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Reflexão

O sangue que corre em nossas veias

Eu fiz uma viagem ao Peru com a Débora aqui do blog, mais especificamente para os arredores de Cusco e Machu Picchu (aprendi que se diz “mátiu píquetchu”). Foi uma ótima oportunidade para aprender mais sobre o Império Inca e conhecer uma das Sete Maravilhas do Mundo Moderno. Mas por incrível que pareça, uma coisa me incomodou durante toda a viagem.

Em nossos passeios e contatos com os peruanos, eu observava o orgulho que todos sentiam dos seus antepassados e como o povo ainda mantém a cultura inca presente no dia a dia: seja nos hábitos, nas vestimentas, no diálogo (a segunda língua do Peru é a Quechua, língua que era falada pelos Incas) e até na estrutura dos monumentos e casas, onde ainda havia vestígios das construções incas. Tudo isso me fez pensar que eu não sei muito sobre nossas origens e acredito piamente que grande parte do povo brasileiro não saiba.

Nossa origem nativa

Há um tempo, conversei com meus pais sobre meus antepassados. Sei que por parte de mãe tenho ascendência portuguesa e indígena; já por parte de pai, tenho ascendência negra (meu avô, infelizmente falecido, disse que uma de suas bisavós foi capturada a laço. Bem horrível). Mesmo com essas informações, nunca mais quis saber a fundo sobre a minha própria origem (indígena, negra e até mesmo a portuguesa), e por consequência, o que de tradições eu poderia manter em respeito aos meus antepassados.

Claro que esse resquício de vontade de saber sobre nossos antepassados não é nada parecido com as pesquisas de historiadores, antropólogos e sociólogos sobre a origem do povo brasileiro, já que o Brasil é um dos países mais miscigenados do mundo (índios, os negros vindos da África, os colonizadores portugueses e diversos imigrantes: franceses, holandeses, italianos, japoneses, alemães, entre outros).

O grupo de pop Rouge é um retrato da miscigenação do Brasil. (Foto/Divulgação)

Olhando para trás, vejo inúmeras consequências negativas de como a invasão europeia se deu em nosso país e acredito que esse nosso desinteresse pelas culturas indígenas seja uma delas. Mas quero me portar de um jeito diferente, então, fiquei curiosa para saber mais detalhes sobre elas.

Já tinha ciência de que existem órgãos como a Funai (Fundação Nacional do Índio) e o Ipan (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) que fornecem dados diários sobre a situação atual. Mas durante minha rápida pesquisa, relembrei de um livro/documentário que um professor de faculdade utilizou bastante nas aulas de História do Brasil: “O Povo Brasileiro – A formação e o sentido do Brasil”, do antropólogo Darcy Ribeiro. Ele fala sobre como foi a chegada dos portugueses e a brutalidade da formação do povo brasileiro com a colonização.

Ainda nas minhas pesquisas, me deparei com esse vídeo super didático do Canal do Slow a respeito dos primeiros “brasileiros” no continente americano. Foi uma grata surpresa, porque não existem muitos materiais que expliquem tão bem e de forma tão simples sobre esse assunto. Segue o vídeo:

Utopia?

É claro que essa pequena pesquisa que fiz é ínfima em relação ao tanto de informação que existe sobre a questão indígena no Brasil. E tenho ciência de que o que inseri aqui não é nada perto do que merecem de visibilidade. Hoje mesmo, estamos vendo ao vivo e a cores o que o atual governo está fazendo em relação às propriedades indígenas e com a Floresta Amazônica, sinalizando o tamanho desrespeito com todos os povos existentes no Brasil. É de dar vergonha, afinal estudos demonstram a importância dos indígenas na manutenção das florestas.

Índia da tribo Awá Guajá, do Maranhão. (Foto/Fiona Watson)

E diante disso tudo, volto para o meu incômodo durante a viagem ao Peru e penso como algumas coisas no Brasil poderiam ser diferentes. Já imaginou se todos falássemos, além do português, alguma língua indígena como o tupi-guarani? Segundo o IBGE são mais de 200. E se nossos feriados fossem datados de acordo com cada religião-cultura indígena? Ou se fôssemos devotos dos costumes e crenças de cada tribo, ou se as tratássemos com a mesma importância e respeito que as do cristianismo? Como o Brasil seria?

Para a maioria dessas perguntas eu não sei a resposta, mas quanto ao respeito, ainda dá tempo de fazer alguma coisa e mudar a forma como enxergamos os povos indígenas. Seja pesquisando sobre as tribos ainda existentes ou até mesmo visitando-as. Porque a casa é tão deles quanto nossa. E o sangue que corre nas veias deles é o sangue que corre em nossas veias também.

Tags : brasilculturahistoriamiscigenaçãoorigempovo indígena
Marcella Oliveira

The author Marcella Oliveira

Formada em Publicidade, Marcella caiu de paraquedas no Jornalismo e acabou se apaixonando por ouvir e contar histórias. É uma seriadora assídua e uma gamer de araque (prefere assistir a jogar). Almeja dar a volta ao mundo, mas antes quer desbravar esse "Brasilzão de meu Deus".