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Crônica

Meu olho esquerdo

Há alguns anos descobri que tenho uma doença chata nas córneas: o ceratocone. É um saco. De acordo com Paulo Ferrara, médico brasileiro e especialista na matéria, o ceratocone é

uma doença da córnea de etiologia discutida, hereditária, que acomete o adolescente ou adulto jovem e se caracteriza por um afinamento e deformação progressiva desta membrana, levando ao aparecimento de miopia e elevado grau de astigmatismo irregular e acentuada baixa da acuidade visual.

Um saco.

Basicamente eu não posso olhar para nada que emita ou reflita a luz (tudo) sem que fantasmas apareçam em volta daquilo que estou olhando. É um saco, porque olho para a lua e, além dela, vejo umas quatro cópias borradas e sobrepostas. É um saco para ler legendas no cinema. É um saco — e cheguei a essa conclusão há pouco tempo — para alguém que almeja comprar um telescópio.

Mas não é o fim do mundo, pois meu ceratocone é bem mais acentuado no olho direito, e tal fato sempre me leva a brincar de tapar uma ou outra córnea só para enxergar o mundo de dois jeitos. Um jeito bom e um jeito ruim? Quem pode dizer?

Escrevi isso aí em cima, com pequenas alterações, alguns meses após as eleições presidenciais de 2014. Incomodava-me o clima de revanchismo. Pior: incomodava-me a cisão que estava tomando forma desde a apertada vitória de Dilma Rousseff sobre Aécio Neves naquele último domingo de outubro. De repente, ou você era coxinha ou era petralha. As redes sociais viraram um mar de chorume político que não tinha nada a ver com aquela massa de gente que protestou durante a Copa das Confederações de 2013. Daquele segundo turno para cá — e pinço a esmo alguns fatos na política no Brasil — tivemos uma carta ridícula de Michel Temer, conversa vazada entre Dilma e Lula, panelas, Sérgio Moro estampando capas de livros, impeachment apresentado por Eduardo Cunha, Temer no poder, Joesley Batista, Temer preso, assassinato de Marielle Franco, #Elenão, Jair Bolsonaro eleito, mais panelas e uma pandemia com o pior presidente possível no cargo.

Nós contra eles

E o que política tem a ver com meus olhos?

Para cada uma das pinçadas que dei no cenário político recente, houve uma resposta das redes sociais. Para cada uma das situações, cada postagem no Facebook ou Twitter, para cada notícia falsa repassada, para cada gráfico manipulado, cada link compartilhado apenas pelo título, para cada foto de Moro altivo ou Lula amarrotado, para cada imagem de Dilma bicicleteira e Bolsonaro tossindo, houve uma resposta de bate-pronto das redes sociais reforçando a rachadura. Entramos em um vórtice eterno de nós contra eles, uma cruzada quase messiânica para alguns, uma saga meio confusa sobre moralidade para outros. E eu, sempre aqui com meus botões, ora fechando este ou aquele olho, lembrando que desde pequenos enfiam em nossas cabeças que o mundo é e sempre será dividido em dois. Parece que não podemos funcionar de outra maneira. Há o bem e o mal. Há um pick your side constante, um Israel ou Palestina, um azul ou rosa, um petralha ou coxinha. Mas como escolher se, dependendo de qual olho fecho, esquerdo ou direito, o mundo fica sem contorno, borrado e cheio de sobreposições?

Entrei em discussões sobre beber e assumir o risco de matar uma pessoa ao pegar um carro e encontrei divergências entre interlocutores, mas que foram muito boas para todos os lados porque houve troca de informações e empatia onde parecia difícil existir. Todavia, por outro lado, vi pessoas inteligentes, professores, que levantam bandeiras de igualdade e liberdade e inclusão, espumando ao encontrar opiniões diferentes das suas por aí, defendendo o fato de pessoas estarem sendo escorraçadas de faculdades por defenderem pontos de vista antagônicos.

Nos últimos tempos as dicotomias das bolhas têm sido um incômodo para mim. Cansei desse nós e eles sem objetivo, egoísta e — por que não? — narcisista. Não tenho certeza se em algum momento acreditei que exista um nós e um eles. Soa muito fácil transformar a lógica dual em ferramenta para sabe-se lá o quê e acabar ferrando com a vida de alguém. E ferrar com a vida de alguém simplesmente não faz sentido.

Tags : bolsonarobrasilcrônicadireitaolhopolíticasociedade

The author Marcos Marciano

Marcos Marciano é um ser humano amador. Formou-se em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais, lê livros por esporte e escreve por falta de vergonha na cara. Ainda não sabe por que a Débora resolveu se casar com ele.