo e ninguém havia tocado no assunto comigo. Meu pai disse que eu devia renascer. Sofri um certo bullying ao compartilhar minha vontade com colegas.

Não renasci, gônodas originais. Minha vontade de ter o ~poder~ do hermafrodita durou apenas três dias daquele 1994 e voltei a querer ser apenas Peter Parker. E o que isso tem a ver com o dia de hoje? Digo o papo sobre hermafrodita, não sobre querer ser o Homem-Aranha. Talvez quase nada para vocês, todavia, sempre que me lembro disso, acabo me fazendo as mesmas perguntas que textos e mais textos na faculdade não responderam satisfatoriamente: o que é ser mulher, o que é ser homem? Às vezes mudo para como ser mulher, como ser homem?, ou por que ser mulher, por que ser homem? e por aí vai.

Enfim, a ideia é que isso seja curto. 8 de março, Dia Internacional da Mulher e não dou parabéns a nenhuma. Não reforço imagens misóginas de falso empoderamento, não enalteço triplas jornadas de trabalho. Não dou flores ou chocolates. Hoje é só mais um dia em que olho para cada mulher que cruza meu caminho e reconstato: não sou melhor do que você por carregar testículos e me autoproclamar homem.

Tâmo junto, mulherada.

Tags : 8 de marçocrônicadia da mulherfeminismohomemmachismomulher
Marcos Marciano

The author Marcos Marciano

Marcos Marciano é um ser humano amador. Formou-se em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais, lê livros por esporte e escreve por falta de vergonha na cara. Ainda não sabe por que a Débora resolveu se casar com ele.