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Crônica

O Brasil não é um tiozão de boteco

O Brasil não é um tiozão de boteco. Apesar do homúnculo que por ora detém a caneta da Presidência da República levantar caixa de remédio como Cafu ergueu nossa última Copa do Mundo, apesar dos jeitinhos e cambalhotas do nosso Supremo e das passadas de pano para decisões de Moro quando juiz, o Brasil não é um tiozão de boteco. Apesar também das estripulias dos filhotes do homúnculo, do Queiroz, do Pantanal em chamas e de Lula se achando o dono da bola da oposição progressista, o país não é um tiozão de boteco. Porra, apesar da pandemia.

Apesar das mais de 110 mil mortes — muitas delas pelo descaso, inabilidade e maldade do homúnculo —, apesar do futebol voltando antes da hora, das falas misóginas de tanta gente em posições relevantes e das imbecilidades proferidas por pessoas que não deveriam ter a importância que têm, nós não somos um tiozão de boteco. Porra,  apesar do homúnculo encarnar o cara que faz piada com gravata rosa, com tamanho de pênis alheio, apesar de oferecer remédio contra malária para aves e de seus ministros merecerem esquetes na Praça é Nossa, apesar dessas coisas, também, o Brasil não é um tiozão de boteco.

Apesar do homúnculo personificar um ideal de macho sujo, desbocado, fazer de conta que é aquele cara que coça o saco antes de bater no tablado pedindo uma dose de Pitú e jurar de pé junto que, sim, é uma máquina de sexo, apesar das campanhas de difamação contra mulheres jornalistas, apesar dos 889 dias sem sabermos quem mandou matar Marielle Franco, apesar dos robôs, cara, apesar dos robôs analfabetos no Twitter, apesar da horda de ruminantes invadindo hospital para conferir se a Covid-19 tava enchendo leito mesmo, apesar das flexões de mentira em tantos vídeos por aí e do namorico com o nazifascismo, o nosso país não é um tiozão de boteco.

E a negação da ciência? Apesar dela também. Apesar do ressentimento que se espalhou por tantos âmbitos nacionais, da impressão de que é a hora e a vez dos melindrosos com as rupturas sociais, sejam elas nos costumes ou não, apesar das lives toscas, apesar das selfies dos bolsonaristas com óculos escuros em seus carros, apesar das camisas da Seleção usurpadas e dos abusos reacionários semanais, quiçá diários, o Brasil não é um tiozão de boteco.

Apesar de lustrarem valores como família, religião e patriotismo, apesar de tais valores serem desculpa para truculência e falta de senso, apesar das vigílias messiânicas mas sem messias, dos autoproclamados defensores da vida invadindo hospital, de novo, e desta vez para aporrinhar uma criança grávida, porra, grávida aos 10 anos e vítima de estupro desde os 6, porra, apesar dessa gente imunda, apesar desse crime hediondo, apesar das discussões e dos veja bens canalhas sobre aborto, o Brasil não é um tiozão de boteco. Nós não somos uma nação de tiozões de boteco.

Esse personagem só está na crista da onda, só está fazendo mais barulho que o normal.

Gente como a ex-feminista com suástica tatuada zurra bem alto, no entanto tem o fim que merece: ostracismo, vergonha, pouca credibilidade. O pedófilo estuprador, a escória que por azar é tio da menininha, foi preso. Há a lei, há as instituições apesar de tantos pesares. Mulheres, tantas mulheres, abandonaram a lacração em redes sociais e foram até o hospital botar para correr os obscurantistas fãs de feto. O médico que realizou o procedimento escarrou a realidade sobre o aborto em nosso país. Há essas pessoas, há quem marque a indignação com seriedade e quer caminhar, quer que isso daqui funcione. Há você e eu, há quem negue que o Brasil é um tiozão de boteco. Nós, não vou cansar de repetir, não somos um país de tiozões de boteco como querem fazer parecer que somos os ressentidos.

Talvez, quem sabe, quando a gana pelo nós contra eles morrer mais um pouco — pois há de morrer —, talvez, quem sabe, teremos mais claros os limites, sem confundi-los com censura ou ilusão de virtude, e então o único som possível de se escutar será o das engrenagens que importam, dos democratas e de quem não crê que ferrar com alguém seja estrada para algum lugar.

Esse país vale a pena.

Tags : bolsonarobrasilcorona víruscrônicamachismopolíticaquarentenasociedade

The author Marcos Marciano

Marcos Marciano é um ser humano amador. Formou-se em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais, lê livros por esporte e escreve por falta de vergonha na cara. Ainda não sabe por que a Débora resolveu se casar com ele.